Charles Perrault (1628–1703)
Escritor, alto funcionário da administração real de Luís XIV, advogado e membro proeminente da Academia Francesa, Charles Perrault foi o principal ideólogo do partido dos “Modernos” na célebre Querela dos Antigos e dos Modernos (Querelle des Anciens et des Modernes). No campo literário, notabilizou-se como o fundador do gênero do conto de fadas literário na França do século XVII (conte de fées). Sua coletânea em prosa, Histoires ou contes du temps passé (1697), fixou as versões arquetípicas de narrativas como Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul e O Gato de Botas, articulando a matéria folclórica arcaica com o refinamento estilístico, o protocolo cortesão de Versalhes e a ironia das moralidades em verso.
1. Edições Canônicas dos Contos e Textos Clássicos em Língua Inglesa
PERRAULT, Charles. The Tales of Mother Goose: As First Collected by Charles Perrault in 1696. Translated by Charles Welsh. Boston: D. C. Heath & Co., 1901.
PERRAULT, Charles. Perrault's Complete Fairy Tales. Translated from the French by A. E. Johnson and others. Illustrated by Gustave Doré. New York: Dodd, Mead & Co., 1961. (Reedição: New York: Dover Publications, 1969).
Foco: Edição canônica integral que reúne os oito contos em prosa de 1697 e os três contos anteriores em verso (Grisélidis, Les Souhaits ridicules e Peau d'Âne), associados às célebres gravuras históricas de Gustave Doré.
PERRAULT, Charles. The Complete Fairy Tales. Translated with an Introduction and Notes by Christopher Betts. Oxford: Oxford University Press, 2009. (Oxford World's Classics).
PERRAULT, Charles. The Fairy Tales of Charles Perrault. Illustrated by Harry Clarke. Introduction by Thomas Bodkin. London: George G. Harrap & Co., 1922.
2. Obras Teóricas, Poemas e Tratados da Querela dos Modernos
PERRAULT, Charles. Le Siècle de Louis le Grand. Paris: Jean-Baptiste Coignard, 1687.
PERRAULT, Charles. Parallèle des Anciens et des Modernes en ce qui regarde les Arts et les Sciences. 4 v. Paris: Jean-Baptiste Coignard, 1688–1697.
Foco: Monumental tratado em forma de diálogos filosóficos em que Perrault fundamenta a teoria do progresso cumulativo da razão humana, criticando a submissão dogmática à autoridade estética de
Homero,
Platão e
Aristóteles.
PERRAULT, Charles. Les Hommes illustres qui ont paru en France pendant ce siècle: Avec leurs portraits au naturel. 2 v. Paris: Antoine Dezallier, 1696–1700.
Foco: Galeria biobibliográfica monumental consagrada a mais de uma centena de intelectuais, cientistas, estadistas, teólogos e poetas franceses seiscentistas, enfatizando as realizações autônomas da cultura moderna nacional.
PERRAULT, Charles. Mémoires de ma vie. Paris: Paul Renouard, 1909. (Edição em língua inglesa: Memoirs of My Life. Edited and translated by Jeanne Morgan Zarucchi. Columbia: University of Missouri Press, 1989).
3. Principais Estudos Críticos, Biografias e Hermenêutica em Inglês
BARCHILON, Jacques; FLINDERS, Peter E. Charles Perrault. Boston: Twayne Publishers, 1981.
ZARUCCHI, Jeanne Morgan. Perrault's Morals for Moderns. New York: Peter Lang, 1985.
ZIPES, Jack. The Great Fairy Tale Tradition: From Straparola and Basile to the Brothers
Grimm. New York: W. W. Norton & Co., 2001.
DUNDES, Alan (ed.). Little Red Riding Hood: A Casebook. Madison: University of Wisconsin Press, 1989.
HARRIES, Elizabeth Wanning. The Twice-Told Tale: Fairy Tales and the Many Voices of Tradition. Princeton: Princeton University Press, 2001.
Foco: Análise crítica que contrasta o modelo narrativo conciso, linear e “normativo” fixado por Perrault com a produção barroca, complexa e subversiva das contistas contemporâneas dos salões parisienses (como Madame d'Aulnoy e Henriette-Julie de Murat).
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica dos Contos
O Folclore como Arma na Querela dos Modernos: A fixação dos contos de fadas por Perrault não foi um passatempo desinteressado, mas uma intervenção estratégica na Querela dos Antigos e dos Modernos. Ao elevar narrativas orais da tradição popular gaulesa e francesa ao estatuto de alta literatura, Perrault buscava provar que a cultura cristã e nacional moderna possuía sua própria mitologia formativa, moralmente superior e esteticamente mais relevante para o público contemporâneo do que as fábulas mitológicas pagãs greco-latinas.
O Processo Civilizador e a Moralidade Mundana: Sob a ótica sociológica e histórica, os contos de Perrault refletem o que Norbert Elias definiu como o “processo civilizador”. Os impulsos violentos, o canibalismo e a sexualidade crua presentes nos substratos orais campesinos foram filtrados e submetidos às regras de decoro (bienséance), de polidez social e de contenção afetiva da corte de Luís XIV. O triunfo dos protagonistas (como no Gato de Botas ou em Cinderela) frequentemente depende do engenho mundano (esprit), do conhecimento das convenções sociais e da graça exterior.
A Duplicidade Enunciativa: A prosa de Perrault opera em uma permanente camada dupla de leitura. Sob a superfície de uma narrativa simples e ingênua, atribuída convencionalmente à voz popular de uma ama-de-leite (a figura fictícia de Ma Mère l'Oye), insinua-se a voz de um cortesão letrado, cético e sutilmente zombeteiro. As moralidades finais em verso frequentemente desconstroem ou ironizam a gravidade do conto precedente, expondo as ambiguidades do desejo, da ambição e das relações de poder na sociedade cortesã.