Contos Fantásticos do Século XIX
O conto fantástico é uma das produções mais características da narrativa do século XIX, dizendo muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo e sobre a simbologia coletiva.
O elemento sobrenatural aparece sempre carregado de sentido, como a irrupção do inconsciente, do reprimido, do esquecido, do que se distanciou da atenção racional.
A modernidade do fantástico e a razão da volta do seu prestígio na época atual residem no fato de que ele diz coisas que se referem diretamente a quem o lê.
O nascimento do conto fantástico e sua definição segundo Todorov
É no terreno específico da especulação filosófica entre os séculos XVIII e XIX que o conto fantástico nasce, tendo como tema a relação entre a realidade do mundo que se habita e se conhece por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento.
Tzvetan Todorov, em sua “Introduction à la littérature fantastique” (1970), afirma que aquilo que distingue o “fantástico” narrativo é precisamente uma perplexidade diante de um fato inacreditável, uma hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do sobrenatural.
O “maravilhoso”, também conforme Todorov, se distingue do “fantástico” na medida em que pressupõe a aceitação do inverossímil e do inexplicável, tal como ocorre nas fábulas das “Mil e uma noites”.
O romantismo alemão e o legado francês
É com o romantismo alemão que o conto fantástico nasce, no início do século XIX, mas já na segunda metade do século XVIII o romance “gótico” inglês havia explorado um repertório de temas do qual os escritores do romantismo beberiam abundantemente.
A herança que o século XVIII francês deixa ao conto fantástico do romantismo é de dois tipos: a pompa espetacular do “conto maravilhoso” (do “féerique” da corte de Luís XIV às fantasmagorias orientais das “Mil e uma noites”, descobertas e traduzidas por Galland) e o desenho linear, rápido e cortante do “conto filosófico” voltairiano.
O “conto fantástico” nasceu na Alemanha como o sonho de olhos abertos do idealismo alemão, com a intenção declarada de representar a realidade do mundo interior e subjetivo da mente, da imaginação, conferindo a ela uma dignidade equivalente ou maior do que a do mundo da objetividade e dos sentidos.
Hoffmann e o conto fantástico alemão
Um nome se destaca entre todos no conto fantástico alemão: Hoffmann, tendo sido escolhido para representá-lo o mais típico e conhecido texto “O Homem de Areia” [“Der Sandmann”], em que personagens e imagens da tranquila vida burguesa se transfiguram em aparições grotescas, diabólicas, assustadoras.
As obras-primas do fantástico romântico alemão são muito longas para entrar numa antologia que queira fornecer um panorama extenso, forçando a renúncia a textos prediletos como o “Peter Schlemihl” de Chamisso, “Isabella von Ägypten” de Arnim e “Aus dem Leben eines Taugenichts” de Eichendorff.
Pelo menos no que diz respeito à primeira metade do século XIX, “conto fantástico” é sinônimo de “conto à la Hoffmann”.
O fantástico na Rússia, na França e na Inglaterra
Na literatura russa o influxo de Hoffmann dá frutos milagrosos, como os “Contos de São Petersburgo” de Gógol, mas antes mesmo de qualquer inspiração europeia, Gógol havia escrito extraordinárias histórias de bruxaria nos dois livros de contos rurais ucranianos.
Na França, Hoffmann exerce forte influência sobre Charles Nodier, sobre Balzac (tanto o Balzac declaradamente fantástico quanto o Balzac realista) e sobre Théophile Gautier, de quem se pode puxar uma ramificação do tronco romântico: o esteticismo.
Gérard de Nerval cria um novo gênero fantástico: o conto-sonho (“Sylvie”, “Aurélia”), mais sustentado pela densidade lírica do que pelo desenho do entrecho.
Mérimée, com suas histórias mediterrâneas (mas também nórdicas: a sugestiva Lituânia de “Lokis”) e a arte de fixar as luzes e a alma de um país numa imagem que logo se torna emblemática, abre uma nova dimensão ao fantástico: o exotismo.
A Inglaterra experimenta um especial prazer intelectual em jogar com o macabro e o terrificante, sendo o exemplo mais famoso o “Frankenstein” de Mary Shelley.
Nasce a “ghost story”, cujos autores às vezes ostentam uma postura irônica, mas põem em jogo algo de si mesmos, uma verdade interior que não faz parte dos maneirismos do gênero.
Le Fanu, irlandês de família protestante, é o primeiro exemplo de “profissional” da “ghost story”, praticamente não tendo escrito outra coisa senão histórias de fantasmas e de horror.
O elemento visual e as duas vertentes do fantástico
O verdadeiro tema do conto fantástico oitocentista é a realidade daquilo que se vê: acreditar ou não acreditar nas aparições fantasmagóricas, perceber por trás da aparência cotidiana um outro mundo, encantado ou infernal.
O conto fantástico, mais que qualquer outro gênero narrativo, pretende “dar a ver”, concretizando-se numa sequência de imagens e confiando sua força de comunicação ao poder de suscitar “figuras”.
O elemento “espetaculoso” é essencial à narração fantástica, por isso é natural que o cinema se tenha nutrido tanto dela.
Há também o conto fantástico em que o sobrenatural permanece invisível, é mais “sentido” do que “visto”, participando de uma dimensão interior, como estado de ânimo ou como conjectura.
A exemplificação mais clara dessas duas vertentes pode ser encontrada em Poe, cujos contos mais típicos são aqueles em que uma morta vestida de branco e ensanguentada sai do caixão para uma casa escura (“A queda da casa de Usher”), enquanto “O coração denunciador” reduz as sugestões visuais ao mínimo.
Poe, Hawthorne e a tradição americana
Depois de Hoffmann, Poe foi o autor que mais teve influência sobre o fantástico europeu, sendo a tradução de Baudelaire o manifesto de uma nova atitude do gosto literário.
Ao lado de Poe estava outro grande americano, Nathaniel Hawthorne, que consegue ir mais fundo no campo moral e religioso, tanto no drama da consciência individual quanto na representação da sociedade puritana.
As alegorias morais de Hawthorne, sempre baseadas na presença indelével do pecado no coração do homem, têm uma força na visualização do drama interior que só será alcançada em Franz Kafka.
Antes mesmo de Hawthorne e Poe, o fantástico na literatura dos Estados Unidos já possuía uma tradição própria e um autor clássico: Washington Irving.
“Peter Rugg, the Missing Man” [Peter Rugg, o desaparecido], de William
Austin (1824), exprime com elementar evidência os principais pontos do nascente mito americano: potência da natureza, predestinação individual, tensão aventurosa.
O fantástico no final do século: Villiers, Kipling, Wells, Stevenson e Henry James
Na França, o Poe tornado francês por intermédio de Baudelaire não tarda a fazer escola, sendo Villiers de l’Isle Adam o mais interessante de seus continuadores, com “Véra” (uma mise-en-scène do tema do amor que continua para além da morte) e “A tortura pela esperança” (um dos exemplos mais perfeitos de fantástico puramente mental).
No final do século, é particularmente na Inglaterra que se abrem as estradas que serão percorridas pelo fantástico do tempo atual, caracterizando-se um tipo de escritor refinado que adora travestir-se de escritor popular.
O fantástico dos contos indianos de Kipling é exótico na medida em que nasce do contraste entre o mundo religioso, moral e social da Índia e o mundo inglês, sendo o sobrenatural muito frequentemente uma presença invisível, ainda que aterrorizante, como em “A marca da besta”.
Com Wells se abre a ficção científica, e “A história do falecido senhor Elvesham” conta o caso de um jovem que é escolhido como herdeiro universal por um velho desconhecido e acorda no corpo do velho.
Robert Louis Stevenson, em sua breve vida de doente, conseguiu fazer várias obras perfeitas, desde romances de aventura a “Dr. Jekyll” e muitas narrativas fantásticas mais curtas: “Olalla”, “Thrawn Janet” [Janet, a torcida], “Island’s Entertainments” [Divertimentos na ilha] e “Markheim”.
Com Henry James, o fantástico do século XIX tem a sua última encarnação (ou desencarnação), tornando-se mais invisível e impalpável do que nunca, mera emanação ou vibração psicológica.
Os fantasmas das “ghost stories” de Henry James são bastante elípticos: podem ser encarnações do mal sem rosto e sem forma (como os diabólicos serviçais de “A volta do parafuso”), aparições bem visíveis que dão forma sensível a um pensamento dominante (como “Sir Edmund Orme”), ou mistificações que desencadeiam a real presença do sobrenatural (como em “The Ghostly Rental” [O aluguel do fantasma]).
Em “The Jolly Corner” [O canto feliz], o fantasma apenas entrevisto pelo protagonista é o si mesmo que ele teria sido se a sua vida tivesse tido outro curso; em “A vida privada” há um homem que só existe quando os outros o olham e um outro que existe duas vezes porque tem um duplo que escreve livros que ele jamais saberia escrever.
A exclusão dos autores italianos e a conclusão
Foram deixados de fora os autores italianos porque não agradava a ideia de incluí-los só por obrigação de presença, sendo o fantástico na literatura italiana do século XIX decididamente um campo “menor”.
Coletâneas específicas como “Poesie e racconti” [Poesias e contos] de Arrigo Boito e “Racconti neri della scapigliatura” [Contos negros da Scapigliatura] de G. Finzi podem propiciar descobertas preciosas.
O objetivo da antologia foi oferecer um panorama centrado em alguns exemplos e, sobretudo, um livro inteiramente legível.