Otto Rank, um dos mais interessantes exegetas freudianos nesse domínio, tentou pouco antes de 1914 aplicar grades psicanalíticas aos contos de dois ou mais irmãos nos KHM — especialmente Os Dois Irmãos (n° 60) —, interrogando-se sobre as relações entre mito e conto com interpretações que se distinguem pelo equilíbrio e a ausência de abuso sistemático.
Rank concorda com os
Grimm em que os contos representariam os restos degradados de crenças míticas.
Os contos cujos três personagens principais são três irmãos têm por origem, segundo Rank, um conflito familiar primitivo — a revolta dos filhos contra o pai tirânico e todo-poderoso; os sentimentos hostis e ciumentos, não podendo se expressar abertamente, se reportaram ao irmão mais velho; esse tipo de narrativa aparece, portanto, como um “romance familiar”.
O mito heroico traduz a oposição da jovem geração contra o pai; o conto, mais tardio, adverte ao contrário contra essa revolta — o filho mais jovem não mata o pai, mas lhe dá uma satisfação de caráter compensatório.
A concorrência entre irmãos reflete a passagem de uma ordem social fortemente patriarcal para uma organização familiar mais socializada, em que o filho mais velho apenas usurpou o papel do pai.
O mito seria, portanto, patriarcal e amoral; o conto, social e ético — daí a importância da recompensa e da punição, do sentimento de culpa ligado ao próprio sucesso e da maior importância dos elementos materiais como a oposição entre ricos e pobres, reis e camponeses.
No mito, um oráculo obriga o rei-pai a expor seu filho; no conto, é a pobreza que constrange o camponês a tomar essa decisão — como em João e Maria (n° 15) e muitos outros KHM.