O 3 é o número mais explícito nos contos — aparecendo até mesmo em relatos jocosos como Aquele que saiu em busca do medo (n° 4) —, mas nenhuma chave permitiria desvendar definitivamente o que há por trás dele: sem dúvida, ele só existe por si mesmo e deve ser tomado como entidade real que não é outra coisa senão o que é.
Arthur Bonus, em ensaio sobre o tema, atribui a frequência do 3 a “um certo gosto decorativo, uma espécie de sentimento de simetria”; Wilhelm
Grimm pensa que os três filhos que aparecem com tanta frequência nos KHM “não são outros senão as Trimurtis.”
As três gotas de sangue aparecem várias vezes: o fiel João deve sugá-las do seio da princesa para fazê-la voltar à vida (n° 6); elas caem na neve em Branca de Neve (n° 53); a mãe da menina dos gansos as deixa cair em uma toalha branca (A Guardadora de Gansos, n° 89); em Roland, o Bem-Amado (n° 56), elas falam para enganar uma bruxa.
As unidades de três personagens são sempre do mesmo sexo, geralmente parentes ou de profissão semelhante: três irmãos em Os Três Filhos da Fortuna (n° 70), O Ganso de Ouro (n° 64), As Três Penas (n° 63) e outros; três filhos do rei em O Pássaro de Ouro (n° 57), A Rainha das Abelhas (n° 62), A Água da Vida (n° 97); três irmãs em Cinderela (n° 21), O Pássaro de Fitcher (n° 46), A Cotovia Cantora e Dançarina (n° 88) e outros; três filhas do rei em O Rei-Sapo (n° 1).
Há ainda grupos de três mulheres em As Três Fiandeiras (n° 14) e grupos de três homens em Pássaro Achado (n° 51), O Pobre Moleiro (n° 106) e O Pequeno Alfaiate Sábio (n° 114).
Nesses grupos, pode ocorrer que nenhuma diferença notável apareça entre os três personagens — como em Os Três Homens na Floresta (n° 13) ou Os Anões (n° 39) — e que outro número pudesse ter servido igualmente bem, como testemunham as variantes: os sete corvos (n° 25) na edição de 1856 eram três na de 1812.
Geralmente o terceiro personagem se distingue dos outros dois ao fazer a ação progredir — Gesteigerte Dreizahl —; é o mais jovem, como no mito hindu dos irmãos Rbhu em que o mais novo quadruplica a capacidade e recebe todos os votos.
Nos KHM a progressão de 1 para 2 é menos marcada do que de 2 para 3; a dupla progressão aparece bem em Pelo de Urso (n° 101): o mais velho foge diante de Pelo de Urso, a segunda filha hesita, a caçula aceita casar-se com ele.
No início do conto, o caçula — ou a caçula — é tido como estúpido ou incapaz: O Pássaro de Ouro (n° 57), A Rainha das Abelhas (n° 62), As Três Penas (n° 63), O Ganso de Ouro (n° 64), O Pobre Moleiro (n° 106), O Pássaro Grifo (n° 165); ou seus irmãos o invejam por sua beleza: A Guardadora de Gansos (n° 88), Pelo de Urso (n° 101).
Em Os Três Passarinhos (n° 96), única exceção em todos os KHM, a mais velha prevalece — o que provavelmente se deve a um erro de transmissão, pois a variante islandesa favorece a irmã mais jovem.
A ação se desenrola frequentemente em três lugares diferentes — como em O Enigma (n° 22), onde o herói passa pela cabana de uma bruxa, um covil de assassinos e a cidade do rei — e se estende por três períodos distintos, com três noites correspondendo a três provas ou tentações, em As Três Filhas do Rei (n° 113), A Luz Azul (n° 116), O Fogão de Ferro (n° 127) e muitos outros.
A própria ação frequentemente se submete à divisão ternária: o rei de O Pássaro de Ouro (n° 57) envia sucessivamente os três filhos e só o terceiro cumpre a tarefa; em O Pássaro de Fitcher (n° 46), os dois mais velhos são idênticos e o segundo é apenas redundância do primeiro.