Muitas pessoas formam opiniões sobre
Beowulf após ler apenas uma tradução ou um resumo simples, como um crítico famoso que o classificou como “apenas cerveja fraca”.
A tradução em prosa não serve para julgar o original, mas sim como auxílio de estudo para quem não lida diretamente com a poesia.
Mesmo em assuntos como nomes heroicos ou crenças antigas, o uso de evidências do anglo-saxão não é seguro sem conhecimento da língua original.
A repetição de uma mesma palavra no original não pode ser mantida na tradução com um único termo moderno, como ocorre com “eacen”, traduzido como “robusto”, “largo”, “enorme” ou “poderoso”.
O termo “eacen” significa “aumentado” e carrega uma conotação de poder sobrenatural, aplicado a
Beowulf, a espada do gigante ou o tesouro do dragão.
A expressão “eacne eardas” (moradas dos monstros) pode indicar um poder extra além do perigo natural, mas nem toda tradução literária consegue captar essas nuances.
Muitas palavras poéticas do inglês antigo não têm equivalentes exatos no inglês moderno, pois trazem ecos de tempos antigos além das fronteiras da história nórdica.
Para quem tenta ler o poema original, uma boa tradução auxilia o trabalho honesto, sem substituir o estudo essencial da gramática e do glossário.
O inglês antigo não é uma língua muito difícil, mas o idioma e a dicção da poesia anglo-saxônica são complexos, com métrica e convenções diferentes das modernas.
Várias palavras e frases aparecem raramente ou apenas uma vez, como “eoten” (gigante) e “hose” (séquito), cujo uso exato e raridade na época do poeta são incertos.
As dificuldades incluem o aprendizado de palavras que raramente serão úteis novamente e os compostos descritivos, estranhos aos hábitos literários atuais.
Exemplos de compostos poéticos incluem “sundwudu” (madeira da inundação, para navio) e “swanrad” (estrada do cisne, para mar), cuja tradução literal ou resolução em frase apresenta dilemas.
A expressão “onband beadurune” (desatou uma runa de batalha) tem ar antigo, sugerindo feitiços que provocavam tempestades em céu claro.
Para estudiosos do século XVII e XVIII, a poesia saxônica parecia um tecido de enigmas e palavras difíceis, mas o elemento de enigma não torna o verso obscuro intencionalmente.
O objetivo primário dos compostos era a compressão, a força da brevidade, empacotando cor pictórica e emocional dentro de uma métrica sonora lenta.
A tradução de Clark Hall, embora útil, continha coloquialismos desnecessários (“montes de rixas”) e termos inadequados (“réptil” para dragão, “gemas artísticas brilhantes”).
A revisão corrigiu esses aspectos, mas nenhuma tradução deve ser usada servilmente por quem tem acesso ao texto original.
A principal função de uma tradução para o estudante é fornecer um exercício de correção, não um modelo para imitação.
O esforço de traduzir ou melhorar uma tradução desperta a compreensão do original, sendo mais proveitoso que anotações interlineares.
A linguagem da tradução de
Beowulf deve ser literária e tradicional, pois a dicção do poema já era arcaica e artificial na época em que foi feito.
Palavras como “beorn” (guerreiro, originalmente “urso”) e “freca” (lobo, “ávido”) eram poéticas e nunca fizeram parte da fala coloquial, sobrevivendo por mais de mil anos em verso aliterativo.
Evitar a linguagem trivial atual é necessário para não deturpar o estilo do autor, preferindo-se “golpear” a “bater”, “discurso” a “papo”, “convidados” a “visitantes”.
O defeito oposto, usar palavras apenas por serem antigas ou obsoletas, também deve ser evitado; os termos escolhidos devem permanecer em uso literário entre pessoas educadas.
A falácia etimológica é enganosa: “wann” não é “pálido” mas “escuro”; “mod” não é “humor” mas “espírito”; “burg” não é “distrito” mas “lugar forte”; “ealdor” não é “vereador” mas “príncipe”.
A variação de sinônimos no inglês antigo para “homem” (como beorn, ceorl, freca, guma, hæleð, leod, rinc, secg, wer) é difícil de igualar em inglês moderno, mesmo com uma lista extensa.
Não há necessidade de evitar palavras de cavalaria como “cavaleiros”, “escudeiros”, “cortes” e “príncipes”, pois os homens dessas lendas eram concebidos como reis de cortes cavalheirescas.
A tradução de compostos poéticos exige hesitação entre nomear o objeto (como “harpa” para “gomen-wudu”) ou resolvê-lo em uma frase (como “madeira da alegria”).
Compostos prosaicos (como “mundbora”) podem ser traduzidos diretamente por “protetor” ou “patrono”; os intermediários (como “heals-beag” – colar de pescoço) permitem equivalentes compostos em inglês moderno.
Os compostos poéticos ou “kenningar” (como “swanrad”, “beadoleoma”, “woruldcandel”, “goldwine”, “banhus”) oferecem uma descrição imaginativa e devem ser preservados, não meramente substituídos pelo nome simples.
Expressões como “banhus” (casa de ossos) não significavam apenas “corpo”, mas evocavam a alma presa na carne, como um pássaro em gaiola ou vapor em caldeirão.
O poeta via os homens bravos sob o céu, na terra ilhada cercada pelos mares sem fim e pelas trevas exteriores, suportando os breves dias da vida até a hora do destino.
A mágica irrecuperável da poesia inglesa antiga está em frases breves, toques leves, palavras curtas que ressoam como cordas de harpa, despertando sentimento profundo e visão pungente.