R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
As mil e uma noites têm um duplo interesse para os públicos, sendo de uma parte um livro para crianças e mulheres e de outra um livro para adultos capazes de pensar
As histórias fantásticas inspiram desdém às pessoas graves faltas de imaginação, mas deleitam as crianças
As leituras infantis determinam reflexos que revivem no adulto, movendo seus resortes psíquicos, querências e nostalgias
O adulto que rejeitaria o livro se o lesse pela primeira vez volta a tomá-lo e descobre belezas e profundezas antes insuspeitadas
São as crianças que mantêm o nexo entre as gerações de leitores e eternizam as obras chamadas eternas
As crianças conhecem esses livros em adaptações acomodadas ao seu grau de desenvolvimento intelectual
Obras monumentais como a Ilíada, o Ramáiana, o Quixote e o
Fausto não o são segundo a letra, mas segundo seu espírito difundido pela lenda
Em sua forma escrita, essas obras imortais o são ao modo das múmias, que precisam ser injetadas de quando em quando de sucos vitais
Não se deve censurar os autores de Quixotes para crianças, pois eles tornam possíveis os Quixotes integrais para homens
Na infância, As mil e uma noites impressionam pelo maravilhoso; na juventude, pelo romântico; na maturidade, por um sentido novo, moral e filosófico
Na infância, aceitam-se de boa-fé e com fruição todas essas belas mentiras, incorporando-se como vitaminas
Na juventude, as heroínas apaixonadas que morrem de amor absorvem os sonhos eróticos e convertem-se em amadas ideais
Na idade madura, com o ansia de saber suplantando o anseio de amar, volta-se a ler o livro e encontra-se um sentido profundo porque o leitor o tem
É o mesmo processo que se dá na espécie inteira, que passa da idade poética à crítica e dos mitos à mitologia
Na idade senil, o leitor volta a sentir as belezas poéticas do livro e a se enamorar dele com um amor intelectual
Esse é o caso dos exegetas cervantinos, entre os quais não há um só jovem, e de Roso de Luna, que passava dos cinquenta quando escreveu O véu de Ísis
Há um erotismo senil nesse afã de levantar véus intelectuais
As mil e uma noites mantêm sua continuidade de interesse, encantando o menino e proporcionando entendimento erudito à velhice desencantada
O livro morre e renasce sem cessar, como uma fênix literária
No fundo, nada morre, se transforma apenas, e o que parece morto nesses livros segue vivendo em outra forma ao redor
Tudo em literatura se reduz a transformações e transferências, com uma constante palingenesia de mitos e argumentos
O poema épico existe na novela moderna em todas as suas variedades, com o elemento maravilhoso proporcionado pelos descobrimentos da ciência
Aquiles e Heitor revivem nos modernos pugilistas que lutam nos ringues; o gênio aventureiro de Simbad tem seu traslado nos Stanley e Nordenskiold
O espírito cavalheiresco de Dom Quixote encarna novamente nos Búfalo Bill e outros heróis do ciclo épico do Far West
Os buscadores de tesouros mil-e-una-noitescos têm seu avatar legítimo nos buscadores de diamantes do Cabo e de ouro e petróleo na Califórnia
Todas essas manifestações da evolução literária incesante atualizam o interesse de As mil e uma noites
A obra aparece profética, dotada de antecipações e de uma carga de futuríveis que lhe permitem sincronizar-se com os gostos do homem moderno
O livro tem as duas faces que maravilhavam Domingos Cortês na Bíblia: uma ao passado e outra ao futuro
O estudioso pode encontrar vestígios de épocas antiquíssimas, como totem, tabu, matriarcado, rapto nupcial e sacrifício do primogênito
Há tradições de civilizações primitivas simbolizadas em mulheres-serpentes e mulheres-cisnes, e costumes como a poliandria confirmada pelo Mahabharata
Há em As mil e uma noites histórias de um encanto poético único, insuperável e perene
Histórias como as de Anisu-l-Uchud (Noites 249 a 258) e do príncipe Yasmin e da princesa Alosa (Noites 818 a 821) estão entre o mais belo e puro que o idealismo do homem pôde criar
A carga de emoção patética de história como a de Asis e Asisa (Noites 104 a 120) nunca deixará de atuar sobre a sensibilidade dos homens
O valor poético da obra está por cima das flutuações da moda
Como disse o grande De Sacy, a obra não apresenta nenhum objeto moral ou filosófico, mas seu sucesso cada vez maior não padeceu o menor menoscabo com os caprichos da moda ou a variação dos costumes