A alma conclui — versos traduzidos: “Esta morte é assim breve / que esse teu pranto não sinto, / porque estou deliberada / fazer este experimento: / tirar dos cinco sentidos / todo outro deleite / e nenhum aprazimento / tenho em vontade te dar. A camisa deita fora, / este cilício veste, / a penitência não quer / que vos deleiteis aqui…”
* Referência: Frei Marcos de Lisboa, Parte Segunda das Chrônicas da Ordem dos Frades Menores, Lisboa, 1615, fl. 276; a poesia termina no fl. 276 v.
* A discussão entre a alma e o corpo se alonga muito, mas a cada objeção do segundo respondia a primeira com redobrado vigor — ameaças de privar o corpo de vinho ao jantar e à ceia, de manto e de calçado no inverno.
* O corpo cede e evoca uma donzela — versos traduzidos: “Lembro-me de uma donzela / que era branca e muito corada, / bem vestida, ornada e bela, / por graça maravilha olhada; / de suas belas feições / muito o coração se agrada, / tenho grande pena passada / sobre poder-lhe falar.”
* A alma replica — versos traduzidos: “Ora espera o prêmio digno / disso que agora has pensado: / o manto te tirarei / este inverno, ora coitado / os sapatos logo deixa / por esse nécio cuidado; / e serás disciplinado, / até dela não te lembrar.”
* Referência: fl. 276 v.; a pontuação e alguns acentos foram racionalizados para mais fácil leitura
* Por fim, o poeta — ou a tradução portuguesa — declara haver ainda mais batalhas entre a alma e o corpo, mas que não deseja enfastiar ninguém e por isso encerra.
* Na Revelación de un Hermitaño o debate se desenrola na zona intermédia entre a morte e a condenação ou salvação final, como se houvesse um tempo especial além do tempo comum e para aquém da eternidade — um caminho indeciso a percorrer; em Jacopone de Todi a alma e o corpo discutem no vigor da existência.
* Diálogos semelhantes incluem a Prática d'Alma com a Carne, muito proveitosa para todo fiel Cristão, feita por hum devoto contemplativo, impressa no século XVI em caracteres góticos, sem declaração de data nem de lugar
* A Prática d'Alma com a Carne é um diálogo compreensivo, sem discussão propriamente dita nas suas 16 folhas, configurando um severo colóquio espiritual com a alma no alto e o corpo em baixo — e este aceita docilmente o ensinamento da companheira sob o signo da ideia central de que tudo passa e vem a morrer.
* A alma argumenta: Deus fez a Carne por sua mão, da terra e da lama — e a Carne ficou dependente de Deus que tanto a beneficiou
* Humilde e sabedora, a Carne põe-se de acordo e canta uma lamentação dolorosa e pessimista da sua baixeza e dos seus pecados — vangloria-se por tudo e por nada, vinga-se, é tão fútil que todos a escarnecem, tão leviana que todos a iludem.
* Referência: Prática d'Alma com a Carne, muito proveitosa para todo fiel Christão, fls. 3 v.-4
* Longa parece a ladainha dos defeitos confessados pela Carne: nela ou junto dela não existe nenhum prazer sem sobressalto, nenhuma paz sem discórdia, nenhum amor sem suspeita, nenhum repouso sem desassossego, nenhuma abundância sem pobreza.
* A Carne confessa a sua inconstância radical — se é pobre quer ter, se é rica quer valer, se está em baixo quer subir, se a afrontam deseja vingar-se, se está mimosa deseja folgar sempre, sendo a incerteza a coisa mais certa que há nela.
* Ao escutar essas e outras confissões, a Alma alegra-se da sabedoria de tais palavras e louva a pobre Carne, que por seu turno presta delicada homenagem à alteza da Alma, destinada a dominar: “Tu és a senhora, eu sou a escrava. Conheço-te, porque ando contigo, desde que nasci. Tu és espírito divino, criado pelo Altíssimo.”
* Referência: ob. cit., fl. 5-5 v.
* A Alma espanta-se de que a Carne fale tão bem, e diz que gostaria de a valorizar se as suas obras fossem tão boas como as palavras; por que a contraria e lhe desobedece — prazeres, honras, passatempos, tudo é terra.
* Por fim a Alma ensina à Carne uma regra de ascese: preferir antes deixar de rir um pouco do que chorar muito depois, não buscar honras a fim de evitar desonras, renunciar ao contentamento para não ter de arrepender-se, pois os desejos carnais são tições que se ajuntam para neles arder.
* Referência: ob. cit., fls. 10 v.-11
* A Carne entra no bom caminho e pede à alma que não a poupe — os trabalhos cansam-na, a oração doma-a, os jejuns servem para a moderar, o pouco sono quebra-a e o pouco falar serve-lhe de freio.
* Referência: ob. cit., fls. 12 v.-13
* A Alma, sua dona e senhora, deve trazer a Carne debaixo de olho, como à ladra de casa, nunca se fiar dela e andar sempre com uma pedra na mão.
* A Alma escuta gostosamente essas palavras cheias de verdade e pede desculpa à Carne de a fazer sofrer, embora o faça para bem de ambas; e que Deus as ajude — some-se depressa o prazer da vida, eterno é o castigo, a penitência terá fim e a felicidade no Céu durará para sempre.
* Referência: ob. cit., fls. 15 v.-16
* Com razão, Bossuat insere essas obras na literatura espiritual e acrescenta que a sua popularidade prova a existência de um público fácil de satisfazer, a quem basta uma série de lugares-comuns repetidos por autores medíocres — observação válida para a Idade Média, mas que poderia ser aplicada igualmente ao século XVI, pelo menos em Portugal, e até ao século XVIII.
* Robert Bossuat: Histoire de la Littérature Française. Le Moyen Âge, Paris, 1931, p. 242
* Na primeira metade do século XVIII apareceu em Portugal outra obrinha semelhante, a Prática sentida entre o Corpo e a Alma, traduzida do castelhano por Diogo da Costa Ulisbonense e impressa num pequeno folheto sem lugar nem ano.
* Referência: ob. cit.; o título completo declara conter duas obras admiráveis: a primeira, a Prática sentida entre o Corpo e a Alma; a segunda, o Rosário da Virgem Santíssima
* Que Diogo da Costa seja um pseudônimo, como afirma Barbosa Machado, pouco importa; o que interessa é o que se pode chamar relatividade literária — uma obra pode não encontrar eco no público de certo nível cultural e, no entanto, comover de verdade a gente simples, e vice-versa.
* Barbosa Machado: Biblioteca Lusitana, t. 4
* Daí deriva a relativa segurança — e insegurança — da avaliação estética, impossível de reduzir a uma bitola única e absoluta: qualquer obra de arte vale historicamente em função do público, e é isso que justifica e enobrece vastos setores da literatura de cordel.
* Muitos leitores do século XVIII, espanhóis e portugueses, continuavam a simpatizar com essa corrente literária que vinha da Idade Média, quase no primitivismo das suas feições antigas; de fato, em Lisboa no ano de 1794 tornava a aparecer em letra de forma a citada Prática sentida entre o Corpo e a Alma, o que supõe uma resposta ao desafio do sentimento popular.
* Versos do Corpo à Alma, às portas da morte, traduzidos: “Lembra-te, Alma adormecida, / de vícios mundanos farta, / que está a hora oferecida / de deixarmos nossa vida, / pois a morte nos aparta. Que deleites mais gostosos, / Alma, já são acabados; / já os faustos mais pomposos, / com os dias mais vistosos, / de mil prazeres cercados. […] Caçando pelos outeiros, / com passa-tempo e folgar; / com criados e monteiros / correndo como toureiros, / sem na mesa cuidar.”