TANNER, André. Gnostiques de la Révolution. Paris: Engloff, 1946
MINISTÉRIO DO HOMEM-ESPÍRITO
Veremos surgir de tudo isso uma clareza que poderá parecer extraordinária, mas que não será menos real: é que se o homem (que, observemos bem, não é deste mundo) é um meio seguro e direto de demonstrar a essência divina; se as provas que tiramos da ordem externa deste mundo são defeituosas e incompletas; enfim, se as suposições e verdades abstratas que atribuímos a este mundo são tomadas na ordem metafísica e não têm existência na natureza; resulta evidentemente que não compreendemos nada neste mundo em que estamos, a não ser pelas luzes do mundo em que não estamos; que é muito mais fácil alcançarmos as luzes e as certezas que brilham no mundo onde não estamos do que nos naturalizarmos com as obscuridades e as trevas que envolvem o mundo onde estamos; que, finalmente, já que é preciso dizê-lo, estamos muito mais próximos do que chamamos de outro mundo do que deste.
Não é difícil concordar que é por abuso que chamamos de outro mundo o mundo onde não estamos, e que é este que realmente é o outro mundo para nós.
Pois se, a rigor, duas coisas podem ser outras uma para a outra, há, no entanto, entre elas uma prioridade, seja de fato, seja por convenção, que obriga a considerar a segunda como outra em relação à primeira, e não a primeira como outra em relação à segunda; já que o que é primeiro é único e não pode oferecer diferença, por não ter ponto de comparação anterior a si mesmo; enquanto que o que é segundo encontra antes de si esse ponto de comparação.
Tal é o caso dos dois mundos em questão. De fato, deixo ao leitor a tarefa de comparar as luzes e as certezas que encontramos na ordem metafísica, ou no que chamamos de outro mundo, com as obscuridades, as aproximações e as incertezas que encontramos naquele em que habitamos; e deixarei também que ele pronuncie se o mundo onde não estamos não tem alguns direitos de prioridade sobre este onde estamos, tanto pelas perfeições e conhecimentos que nos oferece, quanto pela antiguidade que parece ter sobre este mundo de um dia onde estamos presos.
Pois só os escravos da ignorância e dos julgamentos precipitados poderiam imaginar rebaixar o espírito da matéria e, consequentemente, o que chamamos de outro mundo a este, enquanto este, ao contrário, pareceria derivar do outro e vir só depois dele.
Assim, se o mundo onde não estamos, enfim, se o que chamamos de outro mundo, tem, em todos os aspectos, prioridade sobre este, é realmente este mundo, ou o mundo onde estamos, que é o outro mundo, uma vez que tem antes dele um termo de comparação do qual é a diferença; e o que chamamos de outro mundo, sendo um ou o primeiro, traz necessariamente consigo todas as suas relações, e só pode ser um modelo e não um outro mundo.
Isso nos mostra também o quanto o Homem-Espírito deve se sentir extra-alinhado ao estar preso pelos elementos materiais, e o quanto esses elementos materiais ou este mundo são insuficientes para sinalizar a Divindade: assim, rigorosamente falando, nunca saímos do outro mundo ou do mundo do Espírito, embora poucas pessoas acreditem em sua existência. Não podemos duvidar dessa verdade, pois, mesmo para valorizar as provas que tiramos da matéria ou deste mundo, somos obrigados a atribuir-lhe as qualidades do espírito ou do outro mundo. A razão é que tudo depende do espírito e tudo corresponde ao espírito, como veremos a seguir.
Assim, a única diferença entre os homens é que uns estão no outro mundo sabendo disso, e outros estão lá sem saber.