Autos vicentinos, tempo e morte

MARTINS, Mário. Introdução Histórica à Vidência do Tempo e da Morte. Braga: Livraria Cruz, 1969

** CAP. XIII — O TEMPO E A MORTE NOS AUTOS VICENTINOS **

No cemitério, Hamlet interroga o mistério da vida e da morte de modo sarcástico e sombrio, diante das caveiras desenterradas pelos coveiros.

Toda essa filosofia necrótica entronca nos sermões da Idade Média, nos textos literários das Danças Macabras e nas gravuras de livros como os Livros de Horas de Simon Vostre e as Bilder des Todes de Hans Holbein.

Gravuras dos Livros de Horas, alguns destinados especialmente a Espanha e Portugal, estavam ao alcance de Gil Vicente, como as Horas de nossa senhora segundo costume romaão de 1500 e uma gravura do Flos Sanctorum de 1513.

Nas duas primeiras viagens das barcas, a figura trágica da Morte e sua gadanha sem misericórdia não aparecem no palco, mas são descobertas na terceira viagem, mais sóbria e ajustada ao teor das Danças Macabras.

** Auto de Mofina Mendes e a inversão dos valores **

Mofina Mendes representa o sonho de todos os homens, a construção de castelos no ar que se desfaz como o pote de azeite que cai ao chão.

No Auto do Pastoril, os homens dormem em cama de flores feita de prazer sonhado, num esquecimento de que hão de morrer e de que existe o mundo espiritual.

** Auto da Feira e a inversão dos valores **

Mercúrio, o Tempo e um anjo anunciam a inversão dos valores na feira das virtudes, onde se deve trocar os vestidos pelas samarras pobres dos primeiros bispos.

** Duas mundividências opostas em luta permanente **

Há duas mundividências opostas e em luta permanente: a do efêmero e a do permanente, da matéria e do espírito, do que entra pelos sentidos e do que se crê pela fé, do temporal e do eterno.

** Auto da Alma: peregrinação e tempo religioso versus tempo mundanal **

A ideia de peregrinação, de tempo religioso (ir avançando para Deus) e de tempo mundanal (ir avançando só na idade exterior) desenvolve-se no Auto da Alma, em que Gil Vicente se refere à triste carreyra / desta vida.

Não se pode dormir nem ficar parado um ponto sequer, pois o tempo é a morte que está chegando e o fim se aproxima.

O demônio contrapõe à ideia do tempo que se escoa rapidamente a ideia do tempo lento, inculcando à alma o amor das coisas terrenas para prendê-la, declarando que esta vida, e não outra, é o paraíso.

** Sumário da História de Deus e as figuras do Tempo e da Morte **

O Tempo e a Morte são duas figuras principais no Sumário da História de Deus, onde o Tempo, como nas figuras de Holbein, empurra as pessoas para o sepulcro.

Nas Danças Macabras, o menino chora e quase todas as personagens protestam contra a Morte esquelética e o Tempo de ampulheta vazia, surpreendidas pela trágica brevidade da vida.

** A vida como pousada e o Mundo como estalajadeiro **

Gil Vicente encara a vida como pousada, ao cuidado do Mundo, que é o estalajadeiro designado por Deus para agasalhar Adão e todos os seus descendentes.

Quando a figura de nosso Redentor entra, o Mundo não faz chamada e cai de joelhos com o Tempo e a Morte, num grande espanto: Também vós passaes, Deos meu, / por esta vida mesquinha…?

Eva, expulsa do Paraíso Terreal, lamenta-se com pungência ao ver os ramos do pomar cobertos de celestes rosas, as doces verduras e as fontes graciosas.

Adão contempla a Morte e a define com força nunca descoberta nas Danças Macabras: a nossa parteyra da terra, herdeyra das vidas, senhora dos vermes, guia das partidas, raynha dos prantos, a nunca ouciosa, adella das dores, a emboladeyra dos grandes senhores, cruel regateyra que a todos enlea.

** A Morte na terceira viagem das barcas **

Na terceira viagem das barcas, o encontro com a Morte arranca imprecações dolorosas: Morte escura, tu nunca trazes consolo! Morte amarga, ninguém pode contigo! Ó guia da escuridão, robadora da idade, veloz ave de rapina, tu chegaste e tudo mudou para mim!

** A chamada terrível para o sepulcro **

À maneira das Danças Macabras, principia a chamada terrível para o sepulcro e para o empurrão sem misericórdia.

** O Tempo impaciente com os profetas **

Abraão, Moisés, David e Isaías entram no palco da vida, louvam a Deus e profetizam a vinda de Cristo, mas o Tempo, possesso de uma pressa enorme, manda-os calar e partir.

** A hesitação do Tempo diante de Cristo **

Até a chegada de Cristo, o Tempo e a Morte nunca hesitaram, pois os homens lhes pertencem de verdade, mas quando Cristo surge o Tempo hesita.

** O tempo irreversível e a morte como destino inexorável **

O tempo irreversível e a morte, nele e por ele, introduzem-se em cada um como destino inexorável: um tempo que nunca dorme e uma morte a erguer-se em qualquer curva da vida como surpresa amarga, porque todos pensam ainda não.

** Os símbolos da existência nas três viagens das barcas **

Nas três viagens das barcas, as personagens levam consigo símbolos de seu estado e poder, como nas figurinhas das Danças Macabras.

** A vida como comédia e a sátira cruel da morte **

As grandezas mundanas pertencem ao tempo e à terra, e por isso o diabo diz ao rei que entre no batel sem nenhuma advertência, só com o espírito, limpo da vontade própria, aljeciras, diamantes e safiras.