O pranto do Arcipreste pela morte de Dona Trotaconventos é apresentado em sentido geral.
Mal-anda a morte que levou a velha Trotaconventos, antes levasse a ele mesmo.
Ninguém iguala a morte, inimiga do mundo, e todos se assustam com sua amarga recordação.
A morte fere e leva de rastos, igualando bons e maus, nobres e plebeus, sem considerar papas nem reis.
Não olha a senhorio, parentesco ou amizade, anda de mal com todo o mundo, faltando-lhe mesura, amor e compaixão; acompanham-na tristeza, penas e crueldade.
Ninguém pode fugir ou esconder-se, pois todos ignoram quando chega e ela recusa atender à vontade dos homens.
O corpo é abandonado aos vermes da fossa e a alma é levada logo; ninguém conhece o caminho adverso da morte.
O mundo a aborrece de tal modo que, mal chega, todos fogem do morto como de coisa podre.
Os que amavam o morto em vida o aborrecem depois de morto como coisa repugnante.
Parentes e amigos fogem do morto como de uma aranha.
Pais, mães, mulheres fiéis e amigos deixam de gostar dos que morreram.
Quem era rico descai em grande pobreza, e quem era honrado torna-se vil e hediondo depois de morto.
Nenhum sábio ou pessoa importante fala bem da morte, e todos partem descontentes dela, exceto o negro corvo que se sacia de cadáveres.
A morte diz ao corvo que o saciará, mas não há certeza de quando e a quem matará; seria melhor morrer hoje do que ficar à espera e ouvir o corvo dizer “cras” (amanhã).
Os senhores não devem ser amigos do corvo, mas temer suas ameaças; o bem que se pode fazer hoje não se deve deixar para amanhã, pois estar neste mundo é um jogo.
A saúde e a vida mudam depressa e se perdem de repente; o bem adiado é palavra nua, é preciso vesti-la de obras antes da morte.
Quem teima em má jogada perde; é preciso apressar-se a realizar boas obras, porque depois da morte tudo escurece.
Muitos cuidam ganhar, mas vem um azar, juntam tesouros, chega a morte e deixa todos de rastos.
O moribundo perde o entendimento e a fala, não podendo levar nada; os bens acumulados levam-nos um mau vento.
Quando a família fareja que alguém vai morrer, todos se reúnem para ficar com tudo; se o médico diz que o doente vai morrer, todos levam isso a mal.
Parentes próximos, irmãos e irmãs, não se importam com a hora dos finados, pois apreciam mais a herança do que o parentesco.
Mal sai a alma do pecador rico, deixam-no sozinho, sentem medo dele, roubam quanto podem, e o que menos leva tem-se por inferior.
Fazem diligências para enterrá-lo depressa, receiam que arrombem as arcas e não querem esperar pela missa; mau pago dão ao defunto.
Não distribuem esmolas aos pobres, não mandam cantar missas, não rezam; os herdeiros limitam-se a fazer alaridos junto ao morto.
Enterram-no logo, assistem de má vontade a uma missa tarde ou nunca, e a alma leva-a o diabo.
Se o defunto deixa viúva moça, rica e bonita, eles a cobiçam antes mesmo das missas; ela casa com alguém de maior riqueza e não dá importância ao trintário ou ao luto.
O mesquinho defunto deseja apelar, mas não tem para quem; ninguém faz testamento como deve ser até ver a morte diante dos olhos.
A morte nunca consola nem dá coragem a ninguém; tem o defeito do mastruco, que dói na cabeça de quem o come muito; fere na cabeça, domina os fortes e não valem remédios.
Põe no teto os belos olhos, tira a vista, emudece a língua, faz parar o coração; não existe mal, rancor ou desespero que não esteja nela.
Dá cabo dos cinco sentidos, ninguém pode doestá-la de verdade; se a insultarem, fica na mesma.
Tira a respeitabilidade, desfeia a formosura, suprime o encanto da graça, afronta a mesura, enfraquece a força, enlouquece o juízo, transforma a doçura em fel.
Despreza a louçania, escurece o ouro, destrói o que existe, entristece a alegria, suja a limpeza, envilece a cortesia; mata a vida e aborrece o mundo.
Não agrada a ninguém, mas agrada-se de quem mata ou morre, fere ou maltrata; tudo o que está bem desfaz a sua maça, e sua rede envolve tudo quanto nasce.
Inimiga do bem e amadora do mal, tem a natureza da gota, do mal e da dor; onde vai, tudo corre pelo pior; onde entra tarde, tudo vai melhor.
Sua morada eterna são as profundezas do Inferno; ela é o primeiro mal, e o Inferno o segundo; povoa aquela triste morada e despovoa o mundo, dizendo que a todos afunda sozinha.
Por causa da morte existe o Inferno; se o homem vivesse sempre na Terra, não teria medo dela nem de sua má estalagem.
A morte erma os povoados, enche os cemitérios, abre as fossas, desagrega os impérios; com receio dela, os santos rezaram salmos; fora Deus, todos se assustam com suas penas e misérias.
A morte despovoou o Céu, deixou as cadeiras vazias, sujou os puros, mudou anjos em demônios.
O Senhor que a fez, ela o matou; fez sofrer Jesus Cristo, Deus e homem; meteu medo a quem temem o Céu e a Terra, obrigando-o a mudar de cor.
O Inferno teme a Cristo, mas a morte não o temeu; assustou sua carne e lhe causou grande susto; por causa dela, a humanidade de Cristo entristeceu-se, mas a divindade não se amedrontou.
A morte não reparou em Cristo, mas ele a viu; a morte crudelíssima de Cristo encheu-a de imenso espanto; ele venceu o Inferno, os amigos da morte e a própria morte; ela lhe deu a morte por algum tempo, e ele a matou para sempre.
Quando Cristo a venceu, a morte viu quem ele era; antes o apavorara, mas depois sentiu maior medo; ele a encheu de penas, mas ela sentiu mil vezes mais penas; aquele que ela matou deu-nos a vida morrendo.
Aos santos presos na maldita morada da morte foi dada a vida pela morte de Cristo; a casa da morte ficou deserta e vazia de santos.
Cristo livrou dos sofrimentos da morte a Adão, Eva, seus descendentes Cam, Sem e Jafet, os patriarcas, Abraão, Isaac, Dan, São João Batista, Moisés e os demais profetas e santos; todos estavam nos cárceres da morte.
Cristo libertou do cárcere todos os eleitos, deixando com a morte somente os réprobos.