Para os partidários do ritualismo, a maioria dos contos do tipo KHM tem por origem ritos — tese que encontrou em P. Saintyves seu principal defensor desde 1923, e que se desdobrou em variantes desenvolvidas por numerosos pesquisadores posteriores.
P. Saintyves interpreta o conto Barba-Azul — do qual Fitschers Vogel (n° 46) é uma variante KHM — como fundado sobre um rito de iniciação.
Saintyves interpreta Chapeuzinho Vermelho (n° 26) como originado de um ritual de Maio: o capuz de flores “constituía ainda ontem a coroa da rainha de Maio”, e o vinho levado pela criança à avó na versão alemã remete a presentes e interditos rituais — os bosques eram assombrados por maus espíritos e bestas temíveis desde os primeiros dias de maio.
Para Saintyves, Chapeuzinho Vermelho simboliza também o ano novo, razão pela qual não pode permanecer no ventre do lobo — o caçador vem libertá-la.
Em O gato de botas, Saintyves identifica a entronização de reis-sacerdotes primitivos.
Saintyves reduz os principais tipos de contos a três categorias: os de origem sazonal, os de origem iniciática e os fabliaux ou apólogos — inventados pelos sermoneiros.
V. J. Propp, autor da primeira abordagem estruturalista do conto, desenvolveu também um trabalho histórico no qual vê a origem dos contos nos ritos, particularmente nos ritos de iniciação, aproximados dos ritos funerários.
Sergius Golowin percebe em A Bela Adormecida (n° 50), Branca de Neve (n° 53) e outros contos o reflexo de ritos iniciáticos — aventuras durante o sono, sabedoria por morte aparente.
Entre os autores que tratam de ritos sazonais, de endogamia e exogamia e de iniciação xamânica, citam-se E. Meletinsky, W. E. Peuckert, A. Nitschke e Heino Gehrts.
Peuckert recorda, a propósito de Rapunzel (n° 12), que durante a puberdade as mulheres de certas sociedades arcaicas eram encerradas em uma pequena cabana no fundo da floresta, sustentadas apenas por uma velha, sem que o homem pudesse se aproximar — e conclui que o lugar de nascimento dos contos seria o Mediterrâneo oriental, cujo universo refletiria uma sociedade de plantadores.
August Nitschke estima poder remontar o conto Fiel João (n° 6) até a sociedade megalítica — por conservar traços de purificação e sacrifício de criança — e João e Maria (n° 15) até o paleolítico recente.
Heino Gehrts analisa Os seis criados (n° 134) e o criado-comilão, remetendo-o a Thor, Indra e Hércules, e postula que “o mito, segundo uma opinião bem fundada, é uma abstração a partir de rituais muito antigos”, o que caracterizaria a presença de “grandes comedores rituais”.
No conto Os sapatos gastos pela dança (n° 133), Gehrts vê na princesa uma sonâmbula em busca de cura espiritual, e interpreta o rei como necessitado de um xamã para segui-la em seu sono, partilhar suas experiências e ajudá-la a retornar ao estado de vigília.
Em uma variante boêmia do mesmo conto, o soldado retira um dente da princesa — restituído após a viagem ao além —, o que configuraria um rito iniciático comparável à circuncisão ou à ablação do dedo mínimo.
Gehrts não considera a iniciação xamânica uma crença ultrapassada, tendo estudado manifestações semelhantes ligadas a fenômenos parapsicológicos perturbadores na época de Justinus Kerner, contemporâneo dos irmãos
Grimm.
O mesmo autor identificou recentemente em Os dois irmãos (n° 60) o reflexo de um ritual de juramento fraterno indo-europeu.