As razões que presidem à morte do fabulista não são desprovidas de ambiguidade: Esopo é apresentado como vítima da cólera de Apolo, que, irritado pela afronta sofrida em Samos, favorece a astúcia dos delfios (capítulo 127).
Apresentou-se a eliminação final de Esopo — representante da sabedoria popular — por Apolo, patrono da alta cultura, como uma espécie de vingança social dirigida contra aquele que, fermento de desordem, ameaçava a ordem estabelecida ao encarnar a rebelião do espírito.
Outros elementos sugerem, porém, uma leitura muito diferente: Esopo aparece no apogeu de sua glória quando se inicia a seção délfica, e nunca mais se fala de sua aparência física nessa seção final, como se, por sua inteligência e talento, ele tivesse conseguido se impor a ponto de fazer esquecer totalmente sua fealdade.
Diversos indícios deixam pensar que o fabulista se deixou embriagar pelo sucesso: Esopo insulta os habitantes de Delfos chamando-os de filhos de escravos e escravos de todos os gregos (capítulo 126); queixa-se de ser morto “não por homens estimáveis, mas por miseráveis escravos” (capítulo 140); declara que preferiria “percorrer a Síria, a Fenícia, a Judeia, reduzido à última miséria” a morrer “por culpa de miseráveis escravos” (capítulo 141) — tornando-se assim culpado de renegação.
Talvez Esopo tenha também o defeito de ter traído sua missão: as Musas o dotaram do talento de contar fábulas, mas ao assumir na seção babilônica o papel de Aquicar, ele abandona o estatuto de satírico que lhe fora destinado para tentar deslizar na pele de um sábio aristocrático, representante do que M. Marincic chama de “sabedoria afirmativa”.
E. Finkelpearl sugere que a transgressão ocorre entre cultura escrita e cultura oral: ao pôr suas fábulas por escrito e depositá-las na biblioteca do rei Creso (capítulo 100), Esopo pretenderia elevar uma forma de literatura subalterna, oral e popular, à condição de alta literatura — daí o castigo brutal que sobre ele se abate.
A morte do fabulista ilustra a ambivalência da palavra — que pode ser a melhor ou a pior das coisas, como Esopo demonstrou ao infeliz Xanto ao servir-lhe dois banquetes compostos exclusivamente de línguas, sob o pretexto de que pedira “o que há de melhor no mundo” e depois “o que há de pior” (capítulos 53–55); em Delfos, Esopo fez o pior uso possível da língua ao pronunciar palavras de censura que fizeram nascer nos habitantes o medo da desonra e o desejo de vingança.
O amigo de Esopo, censurando-o em seus momentos finais com as palavras “Onde está tua cultura? Onde está tua eloquência?” (capítulo 130) — que ecoam precisamente as usadas pelo próprio Esopo para repreender Xanto: “Onde está tua filosofia? Onde está o orgulho de tua educação?” (capítulo 85) —, mostra que a roda girou e que a sabedoria já não está ao lado do fabulista no fim da Vida.