Contos de angústia

R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.

Outra variedade literária, cujos autores ou, pelo menos, cultivadores sistemáticos são os árabes, e da qual há abundante amostra no livro, é a que se poderia chamar “conto de angústia” — como se diz conto de medo —, que começa bem e termina igualmente bem, mas quando parece que acabará mal; no núcleo dessas histórias há um grave perigo, às vezes mortal, do qual o protagonista se salva mediante uma intervenção inesperada e, às vezes, maravilhosa, terminando em sainete aquilo que ameaçava ser uma tragédia. O conto de angústia, que em nossos tempos constituiu todo um gênero literário, é, entre os árabes, de raiz mística e de tendência edificante, e tende a inspirar ao crente confiança no auxílio de Alá, que vem quando menos se espera. Corresponde ao adágio “Deus aperta, mas não sufoca”. Às vezes, porém, o aperto da necessidade é tão forte que o auxílio chega tarde, e o indivíduo se salva como a raposa do conto: deixando na armadilha uma mão ou as orelhas. Veja-se toda essa série das mãos cortadas.

Entre essas histórias de angústia, há algumas muito patéticas e impressionantes, por razões puramente literárias. A intenção edificante delas aparece clara no título do já mencionado livro do xeique Abu-Ali-l-Kázi-At-Tenuji, Al-Farchu bâdi-sch-schiddet (O gozo após a aflição), que, no século X da Hégira, Husein-benllu-s-Sâd al Dehistani traduziu para o persa. Nesse livro, cada história é seguida de uma Al-Faida ou moral, que expõe claramente seu sentido. Esse livro, e também o Il-lamu-n-Nas ou O sabedor das gentes, do xeique Abdu-r-Rahman Al-Atlidi, podem ter sido as fontes de mais de uma anedota dessa índole entre as que figuram em As mil e uma noites, a menos que umas e outras tenham bebido nas mesmas fontes.

Merecem também menção, como produtos literários tipicamente árabes, as ruyas, de raua, dar de beber, ou narrativas de fonte tradicional, recontamentos, como as chamam nossos mouriscos em seus textos aljamiados, isto é, repetições de outros rapsodos, com cujos nomes são referendadas e autorizadas, embora, naturalmente, não se lhes deva conceder muita fé. Nas ruyas cabem todas as formas e todos os temas, sempre que sejam de caráter raro, singular e mais ou menos fabuloso; as ruyas representam um trabalho de carreamento, constituem o repertório dos jograis ou rauis, que, em sua necessidade de ter sempre prontas histórias dessa classe, lançam mão de quantos elementos encontram na tradição escrita ou oral, e assim, nesses recontamentos, reproduzem passagens edificantes de toda a literatura pietista evangélica, búdica ou cristã, que encontram abundantemente à sua disposição.

Quando a ruya se desinteressa de seu fim didático e aspira apenas a entreter, passa a ser a nadira, curiosidade, raridade, chiste etc., e toma seus elementos principalmente do folclore. Veja-se esse conto dos despropósitos na História de Harunu-r-Raschid e Alí, o persa, ou conto do persa e do curdo (Noites 208 e 209).