LECOUTEUX, Claude. Les nains et les elfes au Moyen Age. Paris: Imago, 1988.
O Anão na Literatura de Romances
A Literatura Celta
A Literatura Germânica da Idade Média
A análise das obras em que aparecem anões chamados Alberîch revela que essas figuras não podem ser identificadas com Aubéron, ao contrário do que tem sido frequentemente afirmado e apesar dos argumentos de Pierre Ruelle em favor dessas hipóteses errôneas. Ruelle concluiu a discussão com estas observações:
Ortnit […] faz com que uma figura chamada Alberîch desempenhe um papel importante. Trata-se de um anão dotado de poderes sobrenaturais que ajuda um herói a realizar feitos lendários durante uma viagem ao Oriente, da qual ele retornará com sua noiva. Em termos de atividade e caráter, e até mesmo de seus próprios nomes, Alberîch e Aubéron se assemelham. No entanto, não podemos aceitar a premissa de que o autor de Huon tenha se inspirado em Ortnit. Vemos muito poucas concordâncias nos detalhes das duas aventuras.1
Mas, ao contrário do que Pierre Ruelle acredita, também não é possível afirmar que o autor de Ortnit tenha tomado emprestadas de Huon as características que atribui a Alberîch. Na verdade, precisamos reconhecer que ambos esses “anões” provêm de fontes comuns, que só podem ser tradições orais e crenças populares, uma vez que não houve nenhum empréstimo direto de uma obra literária. A única explicação satisfatória para a inegável afinidade das figuras que aqui apresentamos seria a presença de indivíduos semelhantes cuja existência tenha servido de inspiração para a literatura.
Aubéron e Alberîch representam um tipo completo e isolado de “anão” nas literaturas medievais, e surgem numa época em que o tipo predominante de anão nas regiões germânicas era o anão-cavaleiro (do qual Laurin é o melhor exemplo), enquanto na França os tipos predominantes eram o anão-servo ou o anão astuto. Nossas duas figuras, portanto, vão contra a corrente das tendências literárias da época, mas são demasiado completas e bem definidas para não terem uma origem mais antiga. Quando Alberîch aparece no Nibelungenlied, ele já possui uma longa história, e o mesmo deve valer para Aubéron, que não surgiu do nada no século XIII. O próprio fato de ambas as figuras apresentarem traços de contaminação fala a favor de sua antiguidade. Em suma, tudo nelas reflete tradições folclóricas que conhecemos por meio dos contos populares.
O leitor certamente terá notado que não tentei definir o termo “anão”, nem identifiquei seu campo semântico. Em vez disso, empreguei a palavra como faziam os escritores da Idade Média, e isso foi deliberado da minha parte: a discrepância entre o termo e as criaturas que ele designa torna-se, assim, ainda mais marcante, e permite-nos perceber que “anão” deve, de fato, abranger uma série de realidades diferentes.
Consegui determinar que a figura dos duendes, que também são de natureza composta, influenciou a dos “anões”. Isolamos vários elementos-chave associados aos sprites, sendo o mais importante deles o elemento aquático — um elemento que muito provavelmente é uma das chaves para o problema colocado pela natureza dos “anões”, tal como o encontramos no afanc galês, bem como nos sprites dos romances, em Aubéron e na lenda de Siegfried.
Outro tema que foi esclarecido é a metamorfose característica de Andvari, e da mesma forma de Malabron em Gaufrey e de Zephyr. Tal metamorfose é, portanto, característica de uma criatura chamada “anão” no domínio germânico e “duende” no mundo dos romances.
Uma característica de nossos pequenos personagens merece atenção: Aubéron, o Alberîch de Ortnit e Malabron (Gaufrey) agem todos como espíritos guardiões, e em dois desses casos (um de um poema em alto-alemão médio, o outro de uma chanson de geste em francês antigo) esse comportamento é justificado por laços de sangue. Mas Alberîch é chamado de “anão” e Malabron de “duende”.
A morfologia de nossas figuras abre outras perspectivas. A insistência com que o autor de Huon de Bordeaux fala da beleza de Aubéron, a comparação quase constante desse anão com o brilho do sol, fazem do pequeno rei do Reino das Fadas um anjo da perspectiva cristã, ou um herói solar da visão pagã da questão. Acontece que essa característica é confirmada por Ortnit: observamos que Alberîch aparece na forma de uma criança muito bela, e que Ortnit o descobre graças a um anel mágico cujo poder está ligado ao sol. No entanto, Alberîch às vezes aparece como um jovem e outras vezes como um ancião. Qual é a característica verdadeiramente específica desse indivíduo? A literatura não nos permite responder a essa pergunta, por isso devemos buscar a resposta em outro lugar.
Além dessas revelações dos textos, temos alguns elementos muito vagos que, de uma forma ou de outra, sugerem fortemente que os “anões” mantêm uma relação com a morte e o Outro Mundo, entendido aqui como o reino dos mortos e não como o reino das fadas. Há o habitat e o nome dos Nibelungos, que lembra tanto o Mundo da Névoa (Niflheimr) da mitologia nórdica, e da montanha nublada onde Picolet reside. E embora o duende francês corresponda muito de perto ao “anão” alemão, ainda há o comportamento estranho do pai de Robastre.
Em suma, podemos supor que o anão literário possui outra dimensão além daquela redutora fornecida pelos poetas e escritores — uma dimensão mais profunda do que um mero estereótipo, um cenário para a aventura, um elemento exótico, uma simples maravilha e um ser divertido e mágico. Vimos como a literatura explorou essa criatura, mas o que exatamente ela estava explorando? Para descobrir, vamos agora nos voltar para os mundos da mitologia e das crenças populares.