Cronos fala pela derradeira vez com inteligência, como aquele que muito aprendeu ao longo dos séculos.
Verifica que D. Pedro se esforça, como Boécio, por descobrir o direito caminho, mas as lágrimas não o deixam fitar bem a luz clara.
Para tomar o verdadeiro remédio, deve considerar que as coisas terrenas pouco duram, arredar-se de cuidados grandes, ler bons livros, temer a Deus e não ambicionar prazeres que murcham.
Deve renunciar ao tumulto e à alegria cortesã dos que se banqueteiam à custa dos outros, fazendo-se truões e jograis para agradar aos senhores e aos ricos.
Se possui honras e bens mundanais, não seja servo deles nem confie em tais coisas; hoje estão conosco, amanhã abandonam-nos.
Alonso Pérez de Vivero (ou Bivero) subiu de pescador a tão alto estado que grandes de Castela e condes iam visitá-lo a sua casa. Pois bem, atiraram-no como um cão da varanda abaixo.
Quem isso fez chegou a mandar mais do que o rei, mas um dia tombou da sua grandeza, cortaram-lhe a cabeça com pregão numa praça de Valhadolide e a espetaram num pau, onde ficou nove dias.
No mundo antigo, o mesmo acontecia: a Fortuna ergue e abate os homens, passando do bem ao mal e deste ao bem, sem nunca se poder ter confiança senão em Deus.
D. João será príncipe de Antioquia, casado com a princesa de Chipre, e morrerá dias depois de veneno; assim como fumo e sombra, desaparecerá a sua juventude.
Se não morresse de veneno, talvez o levassem preso os turcos, como aconteceu ao avô da sua mulher.
Teu tio D. Fernando, filho dum rei vitorioso, morreu nas prisões de Fez. A vida, triste e mal-aventurada, custa mais a sofrer do que a morte.
Nenhuma aldeia, cidade ou casa onde não habitem as lágrimas. Coragem, pois, e constrói morada firme e perpétua no Céu, onde a cega Fortuna nada pode contra os homens e nada lhes tira.
Em suma, as coisas vão e vêm, o tempo tudo baralha e é inútil afligir-se pelo que brevemente se esfuma, pois tudo é lábil neste mundo.