O debate de Jacopone de Todi não teria sido referido se não houvesse passado da literatura italiana à portuguesa, através de Frei Marcos de Lisboa, morto em 1591, entre outras poesias traduzidas do mesmo poeta.
Frei Marcos de Lisboa traduziu o texto e o incluiu na Parte Segunda das Chrônicas da Ordem dos Frades Menores, Lisboa, 1615, fl. 276
Título da tradução portuguesa: Cântico V moral, da contenda da Alma com o Corpo
A alma diz ao corpo — versos traduzidos: “Façamos já penitência, / porque possamos fugir / à sentença sem clemência, / e ganharemos a glória / de eterno gosto e eminência; / levemos nojo em paciência, / com o deleitoso amar.”
O corpo responde — versos traduzidos: “Diz o corpo: estou perturbado / disso que te ouço dizer; / criado sou em deleites, / não no poderia sofrer, / o cérebro tenho fraco, / posso vir a enlouquecer, / não cuides em tal fazer / nem nisso mais me falar.”
A alma replica — versos traduzidos: “Ó cujo malvado corpo, / dissoluto, guloso, / a toda nossa saúde / sempre surdo e rebelde, / sofre por tanto este açoite / deste modo cordão, / som discorde que te dão / a que te convém dançar.”
O corpo clama — versos traduzidos: “Socorrei-me, agora, vizinhos, / que a alma me tem morto, / ferido e ensanguentado / e disciplinado a torto. / Ó desapiedada e cruel, / que me trouxeste a tal porto, / farei de prantos um horto, / já não me posso alegrar.”
A alma conclui — versos traduzidos: “Esta morte é assim breve / que esse teu pranto não sinto, / porque estou deliberada / fazer este experimento: / tirar dos cinco sentidos / todo outro deleite / e nenhum aprazimento / tenho em vontade te dar. // A camisa deita fora, / este cilício veste, / a penitência não quer / que vos deleiteis aqui…”
Referência: Frei Marcos de Lisboa, Parte Segunda das Chrônicas da Ordem dos Frades Menores, Lisboa, 1615, fl. 276; a poesia termina no fl. 276 v.