R. CANSINOS ASSENS, in Libro de las mil y una noches: el de los conocimientos maravillosos y las historias entretenidas, peregrinas … 5 ̇ed ed. Madrid: Aguilar, 1992.
As Mil e Uma Noites se assemelham a um grande rio que se torna caudaloso ao aproximar-se do mar, ou a uma grande cidade cujas origens se ignoram.
A origem do Nilo, por tanto tempo desconhecida, foi enfim descoberta, mas as fontes das Mil e Uma Noites permanecem por descobrir.
Os mais famosos orientalistas europeus não lograram descobrir as origens desse Ganges literário, emitindo apenas conjecturas e hipóteses sobre a gênese e formação do popularíssimo livro.
Entre os exploradores da literatura oriental figuram Guilherme Jones, Kosegarten Klaproth, Silvestre de Sacy — nomes que correspondem, no campo literário, aos Marco Polo, Ibn Batutah, Livingstone e Nordenskiöld das explorações geográficas.
Há um único ponto de convergência entre todos os investigadores: a ascendência ário-persa desse fantasma literário que se apresenta vestido de túnica e turbante, falando árabe florido nas cortes dos califas, mecenas de poetas e literatos.
Os árabes não teriam sido os criadores, mas simples intermediários dessa transmissão espiritual — introduzindo as Mil e Uma Noites no Ocidente com seu selo islâmico, tal como introduziram a canela da Índia e a rosa da Pérsia.
O selo islâmico sob o qual o livro foi transmitido carrega a fórmula: “Não há mais Deus que El-Dio”.
Ao investigar mais a fundo a origem do livro, a perplexidade irrompe e os exploradores se detêm desorientados — alguns fixando-se na Pérsia dos pálavi, sucessora da Pérsia de Zaratustra e dos Livros Sagrados escritos em zenda, como pátria provável da obra.
Scherazade — Schahrasad — é filha dessa tradição persa que se supõe berço do livro.
Ao conquistar a Pérsia dos sassânidas no ano 18 da hégira, os árabes sob o califado de Omar — esse Saulo islâmico — derrotaram o último monarca Iezdigerde III diante das muralhas de Nehavend, recolhendo como espólio de guerra não apenas um vasto império territorial, mas também o rico patrimônio espiritual da velha nação iraniana, entre cujos tesouros figuraria o famoso livro.
Os persas, por sua vez, não foram na história senão intermediários, como os próprios árabes — situados geograficamente entre Oriente e Ocidente, transmitindo com uma mão o que recebiam com a outra.
Além dos persas está a Índia — mãe, criadora, berço dos povos — onde a vida consciente do homem tem início e onde se conservam, em forma de lenda e mito, as mais remotas memórias de sua vida inconsciente.
A Índia disputa com o Egito e a China o recorde da antiguidade e do saber antigo, tendo sido por muitos séculos o extremo mais remoto do Oriente conhecido pela Europa.
Quando Alexandre Magno irrompeu na Índia, jovem como um deus, à frente de um exército de guerreiros, poetas e filósofos, todas as coisas já eram velhas naquele território.
Os gregos voltaram da expedição alexandrina carregados de rico e variado espólio: ouro, prata, livros, lendas e até uma seita filosófica — a dos gimnosofistas ou desnudos, que iam além de Diógenes e prescindiam até da túnica, como ele prescindira do vaso.
Antes da epopeia alexandrina — século IV antes da era cristã — os persas, vizinhos e consanguíneos dos indianos, já haviam tomado destes muitas coisas, ou melhor, não as tomado, mas trazido, pois houve um momento em que persas e indianos eram os mesmos ou, ao menos, irmãos carnais da grande família aria, residindo ainda na península do Pendjab.
Populações de ascendência iraniana no Pendjab falam um persa um tanto dialetal e arcaico, mas compreensível em Teerã — conforme registra Chodzko em sua Gramática da Língua Persa.
A língua zenda, em que foi escrito o Código Religioso de Zaratustra — Zerduscht ou Zoroastro — é tão afim ao sânscrito dos Vedas que por vezes parece a mesma língua, com variantes análogas às que distinguem o caldeu do hebraico bíblico, segundo a Gramática Comparada de Bopp.
Persas e indianos compartilhavam o mesmo patrimônio de cultura nascente, o mesmo solo e os mesmos elementos naturais enquanto habitavam a meseta asiática identificada pelos etnólogos como ponto de partida das emigrações raciais.
Ao deslocarem-se para o Oeste e para o Sul, os persas carregam consigo esse patrimônio cultural, composto principalmente de folclore, mitologia e o rito de Agni — o Fogo —, que será a base da religião zoroástrica.
Após a constituição do grande império persa de Ciro, os iranianos mantiveram relações de toda ordem com os indianos — inclusive bélicas —, e a leitura de Heródoto permite descobrir, sob o verniz helênico, a raiz persa de muitos nomes que denunciam a origem iraniana de coisas tidas por gregas.
Os persas exercem com os gregos o mesmo papel que depois exercerão com os árabes, que por sua vez arabizam os empréstimos recebidos — tornando-os irreconhecíveis — de modo que as Mil e Uma Noites, supondo-se de origem ário-persa, falam árabe e rezam a Alá, e os árabes que lhes deram a língua merecem ser contados entre seus pais.
Toda essa cadeia de transmissões torna muito difícil classificar com exatidão esse livro, que permanece na vaga região do asiático — e é nesse ponto que a investigação deve, por ora, deter-se.
As Mil e Uma Noites devem sua existência às noites da Ásia, sendo em si mesmas uma coleção de histórias da noite — o que explica o caráter obscuro de suas origens.
A literatura grega nasce à luz do dia sob os auspícios de Hélio, enquanto a literatura oriental se abre, como o loto, sob o olhar da Lua.
No Oriente, tudo repousa adormecido durante o dia ardente e ofuscante, e é somente à noite que a Natureza e os homens se reanimam e começam verdadeiramente a viver.
Nas horas suaves e tranquilas, arejadas pelas brisas fragrantes, as mulheres deixam o harém e se reúnem nos terraços para saborear sorbetes perfumados e contar histórias, enquanto os homens se juntam em átrios, praças e açoteias para tecer diálogos e narrar casos vividos ou ouvidos.
Os reis orientais, sempre tomados por preocupações de ordem política ou doméstica, entregam-se nessa hora à expansão, esquecendo suas longas sessões no diván e fazendo com que seus visires deixem de ser ministros para se tornarem jograis.
Esses reis costumam sofrer de insônias e, para entreter suas vigílias e predispor-se ao sono, recorrem ao benígno hipnótico do conto ou história, que distrai sua mente do presente e os transporta a regiões de devaneio.
As histórias suprem nesses tempos a ausência do rádio e do cinema, e todos os monarcas do Oriente mantêm em torno de si um numeroso corpo de jograis e recitadores — de Alexandre Magno conta-se que, em sua expedição à Índia, levava consigo esse séquito de narradores encarregados de amenizar suas noturnas, e não se sabe se algumas dessas histórias deleitaram os ouvidos daquele semideus.
Era tamanho o temor que os monarcas e sultões sentiam ante a possibilidade de que lhes faltassem histórias noturnas, que mandavam escrever as que mais apreciavam e guardá-las em seus arquivos para ouvi-las novamente em épocas de penúria inventiva de seus jograis.
Essa foi a origem dos anais, crônicas e histórias — como as reunidas na Bíblia —, sendo o Livro de Ester um exemplo notável dessa formação.
Por vezes os próprios visires atuavam como jograis e aproveitavam a ocasião para admoestar o rei e dar-lhe lições indiretas de boa política, valendo-se da fábula zoológica para velar suas intenções sob essa máscara impessoal.
Foi assim que nasceram na Índia obras como o Panchatantra e seu epítome, o Hitopadexa — que a Europa conheceu no século XIII com o nome de Livro de Calila e Dimna.
Dessa fonte brotaram as lendas e tradições que constituem a base do folclore ocidental e que, após encantar as noites de déspotas monarcas orientais, vieram encantar as noites das crianças inocentes e boas.
A esse conjunto de histórias pertencem as que formam as Mil e Uma Noites — muitas das quais chegaram pela tradição oral antes de serem conhecidas em livro, desfiguradas e fantasiadas, como a história de Ester e Assuero, a de Alexandre o Grande, e toda a mitologia épica e cavalheiresca que dimana do ciclo da guerra de Troia, eco distante do Mahabharata e das guerras da época feudal dos hindus, refundido pelos jograis medievais.
Não é a primeira vez que se observa o maravilhoso poder andarilho dessas histórias antiquíssimas, que percorrem de um extremo ao outro do mundo conhecido nos lábios de viajantes, peregrinos e mercadores, formando uma literatura oral à parte — e uma versão desse tipo é o Poema de Alexandre no medievo espanhol.
A tradição oral introduziu na Europa, nesses séculos, muitos argumentos e temas exóticos que chegaram ao conhecimento das pessoas cultas antes mesmo de seus originais escritos — trata-se de uma prodigiosa metempsicose das ideias, de uma assombrosa transmigração de almas literárias.
Foi dessa forma que as Mil e Uma Noites chegaram também à Europa, sem nome nem paternidade, antes que o orientalista francês Antoine Galland as apresentasse traduzidas a seus compatriotas no século XVIII.
Por efeito dessa irradiação difusa, anônima e oral, passaram à literatura ocidental fragmentos das Mil e Uma Noites — argumentos e temas sem nome, pois somente os livros o têm —, provenientes do grande ciclo épico da Índia que depois transbordou para os livros de cavalaria e para o romance, dionisiacamente despedaçado e transfigurado em milhares de avatares.
Pelos venezianos — imemoráveis traficantes com o Oriente, mercadores e viajantes de raça — penetraram na Europa, junto com as aromáticas especiarias das Índias, muitos argumentos igualmente picantes, e em Boccaccio e em Bandello pode-se perceber esse aroma de Oriente que transcendeu a Shakespeare e a Calderón, impregnando-se de sentido filosófico.
A crítica erudita identificou, após o livro tornar-se conhecido na Europa, transfusões de seu fundo oral e anônimo em El patrañuelo de Timoneda, em A megera domada de Shakespeare, em A vida é sonho de Calderón, e no canto XXII do Orlando Furioso de Ariosto — onde já aparece o argumento inicial do livro asiático: a infidelidade das esposas, causa da misoginia dos dois reis irmãos Schahriar e Schahsemán.
Tudo isso, porém, só foi reconhecido depois que Galland publicou sua tradução francesa — até então conheciam-se histórias das Mil e Uma Noites, mas não as Noites como tais.
Por mais estranho que pareça, o nome Mil e Uma Noites jamais havia soado na Europa até o século XVIII, ainda que já no século X ou XI existisse, segundo os eruditos, o núcleo central do livro, e as comunicações com o Oriente nunca tivessem sido interrompidas.
A Tumba do Grande Khan na Tartária — suposta repleta de tesouros — e o Sepulcro de Cristo em Jerusalém funcionaram como ímãs poderosíssimos que atraíram viajantes e peregrinos cristãos e provocaram as três mobilizações em massa das Cruzadas.
Marco Polo, no século XII, inaugurou o itinerário que muitos outros haveriam de seguir — do norte da China até as ilhas do Ceilão, Madagascar e Java, ou seja, todo o mapa das viagens de Simbad, o marujo —, e a ele se devem as fastuosas descrições da corte de Kublai Khan, sucessor de Genghis Khan, com seus imensos palácios, jardins maravilhosos e toda a cenografia mágica evocada pelas Mil e Uma Noites.
Marco Polo desceu até Jerusalém, meta obrigatória de sua rota, encerrando assim sua viagem entre dois sepulcros.
Depois dele, Pietro della Valle percorreu o mesmo itinerário, e sobre seus passos vieram outros viajantes ingleses, alemães e franceses, cuja série se encerra, no século XVI, com Tavernier e Chardin.
Todos esses viajantes passaram pela Síria, onde Galland encontrou seu manuscrito das Mil e Uma Noites, e todos puderam ao menos ouvir, nos bazares e cafés do Oriente, alguns desses contos recitados por jograis — e, no entanto, não foi assim: a Europa nada soube desse livro até o século XVIII, nem sequer o nome.
As Mil e Uma Noites, como tais, somente soam e são conhecidas na Europa quando, em 1704, Galland publica em Caen a primeira parte de sua tradução — Les mille et une nuits. Contes arabes d'un auteur inconnu —, e essa é a primeira aparição oficial do livro no Ocidente, apresentado pelo orientalista e diplomata francês nos salões de Paris.