A distribuição geográfica do trabalho dos folcloristas na Itália é bastante desigual, com algumas regiões oferecendo uma mina de material e outras quase nada.
Os quatro volumes de “Fiabe, novelle e racconti popolari siciliani” contêm trezentas narrações e cem variantes de todas as províncias da Sicília, colocadas no papel por Giuseppe Pitrè e pela vasta equipe de coletores dirigida por ele.
Surpreende a proporção de peças notáveis, produtos de uma tecelagem narrativa finíssima, nas quais se colocam diante de personalidades de narradoras e narradores bem distintos, quase sempre registrados com nome, sobrenome, idade e profissão.
Foi Cocchiara quem estabeleceu o paralelo entre Verga e Pitrè, que contemporaneamente apuravam os ouvidos para escutar pescadores e comadres, embora com intenções bem diferentes.
A protagonista da coletânea de Pitrè é uma velha narradora analfabeta, Agatuzza Messia, “costureira de edredons no Borgo (bairro de Palermo) no largo Celso Negro, no 8”, e antiga empregada na casa de Pitrè.
A narrativa de Messia é cheia de cores, de natureza, de objetos, faz o maravilhoso nascer frequentemente de um dado realista, e está sempre pronta a movimentar personagens femininas ativas e corajosas.
Não se apresenta nela a nota do sofrimento amoroso, predileção de boa parte da fabulística mediterrânea desde seu mais antigo testemunho escrito, a fábula “grecânica” de “O Amor e Psique” relatada em “O asno de ouro” de Apuleio (século II d.C.).
A fábula toscana demonstra ser um território aberto aos influxos mais diversos, um fruto mais “culto” e atualizado, sendo Montale, nas cercanias de Pistoia, um típico “lugar de conservação” que funcionava como apagador para todas as histórias.
Nas “Sessanta novelle popolari montalesi” de Gherardo Nerucci, um certo “Pietro de Canestrino, operário” oferece o mais ariostesco conto já ditado pela boca de um homem do povo, com descrições de jardins e palácios que incluem uma lista de famosas beldades do passado introduzidas sob a forma de estátua.
A descrição do palácio da rainha inclui: “[…] e essas estátuas representavam tantas mulheres famosas, companheiras no trajar mas diferentes no semblante, e eram Lucrécia de Roma, Isabela de Ferrara, Elisabete e Leonora de Mântua, Varisila Veronese, de belo aspecto e feições raras; a sexta, Diana de Regno Morese e Terra Luba, a mais renomada pela beleza na Espanha, França, Itália, Inglaterra e Áustria e mais sublime pelo sangue real […]”.
Nerucci não se ocupava de novelística comparada, e já nas notas de Imbriani se verificam citações de “fontes” literárias para as montaleses, em vez de listas de variantes folclóricas.
Há casos de “descida” da literatura ao folclore em época não distante, como “Paulino de Perúgia”, contado por Luisa, viúva de Ginanni, que repete a trama do “Andreuccio da Perugia” de Boccaccio.
O nome de Boccaccio aproxima de uma definição do espírito com que se contam histórias em Montale Pistoiense, o nó entre fábula e novela, o momento da passagem entre narrativa de maravilhas mágicas e relato de acontecimentos individuais.
Luisa, viúva de Ginanni, é a narradora predileta de Nerucci, sabendo três quartos da coletânea e representando as histórias com imagens sugestivas.
O livro de Nerucci apresenta um vernáculo reelaborado na página, tornado homogêneo, trabalhado pela pena de um escritor, preservando o tom oral e o característico estilo narrativo montalês, sem pressa nem economia, cheio de detalhes a ponto de se tornar verboso.
Ao lado da Toscana e da Sicília, está Veneza, ou toda a área dos dialetos vênetos, com o laborioso pesquisador Domenico Giuseppe Bernoni, que dedicou algumas de suas várias obras (em 1873, 1875 e 1893) às fábulas.
Nas fábulas vênetas, impalpavelmente se respira Veneza, seus espaços, sua luz, e são todos de certo modo aquáticos, com mar, canais, viagens, navios ou o levante.
Bolonha, cuja tradição recebeu uma transfusão de sangue napolitano por via literária, teve na segunda metade do século XIX uma coletânea boa de Carolina Coronedi-Berti, num dialeto pleno de sabor, com uma imaginação um pouco alucinada.
A coletânea romanesca de Gigi Zanazzo apresenta a fábula como pretexto para um divertimento verbal à base de modos de expressão burlescos e insinuantes.
A região dos Abruzos tem duas antologias bastante ricas: os dois volumes de Gennaro Finamore com textos dialetais transcritos com cuidado glotológico, e o volume de Antonio de Nino, reescrito em italiano com intenção de estilo jocoso e pueril.
Oito “cunti” dentre os mais bem narrados estão no livro de Pietro Pellizzari, “Fiabe e canzoni popolari del contado di Maglie in terra d’Otranto”, com uma linguagem espirituosa e um prazer pela deformação grotesca, como no belíssimo “Os cinco desenfreados”.
Em Palmi di Calabria, Letterio di Francia transcreveu uma coletânea (publicada em 1929 e 1931) que apresenta as contraposições mais ricas e precisas, com uma imaginação densa, colorida e complicada, destacando-se a narradora Annunziata Palermo.
Fora dessas regiões “privilegiadas”, o material se torna escasso, com pouquíssimo do Piemonte, pouco da Lombardia, pouquíssimo da Ligúria, uma dezena de peças da região das Marcas narradas de forma alegre e vivaz, e quase nada da Úmbria e do Molise.
A lacuna mais grave é a de uma boa coletânea napolitana ou da Campânia, sabendo-se pouco do terreno que alimentou Basile e Boccaccio.
A Sardenha não possui grandes coletâneas, mas o modo de narrar triste, descarnado e pouco comunicativo, embora sempre com uma lâmina de ironia, parece característico da ilha.