3 A Ordem Criada

BIRZER, Bradley J. J. R. R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle Earth. 1st ed ed. New York: Regnery Publishing, 2023.

1. Deus está evidentemente presente em O Senhor dos Anéis, cuja época, embora pré-cristã, pertence a um mundo monoteísta, conforme a resposta defensiva dada em 1968 a entrevistadores que estranhavam a aparente ausência divina na trilogia, acrescida da explicação de que se trata do Deus único e de que o livro trata do mundo que Deus criou, o mundo real deste planeta.

2. Como subcriador, Tolkien desejava recriar a verdade, as leis e a beleza da ordem criada por Deus, e O Senhor dos Anéis constitui uma obra fundamentalmente religiosa e católica, inconscientemente no início e conscientemente na revisão, escrita a partir do ponto de vista essencial de um cristão, a tal ponto que, segundo George Sayer, teria sido muito diferente e difícil de escrever sem essa fé, enquanto, segundo o filho Michael, o catolicismo romano impregnava todo o seu pensamento, o que explica a profunda decepção por apenas algumas revistas católicas terem resenhado inicialmente a obra.

3. O catolicismo romano moldou quase todos os aspectos da vida de Tolkien, que via a existência como parte de um conflito cósmico entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo, e jamais deixava de trazer o cristianismo à conversa, numa fé nada meramente intelectual, mas a de um católico devoto, rigoroso e à moda antiga, dedicado aos sacramentos que libertam da escravidão a Sauron, capaz de rezar espontaneamente numa simples igrejinha de aldeia durante uma caminhada, convicto de que Deus atende diretamente às orações e chega a curar milagrosamente doenças, fé desarmantemente sincera que vacilou uma única vez, lembrada depois com amarga autoacusação de perversidade e preguiça.

4. Mesmo diante de plateias acadêmicas majoritariamente agnósticas ou ateias, Tolkien admitia raramente ter opiniões fortes sobre a filologia, por julgá-la desnecessária à salvação, manifestava aos amigos literatos seu apreço pelas Escrituras e permanecia comprometido com a busca da verdade sem o estorvo do zelo fundamentalista, como mostra sua objeção a um católico entusiasmado que pretendia investigar a etimologia de Coventry de acordo com a tradição católica, quando a única via possível é buscar a verdade sem preconceito, termine-se ou não num convento.

5. A mitologia da Terra-média, recebida de Deus juntamente com a tarefa de registrá-la, constituía também um monumento aos amigos mortos na Grande Guerra, destinado a restaurar o conhecimento das antigas verdades no mundo devastado do pós-guerra, conforme o apelo de G. B. Smith, escrito das trincheiras em 1916, de que a morte pode tornar os indivíduos repugnantes e impotentes, mas não pode pôr fim aos quatro imortais, de que Tolkien fora escolhido como Saul entre os filhos de Israel e devia publicar depressa, antes de chegar àquela orgia de morte e crueldade, para dizer as coisas que o amigo tentara dizer muito depois de ele já não estar ali.

6. Pouco depois, um obus alemão pôs fim à vida de Smith.

7. Mais agudamente do que o peso de cumprir o propósito divino e honrar os amigos tombados, pesava a dificuldade de criar um mundo secundário internamente coerente e verossímil, mas teologicamente conforme ao cristianismo ortodoxo, determinação que o sucesso de O Senhor dos Anéis apenas reforçou, a ponto de o último ano de vida ser dedicado às implicações teológicas da imortalidade élfica, sob o temor justificado de que muitos leitores interpretassem os elementos morais e espirituais da mitologia como pagãos ou, pior, como arautos de uma nova religião.

8. A graça divina tocou Tolkien diretamente pela morte prematura da mãe, convertida ao catolicismo romano, a quem ele devia, como confessou ao padre Robert Murray, a fé que o nutriu desde os oito anos e lhe ensinou o pouco que sabia, fé à qual ela se agarrou e pela qual morreu jovem, sobretudo em razão das privações da pobreza decorrente da conversão, sendo Mabel provavelmente a pessoa mais influente em sua vida, aquela de quem derivou, segundo Lewis, todas as inclinações e os primeiros conhecimentos linguísticos, românticos e naturalistas.

9. A mãe foi sempre considerada mártir do catolicismo romano, pois, convertida em 1900, sofreu intensa intolerância anticatólica da família próxima e extensa, que cortou o apoio financeiro a ela e aos dois filhos, agravando a penúria iniciada com a morte do marido quatro anos antes, morte que marcou profundamente a visão negativa de Tolkien sobre os protestantes e seu senso de obrigação de criar os filhos na fé católica, tornando-lhe amargo ver os filhos se afastarem da fé que a mãe, esgotada pela perseguição, pela pobreza e pela doença, lutara para transmitir.

10. A outra grande influência católica foi o padre Francis Morgan, de ascendência galesa e espanhola, discípulo do cardeal John Henry Newman e membro de seu Oratório em Birmingham, tutor legal de Tolkien após a morte da mãe em 1904, sob cuja guarda ele e o irmão viveram como internos juniores da austera casa do Oratório, ainda povoada de convertidos de Newman, e a quem Tolkien atribuía grande parte de sua formação intelectual e moral, pois, se a mãe lhe incutiu a fé, o padre Morgan ensinou-lhe a natureza e a essência dessa fé, a caridade e o perdão que lhe permitiram atravessar a escuridão liberal de onde viera, mais familiarizado com Maria, a Sanguinária, do que com a Mãe de Jesus, a ponto de considerá-lo tão importante quanto o pai biológico.

11. O padre Morgan imbuiu Tolkien de um catolicismo romano doutrinariamente tradicional, assentado nas Escrituras, na tradição e no Magistério, para o qual o fascínio protestante pela Igreja primitiva não passa de fascínio mórbido pela ignorância, já que a Igreja precisava de tempo para crescer, e aprisioná-la numa única época significa retardar seu desenvolvimento doutrinal, de modo que, ao negar a tradição, os protestantes paradoxalmente a condenam à estagnação ou ao retrocesso.

12. Seguindo o exemplo da mãe e do padre Morgan, Tolkien procurou praticar as boas obras necessárias à santificação na tradição católica, ensinando o filho Christopher a decorar diversas orações e toda a missa em latim, para que jamais lhe faltassem palavras de alegria, mantendo um rosário junto à cama mesmo nas noites de vigília contra os bombardeios nazistas sobre Oxford e rezando com frequência pela intercessão da Virgem e de vários santos.

13. Dadas suas convicções fortemente tradicionais, Tolkien não compreendeu a necessidade do Concílio Vaticano II nem a adoção do vernáculo na missa, e a Igreja, antes refúgio, passou a parecer-lhe uma armadilha, com a Eucaristia frequentada por jovens desleixados e mulheres de calças e cabelos descobertos e, pior, com o sofrimento infligido por padres estúpidos, cansados, apagados e até maus, chegando ele, segundo uma anedota, a levantar-se no meio de uma missa ao notar a diminuição das genuflexões, fazer três reverências profundíssimas no corredor e sair batendo os pés da igreja.

14. Apesar da decepção com o que via como liberalização da Igreja, Tolkien permaneceu católico leal e praticante.

15. As observações depreciativas sobre o protestantismo revelam tanto do cristianismo de Tolkien quanto as apreciativas sobre o catolicismo, pois o verdadeiro fundamento da Igreja Anglicana não passaria de profundo ódio ao catolicismo romano somado à pura arrogância, o anglicanismo seria uma mistura patética e sombria de tradições meio lembradas e crenças mutiladas, e a Reforma inteira, chamada revolta da Europa Ocidental, uma farsa blasfema e um ataque maligno à santidade do Santíssimo Sacramento, sendo a questão da fé e das obras mera pista falsa.

16. A irritação com a Igreja da Inglaterra e outras formas de protestantismo manifestou-se sobretudo na relação por vezes tensa com C. S. Lewis após 1939, incomodada pela teologia genérica do Cristianismo Puro e Simples e, pior, pela aparente indiferença de Lewis à perseguição dos católicos, como se viu quando o poeta católico Roy Campbell relatou aos Inklings, no outono de 1944, as atrocidades comunistas contra a Igreja na Espanha e o martírio de padres pareceu não comover Lewis, pronto a ir à guerra por um protestante preso, mas inclinado a descartar o assassinato de católicos por regimes igualmente corruptos.

17. As tendências anticatólicas de Lewis são confirmadas por outros testemunhos, como o uso, por ele e pelo irmão Warnie, de termos de extremo desprezo para designar os católicos, a ironia de Warnie de que Lewis se julgava de mente aberta por ter conversado civilizadamente com um padre romano e ouvido sem interromper um socialista, e a lembrança de um aluno de que Lewis afirmou, com toda a seriedade e sem sorriso algum, que certo padre católico entendia tanto de teologia quanto um porco.

18. Embora cada vez mais católico na prática, senão nas simpatias intelectuais, Lewis compreendia bem os próprios preconceitos, ressentidos desde a infância contra qualquer traço de liturgia da alta igreja que contaminasse a verdadeira fé protestante, e Warnie atribuía grande parte desse anticatolicismo ao simples nacionalismo do Ulster, onde ir à igreja era menos um ato religioso do que um direito político, a afirmação semanal de não ser nacionalista católico, a ponto de o açougueiro e o merceeiro frequentarem o culto sobretudo para lembrar à freguesia que em suas lojas se vendia comida protestante decente, livre das heresias condenáveis de Roma.

19. Em Surpreendido pela Alegria, Lewis admitiu, talvez só meio de brincadeira, ter sido advertido ao nascer a nunca confiar num papista e, ao entrar na Faculdade de Inglês, a nunca confiar num filólogo, sendo Tolkien ambos, mas, além dessa forte amizade, manteve correspondência e amizade com numerosos católicos ao longo da vida, passou a confessar-se semanalmente segundo o rito anglo-católico a partir de 1940 e, numa carta comovente, pediu a um jesuíta que rezasse para que Deus lhe desse luz e graça para o gesto final e para que fossem vencidos os preconceitos incutidos por uma ama do Ulster.

20. Tolkien pouco ou nada soube das lutas interiores de Lewis em torno de uma possível passagem à Igreja Católica, e seu ataque mais mordaz ao amigo, “O Motivo Ulsterior”, escrito menos de um ano após a morte de Lewis em 1963 como resposta às póstumas Cartas a Malcolm, obra julgada aflitiva e em partes horrenda, permanece inédito e inacessível, embora os poucos vislumbres disponíveis indiquem uma análise séria da amizade, como a lembrança de que, ao ouvir que São João era o padroeiro de Tolkien, Lewis enrijeceu, jogou a cabeça para trás e declarou com aspereza não conseguir imaginar duas pessoas mais diferentes, deixando o amigo a segui-lo pelos claustros sentindo-se um católico miserável flagrado por um clérigo evangélico de boa família ao tomar água benta à porta de uma igreja.

21. Lewis provavelmente esqueceu o comentário um instante depois de fazê-lo, mas Tolkien, como Barbárvore, pouco esquecia e guardou a farpa por décadas, julgando Lewis mais engenhoso do que perspicaz, anotando à margem de Cartas a Malcolm que o livro tratava menos da oração do que do modo como Lewis rezava, autobiográfico como todas as suas obras, e revelando, em “O Motivo Ulsterior”, o ressentimento de um dos dois homens mais decisivos para a conversão de Lewis ao cristianismo por ele nunca ter se tornado católico romano e ter, ao contrário, despertado de novo para os preconceitos tão cuidadosamente plantados na infância e na juventude.

22. As sérias divergências teológicas com Lewis parecem ter começado quando Charles Williams se tornou Inkling em 1939, pois os dois amigos se viram cada vez menos depois que Lewis caiu sob a influência dominante de Williams, de quem logo se tornou amigo íntimo e que lhe oferecia um companheiro de intelecto equivalente ao de Tolkien, mas sem a bagagem constrangedora do catolicismo romano.

23. O esfriamento da amizade costuma ser atribuído ao ciúme provocado pela intrusão de Williams, mas a ruptura é mais profunda, pois, embora Tolkien apreciasse Williams como conhecido, desconfiava profundamente de suas ideias teológicas, chamando de feiticeiro e aparição quem Lewis descrevia como anjo, e o fascínio de Lewis por alguém que na juventude se declarara gnóstico deve tê-lo assustado profundamente, já que acreditava firmemente no diabo e em seu poder de tentar e corromper o homem decaído e temia sobretudo o conhecimento e o flerte com qualquer forma de mal, como faz Elrond ao explicar a queda de Saruman pela advertência de que é perigoso estudar a fundo demais as artes do inimigo.

24. Em contraste, ao menos na própria percepção, com Cartas de um Diabo a seu Aprendiz e com a maior parte da ficção de Williams, a mitologia foi cuidadosamente construída para ser tão cristã quanto possível, afirmando a visão de mundo devotamente católica e sobretudo sua ênfase na eficácia salvífica do livre-arbítrio em resposta à graça de Deus.

25. No princípio da mitologia, Ilúvatar, também chamado Eru, o Deus Único e Pai de Todos, criou os Ainur, os arcanjos, deu a cada um parte de sua sabedoria e conhecimento e, propondo-lhes um tema, ordenou que fizessem juntos em harmonia uma Grande Música, adornando-o cada qual com os próprios pensamentos e engenhos, já que os acendera com a Chama Imperecível, equivalente mitológico do Espírito Santo, e esse canto criador seria a maior de todas as músicas até o fim dos dias, quando Deus criaria um tema ainda maior.

26. Logo surgiu a discórdia, pois Melkor, o maior dos Ainur, quis compor o próprio tema e criar como se fosse igual a Ilúvatar, desejando não subcriar para glorificar a Deus, mas tornar-se Deus e louvar a si mesmo, e, depois de arruinar a harmonia do primeiro tema, corromper o segundo e abafar o terceiro com ruído estridente e violento, foi severamente repreendido e humilhado por Ilúvatar, a quem em seu orgulho jamais perdoaria, enquanto Ilúvatar mostrava aos Ainur o mundo criado pela música, Arda, onde, no terceiro tema, criara em segredo e de modo único seus filhos, os Elfos e os Homens, em cuja feitura a música dos Ainur não teve parte.

27. Cheio de despeito contra Ilúvatar e os Ainur, Melkor desceu a Arda para dominar os seres do terceiro tema, e numerosos Ainur, sob a regência de Manwë, a maior voz angélica do segundo tema, também desceram, não para reinar como deuses, mas para viver como servos e regentes de Ilúvatar, sendo chamados de Valar e guerreando contra Melkor até o fim da Primeira Era, quando enfim o capturaram e acorrentaram, numa guerra santa que perturbou gravemente a vida em Arda.

28. Tanto na lenda, quando anjos e demônios caminhavam visíveis sobre a terra, quanto na história, quando deixaram de assumir forma visível, toda a Terra-média era o Anel de Morgoth, cujas mentiras semeadas no coração de Elfos e Homens são semente que não morre e brota sempre de novo dando frutos sombrios até os últimos dias, e só quando Ilúvatar entoar o tema final Morgoth e sua influência serão inteiramente destruídos, na Última Batalha que mistura o Ragnarök nórdico e o Apocalipse de São João, em que os Valar sob Manwë derrotam Morgoth para sempre, Arda torna-se íntegra e as Silmarils recuperadas ressuscitam as Duas Árvores.

29. Ilúvatar permanece indiscutivelmente soberano em toda a mitologia, mas distribui seus dons e a responsabilidade de governar a criação por um complexo sistema de subsidiariedade, de modo que, embora as histórias girem em torno de várias quedas da graça, a graça também é concedida para corrigir os males por meio dos anjos, e não diretamente, já que os Valar receberam ordem de agir apenas como governadores, ajudar na guerra contra Morgoth e jamais aparecer como deuses ou exigir adoração, sendo Manwë rei em Arda, mas tendo Ilúvatar como seu rei.

30. Ilúvatar remodela as corrupções do mal não só para levar seu plano a bom termo, mas para criar algo inteiramente melhor que o original, intervindo diretamente em cada momento decisivo do legendário, ao incorporar o canto de Melkor ao desígnio maior na criação, ao pôr fim ao reinado de Morgoth, como fará de novo na Última Batalha, prefigurada pela destruição de Númenor, e ao submergir a ilha dos númenorianos aliados de Sauron que tentaram invadir o Reino Abençoado para se tornarem deuses, tornando Arda redonda e impedindo novo contato com aquele reino, pois a Terra pode dever sua importância aos olhos de Deus unicamente ao princípio da ovelha perdida contra as noventa e nove, e por mais vil que se torne a maior parte da humanidade, Deus continua protegendo os seus fiéis.

31. Se a queda de Satanás, isto é, de Morgoth ou Melkor, foi belamente descrita, a queda do homem mostrou-se muito mais difícil de narrar no início de O Silmarillion, pois a humanidade caiu tão baixo que se tornou impossível sequer pensar corretamente sobre isso ou imaginar o contraste entre o Éden e o mundo que se seguiu.

32. O diálogo à maneira de Jó intitulado “Athrabeth Finrod ah Andreth”, que explica a razão do mal e da queda, considera a relação entre Elfos e Homens na ordem criada e o papel de Ilúvatar na recriação da terra desfigurada e decaída, constituindo talvez o escrito mais teológico e profundo de todo o legendário, essencial à compreensão da visão mitológica de Tolkien, obra importante e acabada segundo Christopher Tolkien em O Anel de Morgoth e originalmente destinada a figurar como apêndice de uma versão completa de O Silmarillion.

33. Na densa discussão entre o rei élfico Finrod e a sábia humana Andreth, Finrod quer saber por que os homens são decaídos e de vida breve, enquanto os Elfos permanecem não decaídos e quase imortais, apesar de biologicamente quase idênticos, e Andreth sustenta equivocadamente que Melkor desfigurou a verdadeira natureza humana encurtando-lhe a vida, ao que Finrod objeta que Melkor pode corromper indivíduos, mas jamais uma raça inteira, poder que só Ilúvatar teria e nunca usaria para isso, pois o Senhor deste mundo não é Melkor, mas aquele que o fez, cujo vice-regente é Manwë, o bendito Rei Antigo de Arda, enquanto Andreth admite que muitos homens se creem nascidos para a vida eterna, mas a entende erroneamente como vida do corpo.

34. Os homens vivem a tensão entre corpo e alma, sendo carne e espírito mas lembrando-se muitas vezes de um com exclusão do outro, conflito que, de modo platônico, os leva a não olhar nada por si mesmo, estudando cada coisa para descobrir outra, inquietação anterior à corrupção de Melkor e dada por Ilúvatar para que desejassem voltar ao verdadeiro lar, o céu, sem se apegar demais à terra, mas que Melkor perversamente agravou ao mentir que a morte era castigo, e não dom, levando os homens a acreditar nele e a ressentir-se de Ilúvatar.

35. Ilúvatar não tolerará a vitória de Melkor e, em vez de desfazer o passado, usará os erros de Melkor e dos homens que a ele se aliaram para fazer algo melhor, já que o mal trabalha com vasto poder e êxito perpétuo em vão, preparando sempre apenas o solo para que brote um bem inesperado, e o Criador-Autor refará o mundo como uma terceira coisa, maior e no entanto a mesma, à maneira do mestre na arte de contar histórias que mantém oculto o momento maior até que chegue a seu tempo, momento que pode ser em certa medida adivinhado por quem escutou de coração e mente plenos, como o próprio narrador deseja, sem que a surpresa e o encanto de sua arte diminuam, pois assim se participa, de certo modo, de sua autoria.

36. Sem saber o que Ilúvatar reserva para a recriação da terra e a reparação da maldade de Melkor, Finrod sabe que deve confiar inteiramente nele, e a confiança torna-se a essência da relação entre os filhos de Ilúvatar e seu criador, fonte de onde fluem todas as bênçãos.

37. Andreth expõe uma possibilidade radical, na qual se recusa a crer, mas que ouviu de outros homens, a de que o Único entrará ele mesmo em Arda, o que lhe parece impossível por ser o criador grande demais para entrar na própria criação sem despedaçá-la, ao que Finrod, numa versão mitológica da teologia da encarnação, especula que, mesmo que Ele entrasse em pessoa, teria de permanecer também como é, o Autor de fora, de modo que os muito sábios compreendem que Ilúvatar pode continuar sendo Ilúvatar enquanto entra no tempo e no espaço de sua própria criação.

38. Embora Tolkien temesse que muitos leitores vissem nesse capítulo uma paródia do cristianismo, não se trata de paródia nem de paralelo, mas da extensão, ainda que apresentada como visão, esperança ou profecia, da teologia de Arda à crença especificamente e centralmente cristã, texto que deve ser considerado a explicação central da teologia do mundo mitológico e no qual Deus permite a queda para manifestar ainda mais sua soberania sobre Satanás, anunciando a encarnação de Cristo, a difusão de sua luz de pessoa a pessoa e a consumação final no retorno de Cristo.

39. No fim da Terra Era vê-se com maior clareza o papel da graça na salvação, pois toda a história de O Senhor dos Anéis reflete a graça de Deus, sempre presente e nunca nomeado, como quando Gandalf explica que algo além do desígnio do fabricante do Anel estava em ação e que Bilbo estava destinado a encontrá-lo, e Frodo a possuí-lo, como quando se afirma que o chamado acaso é a vontade que aceita a direção de Ilúvatar e como quando Elrond declara que os participantes do conselho, reunidos aparentemente por acaso no momento exato, foram na verdade ordenados para deliberar sobre o perigo do mundo, permanecendo Deus, além desses indícios, fora de cena, contido na própria trama da história.

40. Entre as muitas manifestações da graça, a mais importante e reveladora gira em torno da relação entre Gollum e Frodo, iniciada no debate sobre matar o hobbit corrompido, quando Frodo afirma sem hesitar que ele merece a morte e Gandalf, um dos sábios, responde que muitos que vivem merecem a morte e alguns que morrem merecem a vida, que ninguém pode dar-lhes a vida e que por isso não se deve ser ávido em distribuir a morte em julgamento, pois nem os muito sábios podem ver todos os fins.

41. Frodo, o servo sofredor, ao carregar o Anel maligno rumo à destruição na Montanha da Perdição, aprende aos poucos como ele corrompeu e remodelou Gollum, sente piedade e misericórdia pela pobre criatura, percebe quão abençoado foi Bilbo por livrar-se do Anel ileso, sem se tornar um Gollum, e, espantosamente, não é corrompido pelo Anel, que não o torna mau, amargo ou mentiroso, mas aprende a misericórdia apesar de sua presença dolorosa.

42. Os atos de misericórdia e piedade de Frodo quase redimem o aparentemente irredimível Gollum, numa das passagens mais comoventes da obra, em que uma estranha expressão atravessa seu rosto magro e faminto, o brilho dos olhos se apaga em cinza velho e cansado, um espasmo de dor parece retorcê-lo num debate interior e ele estende lentamente a mão trêmula para tocar o joelho de Frodo, num toque quase carícia, de modo que, por um instante, quem o visse contemplaria um velho hobbit exausto, encolhido pelos anos que o levaram muito além de seu tempo, dos amigos, da família e dos campos e riachos da juventude, uma criatura velha, faminta e digna de pena.

43. Nesse momento, porém, Sam desperta e, desconfiando dos motivos de Gollum, repreende-o duramente, e Gollum volta a rastejar para seu abismo, pronto enfim a trair os dois hobbits entregando-os a Laracna.

44. É justamente por Frodo ter aprendido a sabedoria da misericórdia que o Anel acaba destruído, pois, quando ele fracassa no alto da Montanha da Perdição, dominado pelo desejo de empunhar o Anel e proclamar-se Senhor da Terra-média, a graça irrompe na forma do hobbit corrompido Gollum, que lhe arranca o dedo a dentadas, dança exultante à beira do precipício e cai para a morte, destruindo o Anel para sempre.

45. Embora vencido no fim pelo desejo e pela cobiça, Frodo realizou uma tarefa muito maior, a de viver o conselho de Gandalf e praticar atos de misericórdia semelhantes aos de Cristo para com Gollum, sem os quais seu fracasso teria sido infinitamente maior, pois ninguém estaria na Montanha da Perdição para concluir a destruição do Anel, e ele talvez se proclamasse Senhor da Terra-média, sucumbindo à tentação do Éden de ser como deuses, para ser depois subjugado por Sauron, pequeno demais para empunhar o Anel com eficácia, de modo que Ilúvatar demonstra sua soberania e seu amor pelo improvável Gollum e ensina que não se devem violar as leis de Deus, por menos sentido que pareçam fazer, mas confiar em seu plano.

46. O maior fracasso de Frodo veio depois de reivindicar o Anel como seu, quando, já tendo desesperado nas Escadas de Cirith Ungol com a ideia de que tudo estava perdido e de que, mesmo cumprida a missão, ninguém jamais saberia, espanta-se ao continuar vivo após a destruição do Anel, julgando que um verdadeiro herói deveria ter se sacrificado e buscando assim a própria glória, sem perceber que a tarefa dada por Deus terminara e que ele devia viver, pois a economia divina se limita ao suficiente para cumprir a tarefa designada a um instrumento num padrão de circunstâncias e outros instrumentos, e reivindicar mais seria arrogar-se o direito exclusivo de Jesus Cristo como salvador da humanidade, já que a misericórdia em seu exercício mais alto pertence a Deus, e certamente não aos homens nem aos hobbits.

47. Nenhuma personagem ou lugar de O Senhor dos Anéis corresponde diretamente a lugares, acontecimentos e pessoas da história cristã, o que faria do mito uma alegoria formal, mas o mito é consoante com o pensamento e a fé cristãos e repleto de forte simbolismo cristão, sobretudo de sabor católico, ligado à oração, à Eucaristia e à Virgem Maria, devendo o legendário ser aceito, dito sem rodeios, por uma mente que crê na Santíssima Trindade.

48. Um dos símbolos cristãos mais importantes da mitologia são as invocações, súplicas e orações a poderes superiores, como no momento de silêncio em que Faramir, antes do jantar, volta-se para o Oeste e, interrogado por Frodo, explica debilmente tratar-se do costume de lembrar Númenor perdida e as terras além, cumprindo o gesto sem compreender sua essência, numa piedade sem substância.

49. Do mesmo modo, Frodo e Sam invocam o nome de Elbereth quase sem querer ou ao menos inconscientemente, Frodo no ataque dos Espectros do Anel no Topo do Vento e na perseguição até o vau de Valfenda, quando Aragorn observa que o nome de Elbereth foi mais mortal ao inimigo do que a lâmina, e Sam ao cravar Ferroada em Laracna, clamando a Elbereth como um católico romano ou ortodoxo invoca um santo, numa oração que lhe dá a força necessária para vencer a cria de Ungoliant.

50. Nem Frodo nem Sam pediram deliberadamente a intercessão de poderes superiores, pois Frodo invoca Elbereth inconscientemente e Sam fala numa língua que desconhece, de modo que a graça os moveu a invocar a graça e servos de Ilúvatar ajudaram outros servos de Ilúvatar, o único soberano, ao qual, no tempo pré-encarnacional da narrativa, só se chegava falando aos Valar e por meio deles, seus delegados em Arda, já que a Queda do Homem está no passado e fora de cena, a Redenção num futuro distante, e o Deus único é conhecido pelos sábios, mas inacessível senão pelos Valar, numa teologia monoteísta natural de caráter mítico, e não numa nova religião ou visão.

51. Esse mito, no entanto, está profundamente enraizado na teologia cristã, como mostra um dos momentos mais dramáticos de A Sociedade do Anel, quando Gandalf, diante do Balrog, demônio encarnado e antigo inimigo, nomeia a fonte de seu poder ao declarar-se servo do Fogo Secreto e portador da chama de Anor e impede a passagem do inimigo, caindo para a morte num sacrifício que o enreda e destrói seu contraponto maligno, sendo o Fogo Secreto, mestre de Gandalf, o Espírito Santo.

52. Ao ver o roteiro de uma possível adaptação cinematográfica, Tolkien horrorizou-se não só com simplificações excessivas e ideias contrárias ao espírito da obra, mas sobretudo com a transformação do lembas, o alimento dado por Galadriel à Sociedade, num concentrado alimentar, pois nenhuma análise química revelaria suas propriedades, dotadas de um significado muito maior, de tipo que se poderia hesitantemente chamar religioso, como indica o sentido de pão do caminho ou pão da vida, alimento que sustenta Frodo na subida da Montanha da Perdição com uma virtude sem a qual os hobbits teriam se deitado para morrer, que não satisfazia o desejo, mas ganhava potência quanto mais os viajantes dependiam só dele, alimentando a vontade e dando força para resistir e dominar nervos e membros além da medida mortal.

53. O lembas desempenha papel vital em todo O Senhor dos Anéis, sustentando Frodo e Sam na missão, protegendo e alimentando a vontade de Merry e Pippin cativos dos orcs e de Aragorn, Legolas e Gimli na perseguição aos inimigos demoníacos, enquanto o mal se recusa a prová-lo e os orcs que o encontram com Frodo tentam destruí-lo.

54. O lembas aparece também em O Silmarillion e na História da Terra-média, recebido pela primeira vez por um homem, Túrin Turambar, das mãos da Maia Melian, mãe de Lúthien, sem que pudesse haver honra maior, e curando rapidamente todas as feridas e doenças de sua companhia, embora os Elfos raramente o partilhassem com os homens, e os númenorianos fabricaram uma versão própria, jamais igual em qualidade e encanto, sendo significativo que Isildur levasse esse substituto humano a caminho da morte nos Campos de Lis.

55. As histórias do lembas refletem numerosas lendas medievais sobre o Santíssimo Sacramento, e o pão élfico constitui talvez o símbolo mais explícito do cristianismo em O Senhor dos Anéis, representação pré-cristã da Eucaristia, o maior dom de Deus, o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo, a única grande coisa a amar na terra, onde se encontram romance, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os amores terrenos, recebido sempre após a confissão, como todo católico devoto anterior ao Vaticano II, tido como o melhor e talvez único meio eficaz de impedir que Satanás domine o mundo, recomendado aos filhos diariamente por precisar ser contínuo e crescer pelo exercício, imperturbável até pelos gritos de crianças alheias e tão poderoso que só a alma mais corrupta perderia a fé depois de recebê-lo, sendo negá-lo chamar Nosso Senhor de impostor em sua própria face.

56. Rezando diante do Santíssimo Sacramento, Tolkien teve certa vez uma visão sagrada em que percebeu a Luz de Deus e nela suspensa uma pequena partícula, ou milhões delas, das quais apenas uma era o alvo de sua pequena mente, cintilando branca pelo raio individual da Luz que a sustentava, e viu também seu anjo da guarda, não como intermediário, mas como personalização da própria atenção de Deus.

57. Em importância, apenas abaixo do Santíssimo Sacramento estava a Theotokos, Maria, Mãe de Deus, modelo de beleza na majestade e na simplicidade, dada por Deus como digna de devoção para refinar as grosseiras naturezas e emoções masculinas e aquecer e colorir a religião dura e amarga, beleza necessariamente impecável e assombrosa por ter sido tabernáculo humano da Nova Aliança, o Cristo, e fonte de tudo o que de belo foi criado a partir das limitadas noções sobre ela, sendo também, como única humana não decaída, o exemplo do que a morte deveria ter sido antes da queda de Adão e Eva, pois a assunção seria o fim natural de toda vida humana, embora até onde se saiba só tenha sido o fim do único membro não decaído da humanidade.

58. A perda da própria mãe talvez tenha aumentado a devoção a Maria, de quem Tolkien falava com frequência, chegando a debater a doutrina da Imaculada Conceição com Warnie Lewis, e várias figuras marianas, sem serem representações de Maria, partilham traços com ela, sobretudo Galadriel, rainha élfica de Lórien, reino atemporal criado e sustentado pelo anel Nenya, que resistiu a Sauron durante grande parte da Segunda e da Terceira Eras e criou o Conselho Branco para derrubar as trevas, personagem que, embora deva arrepender-se de seus crimes contra os Valar na Primeira Era, deve muito ao ensino e à imaginação cristãos e católicos sobre Maria, cuja omissão revelaria em qualquer pensamento cristão uma falha em aceitar plenamente todas as consequências da Encarnação narrada nas Escrituras.

59. Elbereth é outra figura mariana do legendário, esposa angélica de Manwë e criadora da luz e das estrelas, Rainha do Céu como Maria na teologia católica, invocada em oração e venerada pelos Elfos acima de todos os Valar, atenta às preces deles e também às dos hobbits, como a de Sam contra Laracna, responsável com Manwë pelo envio de Gandalf à Terra-média contra Sauron e formadora da constelação de Menelmacar como sinal da aproximação da Última Batalha, com traços que lembram a mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e coroa de doze estrelas, descrita no capítulo 12 do Apocalipse de São João.

60. Em 1969, à pergunta de uma menina sobre o propósito da vida, a resposta foi naturalmente teológica: primeiro, estudar a ordem criada, o universo, que não é Deus, mas cujo estudo honra o criador, e, segundo e mais importante, encontrar a resposta real e final no Gloria in Excelsis, que louva, santifica, adora e glorifica a Deus e lhe dá graças pela grandeza de seu esplendor.

61. Como verdadeiro subcriador, Tolkien desejava glorificar a obra de Deus, vendo O Senhor dos Anéis não só como forma de louvá-lo, mas como contribuição para redimir o mundo, e encarava sua possível influência com grande esperança, sentindo, em 1971, como se um céu cada vez mais escuro sobre o mundo presente tivesse sido subitamente rasgado, as nuvens recuado e uma luz do sol quase esquecida se derramado de novo.

62. Ainda assim, como Frodo na jornada à Montanha da Perdição, Tolkien sabia ser mero instrumento da vontade de Deus, e não herói por si mesmo, e que todo bem que fazia provinha em última instância da graça divina, imerecida, como reconheceu ao pedir desculpas a Lewis por comentários indelicados sobre seu livro de literatura do século XVI, afirmando que o único crítico literário justo é Cristo, que admira mais do que qualquer homem os dons que Ele próprio concedeu.