PROPP, V. Historical roots of the wondertale. Tradução: Miriam Shrager; Tradução: Sibelan E. S. Forrester; Tradução: Russell Scott Valentino. Bloomington, Indiana, USA: Indiana University Press, 2025.
I. A confraternidade da floresta.
A grande casa e a pequena cabana.
A mesa posta.
Na casa, o herói encontra uma mesa posta com doze cobertos, doze pães e outras tantas garrafas de vinho, onde cada um tem sua parte e todas as partes são iguais.
O recém chegado ainda não tem sua ração, e todos lhe dão um pouco da sua, caracterizando a refeição de uma comunidade.
O contraste com o comportamento em família, onde se esvazia o prato, mostra que na casa do bosco não é possível viver de forma diferente, pois ali se vive em amor e acordo entre irmãos.
Os irmãos.
Os caçadores.
Os brigantes.
A repartição dos deveres.
A irmãzinha.
A dinâmica da confraternidade começa com o aparecimento de uma mulher na casa do bosque, que chega por ter sido expulsa pela madrasta, convidada, raptada ou por outra forma.
A garota raptada é tratada como uma verdadeira irmã, vive com os irmãos, é a governanta, cuida da casa e prepara o jantar.
A vida na casa para homens visa isolar os jovens das mulheres, e tudo o que nela acontece é proibido às mulheres.
A casa para homens é proibida às mulheres, mas a mulher não é proibida dentro da casa, havendo sempre uma ou várias mulheres que funcionam como esposas para os irmãos.
As raparigas que viviam nas casas para homens não eram objetos de desprezo, sendo encorajadas pelos próprios pais, e eram propriedade temporária dos jovens.
A situação honrosa da irmãzinha e as tarefas domésticas que ela deve desempenhar são completamente históricas.
O conto de fadas nega a existência de relações conjugais, mas em alguns casos a menina gera um filho com os dois brigantes, ou uma menina é pedida em casamento por doze pretendentes brigantes.
Em uma fábula mongol, sete príncipes vão ao bosque, encontram uma jovem e a convidam para ser a consorte de todos eles.
Os materiais etnográficos mostram que as mulheres podiam pertencer a todos, a alguns ou a um só homem, escolhendo ou sendo escolhidas, e seus serviços eram compensados com anéis ou outros objetos.
O nascimento da criança.
Das uniões na casa para homens nasciam filhos, que eram quase sempre mortos, mas quando a paternidade podia ser conhecida, a criança constituía um motivo para transformar a relação amorosa em um casamento estável.
Em uma fábula de Perm, o herói vive com uma heroína guerreira na casa da floresta, têm um filho, a mulher quer converter a união em casamento estável, mas o herói foge e a mulher mata e come o filho, usando o cadáver como meio para fazer o herói voltar.
O conto de fadas não reconhece em geral o casamento ocorrido na casa do bosque, e a mulher é apenas uma irmãzinha.
A bela no ataúde.
Amor e Psique.
A mulher nas núpcias do marido.
Tanto os jovens quanto algumas jovens podiam contrair dois casamentos: o primeiro, livre na grande casa, temporário e coletivo; o segundo, depois do retorno para casa, estável e regular, do qual nascia a família.
O herói do conto de fadas às vezes se casa duas vezes ou está prestes a se casar pela segunda vez, tendo esquecido a primeira mulher.
A primeira mulher, esposa de todos os irmãos, era abandonada e esquecida, e depois do retorno para casa se concluía um casamento estável, mas a mulher repudiada ressurge do lugar e o herói a desposa.
O conto de fadas reflete um estádio posterior, de desagregação desse sistema, com conflito e exigência de outras formas de casamento.
Na fábula O rei do mar e Vassilissa, a Sábia, o herói é vendido ao rei do mar, casa com sua filha e, ao voltar, ela lhe pede que não beije a irmãzinha, senão ele a esquecerá.
O herói beija a irmãzinha, conclui outro casamento e esquece completamente a primeira mulher, até que ela se faz viva no banquete nupcial.
A interpretação do esquecimento como perda da memória na passagem entre o reino dos vivos e dos mortos é possível, mas o beijo fica obscuro, ao passo que a interpretação da irmãzinha como a da casa da floresta torna a questão mais clara.
O meio para fazer o herói se lembrar é uma torta da qual voam dois pombos que se beijam, lembrando-lhe a própria infidelidade, o que se relaciona com ritos sindiásmicos ou unitivos.
O porcalhão.
O herói que não foi reconhecido aparece sujo, enlameado de fuligem, com os cabelos e unhas por cortar, vestido com peles de feras.
A proibição de se lavar é uma parte quase inevitável da cerimônia de iniciação, estendendo-se por todo o tempo de permanência no lugar sagrado.
O não se lavar está ligado a se untar de fuligem ou de barro, ou seja, a se pintar de preto ou branco, o que está ligado à invisibilidade e à cegueira.
O não se lavar é também uma preparação para as núpcias, após a qual o jovem pode se unir em matrimônio.
A untadura de barro pode ter relação com o semblante animal, sendo uma espécie de máscara, e o fato de não ser reconhecido é uma condição imanente para o retorno do herói da floresta.
Não sei.
Carecas e cobertos por uma guaina.
O herói cobre a cabeça com uma bexiga, tripas ou um trapo, ou é chamado de calvo, e os heróis do conto de fadas são frequentemente chamados de carecas.
Nas ilhas Salomão, apenas os membros das associações masculinas que têm cabelos compridos e usaram um cocar especial em forma de cone durante a puberdade podem casar.
A coifa é o sinal do futuro esposo, e os calouros chamam-se matazezen no período que vai do rito ao casamento.
A guaina de tripas ou bexiga corresponde à coifa descrita na etnografia, que era usada para favorecer o aumento da potência sexual.
O marido nas núpcias da mulher.
O herói é casado no início do conto, depois parte, descobre que a mulher vai casar de novo, volta a tempo de assistir às núpcias da mulher.
O casamento já estava concluído antes da iniciação, e o marido parte para a floresta, com longa ausência, enquanto a mulher tenta se casar de novo.
Isto não contradiz as modalidades de conclusão do casamento, pois com o declínio do costume, o rito se celebrava cada vez mais raramente, e homens de quarenta anos se iniciavam junto com adolescentes.
O professor Tolstoi demonstra de modo convincente que o herói foi para a morada da morte, onde o tempo passa rápido, e ele volta mudado, irreconhecível, coberto de pelos, abandonado e sujo.
A proibição de se gabar.
O depósito proibido.
O herói recebe as chaves de todos os aposentos, mas não pode abrir um em particular, onde se encontra o futuro ajudante, e a transgressão da proibição não provoca nenhum conflito, pois a proibição valia apenas até o sono sem interrupção.
Nos depósitos proibidos das casas para homens, guardavam-se animais entalhados em madeira e imagens do sol e da lua.
Na casa dos brigantes, há um depósito especial com corpos mortos, uma adega cheia de mortos, com o chão de cristal e celas cheias de ouro, prata e cadáveres.
O depósito proibido aparece como motivo característico e indispensável nas fábulas do tipo Barba Azul (Perrault), onde o noivo da floresta tem aspecto animal.
O depósito proibido aparece em contos do tipo A ciência astuta, onde o pai leva o filho para fazer o tirocinio na casa de um velho de quinhentos anos, com sete cômodos.
O depósito proibido aparece frequentemente no outro mundo (céu) ou na casa de Deus, onde o padrinho governa o mundo.
O conteúdo do depósito inclui, além do animal-ajudante (cavalo, cão, águia, corvo), serpentes acorrentadas, horrores de todo gênero, corpos esquartejados, ossos, mãos e pés amputados, sangue, um bacio ensanguentado, um cepo com o machado.
Conclusão.
A coincidência entre o rito de iniciação e a permanência na casa para homens, de um lado, e o que acontece na cabaninha do bosque e na grande casa, de outro, é impressionante.
A coincidência não é apenas nos detalhes, mas concerne a essência mesma do processo do rito de iniciação e seus atributos e acessórios exteriores.
O conto de fadas e o rito não coincidem completamente, havendo particularidades na fábula que não se podem explicar pelo rito, e o rito é mais amplo que o conto de fadas.
Nem todas as conexões foram ainda encontradas, mas foi encontrada a direção em que as pesquisas devem prosseguir.