R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
A composição literária chamada de mekama ou makama é tipicamente árabe, sendo seu nome equivalente a sessão, e supõe um auditório sentado ao qual o narrador, também sentado, conta sua história.
O padre Scheijo define que o objeto principal da mekama é reunir pérolas de dicção e raridades retóricas e citações tomadas de poetas e prosadores mais famosos e excelentes.
O autor de uma mekama deve ser homem versadíssimo em literatura e em toda sorte de recursos retóricos para poder adornar sua história com esses primores e galas.
O que caracteriza a mekama e a distingue do conto em geral são as exigências que se lhe impõem quanto ao primor e elegância do estilo.
A mekama aparece tardiamente entre os árabes, pois pressupõe um rico fundo literário, datando sua aparição do século VI da hégira, ou seja, da época medieval de sua literatura, quando esta já toca sua decadência.
A mekama exige elevação do estilo, sendo seu meio de expressão mais adequado a prosa ornada, rítmica, floreada de tropos raros e peregrinas flores de engenho, flores de estufa, não de campo nem mesmo de jardim.
A mekama exige essa elevação do estilo.
A mekama apresenta um curioso contraste entre seu fundo medieval e sua forma decadente, preciosista.
Por um lado, assemelha-se aos fabliaux do Ocidente e, por outro, às composições gongóricas do século XVII.
Em As mil e uma noites há amostras de mekamats que, em seu lugar adequado, se fazem ressaltar à atenção dos leitores, suplindo os árabes com essas variedades literárias mais propriamente suas a ausência de outros gêneros de composição.
Com essas variedades literárias mais propriamente suas, os árabes suprem a ausência de outros gêneros de composição em que, por umas ou outras razões, não chegaram a exercitar seu engenho.
Um desses gêneros ausentes é o teatro.
Antes de passar ao teatro, deve-se encerrar esta revista do narrativo mencionando as silvas de histórias quase históricas, anedotas e episódios que os rapsodas intercalam para alívio da atenção entre seus longos contos e novelas.
As anedotas em questão incluem histórias como as de Hátim ibn Tayyi, a cidade de Lebta, e as referentes a poetas e músicos familiares dos califas.
A maioria dessas anedotas tem uma base histórica e procede de analectas como as já citadas de Al-Atlidi e Al-Masûdi.
Em ocasiões, essas anedotas se alongam e complicam, chegando a formar verdadeiras novelas que introduzem na intimidade da vida dos haréns dos palácios, constituindo uma interessante variedade da narrativa.
Nessas novelas, como guiados por um duende de palácio, penetra-se nos divãs e nas alcovas dos califas.
Os califas são surpreendidos em seus momentos de expansão e abandono, rodeados não de seus graves vizires, mas de belas odaliscas que cantam e dançam para eles e para seus íntimos amigos.
Por essas histórias se toma conhecimento dos enredos dos haréns, dos ciúmes das sultanas e das suspeitas dos sultões, a quem suas favoritas, de acordo com suas donas ou seus eunucos de guarda, logram enganar introduzindo estranhos nesses recintos reservados às senhoras.
Quem mais argumentos proporciona para esta classe de histórias é o enamoradiço Harun al-Raschid.
Harun al-Raschid tem contínuas infidelidades a sua esposa e prima Sobeida, essa grande mulher, justamente ciumenta.
Sobeida, conhecendo o ponto fraco do marido, se dá pressa a pôr remédio, desfazendo-se de suas perigosas rivais não pelo punhal ou veneno, mas simplesmente por meio do ópio.
Ela faz o ingênuo Harun acreditar em uma morte repentina de suas adoradas.
Sobeida pareceu considerar especialmente perigosa a chamada Kutu-l-Kulub (Pábulo ou Poder dos corações), pois em duas histórias a vemos dando-a por morta diante de seu esposo, e em ambas fracassando em seu empenho, tendo que admitir novamente em seu harém a rival ressuscitada.
A primeira história é a do sudanês Bujait, o escravo, o terceiro (Noites 55 a 60).
A segunda história é a de Jalifa e o califa (Noites 894 a 910).
Essas picantes histórias permitem formar uma ideia de quanto deve ter sofrido a magnífica, pomposa e já madura esposa desse Luís XIV oriental com a constante aparição em seu palácio de mulheres jovens, lindas e educadas em todas as artes, especialmente na arte de agradar aos homens.
Sobeida já não podia lutar com essas rivais sem valer-se de seus fueros de rainha no verdadeiro terreno feminino.
Esse é um drama que se vê repetir em múltiplos casos.
Esse drama se complica com o outro conflito econômico da sucessão ao trono, origem de lutas encarniçadas e surdas entre esposas e concubinas e entre filhos legítimos e bastardos.
Essa é a trágica consequência da poligamia.