As preces dos grandes de Portugal a Nossa Senhora pelo rei sepultado são consideradas de extrema beleza, constituindo um gênero diverso de pranto: a súplica chorosa pelos mortos.
Carlos Magno já pedira a Deus que se apiedasse da alma de Roldão e a pusesse na companhia dos bem-aventurados.
Em Gil Vicente, essas súplicas atingem muito maior expressão, em intensidade e tamanho, formando um todo evoluído e quase autônomo, embora ainda ligado ao pranto (ou prantos) já mencionado.
O Duque de Bragança diz: “Senhora, virgem gloriosa, dai-lhe tanta alegria como a nós deixou de cuidados.”
O Mestre de Santiago suplica: “Senhora dos três reis magos e de todos os senhores, coroa de imperadores, tu que bebeste tantos tragos tristes pelos pecadores, sede propícia ao nosso rei.”
O Marquês de Vila Real implora: “Senhora, preservada desde o começo, criada antes dos anjos para superiora deles, ponde na glória a alma do rei.”
O Marquês de Torres exclama: “Senhora, que viste expirar na cruz o Rei do Céu, queirais vós lá amparar este rei que aqui deixamos em tão escuro lugar.”
O Conde de Marialva fala: “Senhora, nossa advogada, sereis deste rei lembrada, dai-lhe vida porque a vida aqui lograda não é vida.”
Torna-se, de quando em vez, à filosofia da vida, do tempo e da morte: não neste mundo mas só no outro é que se vive de verdade.
O bispo de Évora põe em contraste a grandeza real e a pobreza da cova onde o soberano repousa, vestido de terra: “Ca vos fica este senhor, pobremente sepultado […] Hi fica desemparado, co pago que o mundo daa, de terra emparamentado; senhora, tende cuidado delle la.”
O Conde de Tentúgal diz: “Senhora, abalamos daqui desconsolados e tristes, como quando vós partistes do enterro do Senhor. Dai ao nosso rei o bem eternal.”
O Conde da Feira foca a vida como viagem e releva a diferença entre a glória do trono e a escuridão do túmulo: “Emperatriz das alturas, sobre os coros enxalçada, pera sempre alomiada, aqui vos fica aas escuras o Rey da gram nomeada. Acabou sua jornada, senhora, muyto emproviso.”
Numa palavra, viver é andar, ir largando o terreno que se pisa, até largar tudo e para sempre; espaço e tempo vão morrendo para o vivente.
Parte-se de improviso, na barca da Morte.
O Conde de Portalegre pede consolação para o povo de Lisboa.
O Conde de Alcoutim queixa-se da vida breve e ilusória, donde se sai para a terra da escuridão: “Querelome, senhora, a vós, de nossa vida enganosa, que, além de trabalhosa, partese breve de nós pera terra tenebrosa.”
Pede que a Senhora tenha misericórdia do rei e dê a sua esperança, “até que vamos” deste mundo, porque viver é caminhar sempre, em longa ou curta jornada, abalar a cada momento, e morrer é partir de vez para a terra escura donde não se volta mais.