As literaturas medievais ocidentais silenciam quase unanimemente sobre a origem dos anões, apresentando sua existência como fato óbvio, e os dois instrumentos disponíveis para compreendê-los são a linguagem e os textos mitológicos.
O francês nain vem do latim nanus, que por sua vez vem do grego nânos; pumilio deriva de pygmaioi e designava na Antiguidade tanto seres humanos de pequena estatura quanto animais
O único termo analisável no domínio românico é lutin — do antigo francês nuiton/luiton — derivado de Neptunus: Neptun-us gerou neton, depois nuiton — influenciado por nuit, “noite”, pois essas criaturas se manifestam após o anoitecer —, depois luiton/luton — influenciado por luiter, forma antiga de lutter, “lutar” — e finalmente lutin; o lutin ou espírito é portanto um avatar do deus Netuno rebaixado à categoria de simples demônio aquático, o que é confirmado por um sermão do século VII atribuído ao Pseudo-Elígio
Na área germânica, zwerc em alto-alemão médio, dvergr em nórdico antigo e dweorg em inglês antigo foram sistematicamente aplicados pelos poetas, escritores e clérigos a todos os habitantes da mitologia inferior, tornando-se um termo guarda-chuva
Zwerc traduz “fauno”, “sátiro”, “sileno” e “peludo” — pilosus; esses espíritos rústicos da Antiguidade clássica eram reputados pequenos, o que levanta a questão de saber se a criatura era originalmente pequena ou se o tornou por contaminação com esses espíritos terrestres romanos
A literatura germânica medieval emprega repetidamente expressões como “o pequeno anão” — daz kleine twerc — e formas diminutivas como getwergelîn, o que indica que zwerc não transmitia originalmente nenhuma ideia de tamanho, pois do contrário tais expressões seriam simplesmente pleonásticas
As raízes proto-indo-europeias propostas para zwerc são dhuer-, “enganar, prejudicar”, e dheugh-, com sentido similar acrescido de astúcia; a raiz dhwergho- foi proposta em estudos mais recentes mas apresenta dificuldades filológicas
A etimologia de Julius Pokorny usa dhuergh como variante de dhreugh, “enganar” — semanticamente, “enganar” pode ter se desenvolvido a partir de “dobrar, estar curvado”, pois a metáfora indo-europeia identificava a retidão com a verdade e a curvatura com a mentira; nos Vedas e no Avesta, o caminho da verdade é sinônimo do “caminho reto”
O anão era originalmente um “ser torto”, predisposto ao engano pela solidariedade entre aparência física e caráter moral — crença que a Igreja combateu com as palavras do Cântico dos Cânticos (1,5): “Sou morena, mas formosa”
Exemplos literários confirmam essa malícia como traço fundamental: em Orendel, o anão Alban tenta violentar a bela Bride; Laurin é raptor e enganador apesar de seu verniz cortês; em Wolfdietrich, o anão Billunc rapta a senhora Liebgart
Na Escandinávia, os anões Fjalarr e Galarr matam Kvasir; na Hervarar saga, os anões Dvalinn e Durinn forjam uma espada maldita para o rei Svafrlami que o acaba matando; na lenda de Völundr — Wayland —, os anões tentam matar o ferreiro mítico, que só escapa porque seu pai, o gigante Vadi, havia escondido uma espada — clara indicação de que não confiava nos anões