Frei João Álvares, secretário do Infante D. Fernando, descreveu na crônica os trabalhos e a morte do Infante Santo com base em coisas vistas e palavras ouvidas diretamente.
Acompanhou o infante na desgraçada expedição de Tânger e ficou prisioneiro com ele nos cárceres de Fez, sem nunca o deixar até o último momento.
A autenticidade substancial do pranto dos portugueses à morte de D. Fernando é garantida pelos costumes da época e pela honradez da testemunha histórica.
Não há autenticidade literal palavra por palavra, pois seria difícil recordar sempre os termos exatos dos prisioneiros.
O pranto não tem o sabor épico da lamentação de Carlos Magno sobre Roldão, pois o Infante D. Fernando tinha uma derrota, embora se houvesse portado com heroísmo e pudesse ter fugido.
O pranto tem sabor especial, saudoso das bondades e da presença amiga de D. Fernando, que partiu deixando os companheiros sós.
Os companheiros de cativeiro entoaram lamentos em voz alta, visando órfãos, viúvas e todos os reinos de Portugal, chamando os que viviam à memória do infante.
Lamentavam que D. Fernando, por quem Deus fazia maravilhas, morresse deixando-os ao abandono, oferecendo-se valentemente ao cutelo dos infiéis.
O amor que ele tinha a Deus não o deixava sentir as penas e os trabalhos.
Perguntavam ao Senhor por que não levara consigo aqueles órfãos tristes e desamparados, nove malaventurados criados e servidores.
Afirmavam que quem odiava o infante os odiaria a eles, e que se não tiveram pena dele, menos terão da gente.
Perguntavam a Deus a que deserto os trouxera, seguindo eles a brilhante coluna da sua boa e santa doutrina, e por que os deixara afogar no Mar Vermelho das angústias antes da libertação.
A noite escura e trevosa os separara de tão grande lume e claridade; perguntavam como passariam as águas, que farol os guiaria, com que alegria e coragem suportariam as tribulações.
Indagavam o que seria feito da esperança dos prometidos galardões; com que prazer, no fim do trabalho, voltavam ao cárcere como quem havia de encontrar quem lhes curasse as chagas.
Todas as bênçãos e promessas se mudaram em escárnio.
A morte tem o sabor de uma separação, alguém da família que parte e nunca mais volta, ficando os vivos em solidão como se a terra verdadeiramente habitada fosse a outra.