6 Terra-Média

BIRZER, Bradley J. J. R. R. Tolkien’s Sanctifying Myth: Understanding Middle Earth. New York: Regnery Publishing, 2023.

A Terra-média e a Modernidade

1. Desde a publicação de O Senhor dos Anéis em meados dos anos 1950, as histórias da Terra-média vêm sendo descartadas como escapistas, obra de alguém que viveria num mundo de sonho, como sustenta Andrew Rissik no Guardian ao julgar perverso atribuir grandeza, depois dos traumas aniquiladores do último século, a uma terra do nunca etérea, estranhamente simplificada e pseudoteutônica, onde raças e espécies se misturam à vontade e grandes batalhas são travadas sem nenhum tratamento convincente das preocupações humanas fundamentais pelas quais as sociedades se definem, religião, filosofia, política e relações sexuais, enquanto Roz Kaveney acusa os admiradores de usarem os livros como porretes num ataque frontal ao modernismo e até ao realismo, e Germaine Greer afirma que a obra ignora as grandes lutas do século XX, como a política, a guerra, o movimento negro e a revolução sexual.

2. Tolkien não abraçou o século XX, mas tampouco fugiu dele, obrigando antes os leitores a encarar seu mundo de outra perspectiva, informada pelo poder do mito, do símbolo e de exemplos de verdadeiro heroísmo, num mundo moderno e industrializado que pouco uso tinha para o antigo modo de ver e conhecer representado por sua mitologia ou para a organização social e política descentralizada em que acreditava, num século caracterizado pela tirania, odiada apaixonadamente viesse da esquerda ou da direita, e, quanto à acusação de escapismo, os que mais odeiam a fuga são os carcereiros.

3. O homem nada é senão um subcriador feito à imagem do verdadeiro Criador, e Deus coloca cada indivíduo, criado de modo único, num certo tempo e lugar, com certos dons e por certa razão, ao passo que a modernidade se empenha em negar Deus como autor do homem e do mundo, e, ao negar Deus, o homem nega seu verdadeiro eu, razão pela qual a pergunta de um jornalista sobre o que fazia Tolkien funcionar recebeu a resposta de que ele não funcionava como relógio por não ser máquina e de que, se funcionasse, seria melhor perguntar a quem lhe dava corda, reação nada leviana contra a tendência moderna de mecanizar o homem e contra a mecanização em geral, expressão do ataque da modernidade à natureza e de sua tentativa de dominar e subjugar todos os aspectos do mundo dado, havendo uma tragédia e um desespero de toda maquinaria exposta, pois a condição decaída faz os engenhos humanos não só falharem em seu desejo, mas converterem-se em novos e horríveis males, como os aparelhos de Mordor e os aviões de caça chamados pássaros-Nazgûl, e a bomba atômica lançada sobre Hiroshima, recebida com horror diante da loucura de físicos lunáticos que consentiram em planejar calmamente a destruição do mundo para fins de guerra, obra de aliados de Mordor dispostos a usar o Anel para seus próprios e naturalmente excelentes propósitos.

4. Além das máquinas de guerra, também as máquinas cada vez mais associadas à vida cotidiana do século XX foram alvo de queixas frequentes, a ponto de Tolkien recusar-se a ter carro depois de ver o que os planejadores fizeram de Oxford para acomodar os automóveis, de proclamar que uma motocicleta que passava era um orc, de reagir com divertimento e receio a um gravador apresentado por George Sayer em 1952, propondo exorcizar o eventual demônio nele contido gravando o Pai-Nosso em gótico, e de julgar monstruosa a ideia de batizar de Scadufax o primeiro hidrofólio, já que o majestoso cavalo de Gandalf era dádiva dos Valar angélicos, e não abominação fabricada pelo homem, desdém que atravessa toda a obra da Terra-média, onde orcs, Sauron e o corrompido Saruman projetam e empregam máquinas, sinal suficiente de sua corrupção.

5. A árvore opõe-se à máquina e representa a era pré-moderna, bela e sábia, amada desde a infância por Tolkien, que mostrava aos visitantes as árvores que ele próprio plantara e transmitiu ao filho Michael um amor quase obsessivo pelas árvores e a convicção de que derrubá-las em massa é o assassinato gratuito de seres vivos para fins mesquinhos.

6. O maltrato das árvores é inaceitável e tão difícil de suportar quanto, para outros, os maus-tratos aos animais, como mostra a inspiração do conto sobre o purgatório “Folha de Cisco”, nascida de um grande choupo de galhos vastos visível da janela do quarto, amado e motivo de aflição, selvagemente mutilado anos antes, mas que bravamente fizera crescer novos galhos, ainda que sem a graça imaculada de antes, e que agora um vizinho tolo queria derrubar, pois toda árvore tem seu inimigo e poucas têm um advogado, sendo esse ódio muitas vezes irracional, medo de tudo o que é grande e vivo e não facilmente domado ou destruído, ainda que se vista de termos pseudorracionais.

7. Tolkien sempre tomou o partido das árvores em suas disputas com os humanos e lamentava que o som selvagem da serra elétrica jamais silenciasse onde ainda houvesse árvores crescendo.

8. As árvores aparecem como símbolos e personagens em toda a obra da Terra-média, a começar pelas Duas Árvores de Valinor, Telperion e Laurelin, criadas por dois dos Valar para dar a primeira luz à terra e cuja luz Fëanor captou nas Silmarils, mortalmente feridas por Morgoth e Ungoliant, repelidos por sua beleza, quando a Não-Luz de Ungoliant subiu até as raízes, Melkor golpeou cada Árvore até o âmago com sua lança negra, fazendo jorrar a seiva como sangue, e Ungoliant a sugou ferida por ferida até esgotá-las, infundindo-lhes a dor da Morte que a habitava e fazendo-as murchar da raiz às folhas até morrerem.

9. De modo platônico, os Valar criaram o Sol e a Lua, meros reflexos pálidos da verdadeira luz das Árvores, cujo retorno Ilúvatar talvez permita no fim de todas as coisas, embora esse fim não possa ser claramente previsto pelos mortais, e o novo florescimento da árvore branca em Gondor no fim da Terceira Era é reconhecido pelos habitantes da Terra-média como mais um sinal de que Aragorn é o verdadeiro rei.

10. Barbárvore, criatura gigante, senciente e semelhante a uma árvore, é a personificação suprema do antimodernismo, odiando orcs, machados e máquinas, falando com voz profunda de instrumento de sopro e com deliberação aos novos amigos Merry e Pippin, explicando que na língua entesa antiga os verdadeiros nomes contam a história das coisas a que pertencem, pastor de todas as árvores e cronista dos acontecimentos da Terra-média com os demais Ents, e convence-os a atacar o traidor Saruman em Isengard, alguém que trama tornar-se um Poder, tem mente de metal e rodas e só se importa com as coisas que crescem enquanto lhe servem, encontrando ali tesouros, armazéns, arsenais, forjas e grandes fornalhas, rodas de ferro girando sem fim, martelos batendo e penachos de vapor iluminados de vermelho, azul ou verde venenoso, num ataque furioso que Merry descreve como aterrador, com dedos que se agarram à rocha e a arrancam como casca de pão, como se o trabalho de grandes raízes ao longo de cem anos fosse comprimido em poucos instantes.

11. O pleno potencial diabólico da mecanização do homem e da natureza revelou-se nos crimes estatais do século XX, século detestado e difícil de admirar diante da morte e da brutalidade que o cobrem, pois, enquanto do início da história registrada até 1900 os governos mataram cerca de 133 milhões de seus próprios cidadãos, entre 1901 e 1987 mataram quase 170 milhões, com Stálin responsável por 41 milhões, Mao por 35 milhões e Hitler por 21 milhões, além de 38,5 milhões mortos em guerras patrocinadas pelo Estado, número que, somados os mortos na África, na antiga Iugoslávia e na China desde 1987, pode ultrapassar 200 milhões.

12. Esmagado pelo derramamento de sangue de sua era, Tolkien enfrentou em sua obra essa mistura mortal de guerra, industrialismo e nacionalismo, como numa das passagens mais assombrosas de O Senhor dos Anéis, em que, mais repugnante do que os Pântanos Mortos e as charnecas áridas da Terra de Ninguém, surge diante dos olhos de Frodo uma terra onde nem a primavera nem o verão voltarão, onde nada vive, nem mesmo as excrescências leprosas que se nutrem da podridão, com poças ofegantes sufocadas de cinza e lama rastejante, branca e cinzenta, como se as montanhas tivessem vomitado a imundície das entranhas, e altos montes de rocha triturada e grandes cones de terra queimada e envenenada erguendo-se como um cemitério obsceno em fileiras sem fim.

13. Só quem viu as trincheiras com os próprios olhos poderia ter escrito tal passagem, e a capacidade de transformar a realidade em símbolo permitiu descrever a guerra e seus resultados com eficácia e realismo penetrante, o que não faz de O Senhor dos Anéis uma simples alegoria dos acontecimentos do século XX, acusação comum dos críticos, pois a guerra real não se assemelha à lendária nem no processo nem na conclusão, e, se a tivesse inspirado, o Anel teria sido tomado e usado contra Sauron, que seria escravizado e não aniquilado, Barad-dûr seria ocupada e não destruída, e Saruman, sem conseguir o Anel, teria encontrado em Mordor os elos que faltavam em suas pesquisas e forjado seu próprio Grande Anel para desafiar o autoproclamado Senhor da Terra-média, conflito em que ambos os lados odiariam e desprezariam os hobbits, que não sobreviveriam muito nem mesmo como escravos.

14. Embora Hitler fosse especialmente detestado, os alemães do Terceiro Reich fascinavam Tolkien, inimigos cujas virtudes, verdadeiras virtudes, de obediência e patriotismo superavam as dos ingleses em conjunto, mas que, liderados por Hitler, viviam sob a maldição de Deus, unidos apenas pela perversão hitlerista do mito do norte europeu, alvo de um ressentimento ardente e pessoal contra aquele pequeno ignorante que arruinou, perverteu, aplicou mal e tornou para sempre amaldiçoado o nobre espírito nórdico, contribuição suprema à Europa, amado e apresentado em sua verdadeira luz, em parte alguma mais nobre nem mais cedo santificado e cristianizado do que na Inglaterra, e, ao contrário de muitos ingleses proeminentes, Tolkien desejava uma paz branda com o povo alemão, atribuindo a culpa da guerra a Hitler e a seus subordinados imediatos e considerando a destruição da Alemanha, ainda que cem vezes merecida, uma das mais terríveis catástrofes mundiais.

15. Alguns críticos e até amigos sustentaram que a obra da Terra-média pode ser lida como defesa de um fascismo benigno, moderado e de classe média, como Fred Inglis, para quem Tolkien não é fascista, mas seu grande mito, como o de Wagner, prefigura os genuínos ideais e nobrezas cuja negação sombria é o fascismo, com o pentâmetro em vez dos berros do Duce, cavalos, mantos e lanças em vez de tanques e passo de ganso e a despedida de Frodo em vez de Nuremberg, enquanto os fascistas italianos se apropriaram de Tolkien desde que uma editora de direita lançou O Senhor dos Anéis na Itália em 1970, adotando recentemente Bilbo como símbolo, e o jornalista Nick Farrell afirma que, sem ser fascista, Tolkien tinha uma visão de mundo semelhante à deles, exaltando a ordem, a hierarquia, o campo e o passado mítico e desprezando a industrialização e a modernização.

16. Essas leituras são simplistas demais, pois, como Lewis, Tolkien opunha-se fortemente a qualquer forma de tirania, e Lewis reconheceu no comunismo e no fascismo manifestações do afastamento moderno de Deus e da adesão ao primeiro pecado, o de ser como deuses, ideologias potentes, como todos os males, pelo bem que contêm ou imitam, ocasionadas pelo fracasso dos que deixaram a humanidade faminta desse bem, mas ainda assim muito más e cuja penetração no cristianismo deve ser evitada, sendo santos do mundo moderno aqueles que, apesar de suas imperfeições, jamais curvaram a cabeça e a vontade ao mundo ou ao espírito maligno, isto é, em termos modernos, ao mecanicismo, ao materialismo científico e ao socialismo em qualquer de suas facções então em guerra.

17. Como muitos católicos dos anos 1930 e 1940, Tolkien via no comunismo uma tirania mais perigosa que o fascismo, e, se odiava o fascismo, odiava ainda mais o comunismo, pois muitos dos chamados fascistas, como Franco na Espanha, protegiam a Igreja Católica, ao passo que os comunistas sempre atacaram toda forma de teísmo, substituindo as crenças cristãs pela própria ideologia com a maior rapidez e violência possíveis, razão do encanto pelo poeta convertido Roy Campbell, toureiro e aliado de Franco, que em outubro de 1944 relatou a Tolkien e Lewis as atrocidades de comunistas e socialistas contra católicos na Espanha e foi visto como um Passolargo moderno, percorrendo o mundo e lutando contra os poderes estabelecidos em defesa da glória de Deus, embora Lewis, abalado pela conversa, permanecesse menos convencido da pureza de seus motivos.

18. O comunismo era temido também pelo mal que poderia fazer após a guerra, diante da pergunta sobre o crisântemo vermelho no Oriente e sobre se as pessoas comuns ainda teriam liberdade ou teriam de lutar por ela, ou estariam cansadas demais para resistir, e pela perda de qualquer parte do Ocidente para os soviéticos, potência estrangeira e oriental totalmente alheia ao Ocidente, sendo a conferência de Teerã de novembro de 1943, em que os Três Grandes comprometeram seus princípios para definir o pós-guerra, uma pantomima nauseante em que o velho assassino sanguinário Stálin convidava todas as nações a juntar-se a uma família feliz devotada à abolição da tirania e da intolerância, e o pior cenário imaginável seria um mundo dividido entre soviéticos brutais e totalitários e americanos comercialmente agressivos, convertido numa única entidade homogênea e cosmopolita da qual a Inglaterra seria mero subúrbio, merecendo todos a maldição de Babel até só saberem balir, a ponto de preferir falar apenas o antigo mércio, em eco de Christopher Dawson, para quem se aproximava o tempo em que as cidades se tornariam uma só, uma Babilônia que marca a mente de cada homem e mulher e impõe o mesmo padrão de comportamento a toda atividade humana.

19. Os católicos tinham aversão especial ao comunismo por dois acontecimentos importantes do fim do século XIX e início do XX, o primeiro dos quais foi a visão de Leão XIII em 1884, na qual viu demônios percorrendo a terra do século XX e devastando grande parte dela, levando-o a compor a Oração a São Miguel, que pede a Deus que lance o Arcanjo contra os demônios e o diabo, e a instituí-la como oração final de todas as missas, de modo que muitos católicos devotos do século XX viam o comunismo como irrupção satânica no mundo, não sendo coincidência o papel proeminente de Manwë, figura de São Miguel, nos assuntos da Terra-média.

20. O segundo acontecimento foram as aparições da Virgem Maria a três crianças em Fátima, Portugal, em 1917, com profecias secretas sobre o curso do século XX, entre elas a de que o comunismo se tornaria o maior inimigo mundano da Igreja, aviso confirmado pela Revolução Bolchevique poucos meses depois, aparição logo aprovada pela Igreja e decisiva para a convicção de que o comunismo era o principal inimigo do homem, levando os católicos devotos a rezar o rosário ao longo de todo o século pela queda do comunismo e pela conversão dos russos ao cristianismo, uma das grandes histórias não contadas da piedade católica do século XX.

21. Nos anos 1980, a obra de Tolkien serviu de manual a movimentos clandestinos pacíficos, cristãos e anticomunistas na Europa Oriental e na Rússia, como relata o ex-dissidente tcheco Michal Semin, para quem Mordor era entendida como o império do mal soviético, também situado no leste, os anéis representavam a sedução diabólica de pôr tudo em mãos meramente humanas, sem referência ao fim transcendente do homem, na trilha do non serviam original, os hobbits, criaturas simples, sem poderes especiais e um tanto mundanas, lembravam que cidadãos tchecos comuns podiam enfrentar o totalitarismo sem tanques nem artilharia, e o livro inteiro, antiutópico, ensinava que não se deve esperar paraíso algum na terra.

22. A União Soviética proibiu os livros de Tolkien, compreendendo que Moscou e Mordor eram semelhantes na essência, senão na forma, e temendo que os orcs representassem o proletariado, mas, antes de 1991, traduções precárias e fotocopiadas circulavam por todo o submundo russo.

23. O mal nem sempre vem sob a forma de guerra ou terror totalitário, e o capitalismo impessoal e mecanizado do século XX, com sua serva, a burocracia democrática do mundo ocidental, constitui uma tirania branda quase tão opressiva quanto o fascismo e o comunismo, temida, como em A Abolição do Homem e Aquela Fortaleza Medonha de Lewis, pelos condicionadores democráticos e pelos homens sem peito que planejam por planejar, drenando a vida de sua vasta riqueza e de suas maravilhas, e cujos burocratas visam especialmente as línguas, tempero da vida real, cujo uso na Inglaterra moderna ficou desastrosamente confuso pela interferência maléfica do governo em busca de seu objetivo habitual, a uniformidade.

24. Em Aquela Fortaleza Medonha, quando Merlin, despertado após quinze séculos, pergunta onde encontrar aliados contra o mal que ameaça o que resta da cristandade, Ransom responde que o veneno foi fabricado nas terras do Oeste, mas já se espalhou por toda parte, e que, por mais longe que se vá, encontram-se as máquinas, as cidades apinhadas, os tronos vazios, os escritos falsos, os livros estéreis, homens enlouquecidos por falsas promessas e azedados por misérias verdadeiras, adorando as obras de ferro das próprias mãos, apartados da Terra, sua mãe, e do Pai do Céu, de modo que, mesmo indo tão longe ao leste que o leste se tornasse oeste, não se sairia para a luz, pois a sombra de uma asa escura cobre tudo.

25. A democracia, palavra recém-chegada à moda na Inglaterra durante a guerra, não passa de farsa, nome sofisticado do governo da turba na Grécia antiga, cujas cidades-Estado dignas de lembrança o são justamente por sua capacidade centralizada de mobilizar-se e atacar outra potência, e termina naturalmente na escravidão, pois a humildade e a igualdade são princípios espirituais corrompidos pela tentativa de mecanizá-los e formalizá-los, resultando não em pequenez e humildade universais, mas em grandeza e orgulho universais, até que algum orc se apodere de um anel de poder e sobrevenha a escravidão, em eco de críticos da democracia de Platão em A República a Tocqueville em A Democracia na América.

26. Tolkien jamais se declarou membro de partido político inglês, embora pareça ter favorecido muito mais os conservadores do que os trabalhistas, e reconheceu que os ensinamentos do padre Morgan atravessaram a escuridão liberal de onde viera, revelando em outros momentos suas posições com vigor, ao inclinar-se cada vez mais à Anarquia, entendida filosoficamente como abolição do controle, e não como homens barbudos com bombas, ou à Monarquia inconstitucional, e ao propor com humor prender quem usasse a palavra Estado em qualquer sentido que não o do reino inanimado da Inglaterra e seus habitantes, coisa sem poder, direitos nem mente, e executá-lo se, após a chance de retratação, persistisse obstinado.

27. Odiando as máquinas e o socialismo de qualquer matiz, comunista, fascista ou democrático, o verdadeiro afeto prendia-se à sociedade rural e agrária, pois o sentimento de lar devia ser outro quando uma família se alimentava por seis gerações dos produtos das mesmas poucas milhas de terra, talvez a razão de verem ninfas nas fontes e dríades no bosque, sem engano, já que havia uma ligação real, e não metafórica, entre eles e o campo, tendo o que fora terra, ar, trigo e pão passado a estar realmente neles, ao passo que os modernos são homens sintéticos, desenraizados, a quem a força das colinas não pertence, como mostra o diário de 1933, que registra a dor de atravessar Hall Green, transformado num enorme subúrbio sem sentido cheio de bondes onde era fácil perder-se, de passar pelo portão do antigo chalé em meio a um mar de tijolos vermelhos novos, de ver o cruzamento junto ao lago agora cercado, onde a terra dos jacintos descia até a trilha do moinho, convertido em travessia perigosa de motores e sinais vermelhos, a casa do Ogro Branco transformada em posto de gasolina e os olmos desaparecidos, invejando quem não viu os cenários preciosos da infância expostos a mudanças tão violentas e singularmente hediondas.

28. Diante de paisagens danificadas pela industrialização, o humor mudava drasticamente e vinham à fala os orcs e suas devastações, pois os temíveis orcs, que lembram o exército chinês, os nazistas e as estradas e ruas modernas, são o aspecto da humanidade quando a deferência é substituída pelo poder e a civilização pela eficiência, como observou com perspicácia Guy Davenport no obituário de Tolkien.

29. As ideias agrárias e distributistas de Hilaire Belloc e G. K. Chesterton influenciaram fortemente Tolkien, ideias segundo as quais, como para os agrários jeffersonianos, a propriedade privada deve ser dividida da forma mais equânime possível e repartida entre muitos, e não concentrada em poucos, apresentando-se como via intermediária entre o socialismo centralizado no Estado e o capitalismo desenfreado, tendente à concentração e ao monopólio, já que, segundo O Estado Servil, de 1912, a sociedade moderna livre em que os meios de produção pertencem a poucos encontra-se em equilíbrio instável e tende a estabilizar-se pela imposição legal do trabalho compulsório aos que não possuem os meios de produção em proveito dos que os possuem.

30. Sem possuir terra, os indivíduos tendem a tornar-se sofisticados urbanizados, destruindo a continuidade entre gerações que depende do enraizamento comunitário, e veem drasticamente diminuída sua autonomia econômica, razão pela qual os distributistas desejavam uma nação de classe média formada por pequenos lavradores e lojistas independentes e autônomos, capaz de promover, e não de retardar, a descoberta e o desenvolvimento dos dons únicos dados por Deus a cada um, visão nada inédita, já sustentada por filósofos políticos republicanos clássicos de Cícero a James Harrington e Thomas Jefferson, para quem propriedades agrárias descentralizadas promovem melhor uma cidadania virtuosa.

31. Com a perda da terra, da independência e da fé, os homens e mulheres modernos desenraizados se voltariam para novos símbolos e mitos em que se enraizar, como uma nova religião que não é exatamente o culto do Estado, mas o culto do corpo coletivo, antes chamado Inglaterra e agora Império, do qual o indivíduo é membro, entidade sacrossanta e autojustificada para ingleses secularizados, tendência desafiada durante a Segunda Guerra Mundial pela proclamação de amor à Inglaterra, e não à Grã-Bretanha e certamente não à Comunidade Britânica.

32. Os distributistas e outros que, como Tolkien, desconfiavam do Estado moderno, centralizado e secular viam suas posições ecoadas na doutrina social da Igreja Católica, sobretudo nas encíclicas de Leão XIII Aeterni Patris, de 1879, sobre a restauração da filosofia cristã, e Rerum Novarum, de 1891, sobre a condição dos operários, poderosos projetos para o desenvolvimento de uma filosofia social verdadeiramente católica.

33. O Condado é a concepção da república agrária ideal, sociedade pré-moderna cujos hobbits parecem inocentes e infantis porque o são, vivendo numa era anterior ao cinismo, levando a boa vida como lavradores, lojistas e artesãos, comendo, bebendo, fumando, discutindo, mexericando, acumulando presentes demais, os mathoms, cultivando jardins e amando, povo discreto mas muito antigo, outrora mais numeroso, que ama a paz, o sossego e a boa terra lavrada, tendo como lugar favorito um campo bem ordenado e bem cultivado, e que não entende nem aprecia máquinas mais complicadas do que um fole de forja, um moinho d'água ou um tear manual, embora hábil com ferramentas.

34. O Condado foi modelado sobre a Inglaterra pré-industrial da juventude de Tolkien e baseia-se na Inglaterra rural, e não em outro país, sendo sua toponímia uma paródia da toponímia rural inglesa, no mesmo sentido em que o são seus habitantes, e politicamente quase anárquico, meio república e meio aristocracia, sociedade jeffersoniana isolacionista regida por elites naturais, na qual grande parte da reputação vem da família e do parentesco, como Bilbo, em parte Tûk, uma das famílias mais audaciosas, motivo quase exclusivo do interesse de Gandalf por ele antes da aventura de O Hobbit, cabendo ao chefe de cada grupo familiar o papel de chefe tribal, sem que nenhum hobbit ou grupo decretasse leis novas, já que obedeciam voluntariamente às leis de um rei ausente havia mil anos, as Regras, antigas e justas, servindo o chefe dos Tûks, nas raras emergências, como presidente do Moot do Condado, espécie de parlamento, e líder da milícia local, com doze condestáveis identificados por uma pena no chapéu, ocupados sobretudo em recolher animais extraviados, e um grupo que patrulhava as fronteiras para impedir que forasteiros de qualquer tamanho causassem incômodo.

35. As famílias do Condado geralmente se protegiam a si mesmas, como os Brandebuque, família poderosa e de espírito independente estabelecida na borda do Condado numa espécie de colônia hobbit chamada Terra dos Buques, cujo chefe, o Senhor da Sede, exercia poder considerável sobre os parentes e cujos membros ergueram ao longo de gerações uma sebe de vinte milhas, a Cerca Alta, e, quando três Espectros do Anel surgiram na Terra dos Buques em busca de Frodo e do Anel, tradições longamente mantidas e raramente necessárias mostraram-se eficazes, pois as trompas soaram rasgando a noite como fogo no alto de uma colina, chamando a despertar diante do medo, do fogo e dos inimigos, e os Brandebuque pegaram em armas e afastaram o mal, ao menos por algum tempo.

36. Num dos capítulos politicamente mais interessantes de O Senhor dos Anéis, “O Expurgo do Condado”, Frodo, Sam, Merry e Pippin voltam e encontram o Condado transformado num Estado industrial fascista governado pelo Chefe, que ergueu fábricas fumegantes, construiu casas feias no lugar das tocas, arrancou fileiras de árvores, jardins e lares, desalojou hobbits, criou novas regras que taxam e regulam o uso e o consumo de alimentos e materiais e, como ditador puritano, proibiu a cerveja, escravizando os hobbits sob a vigilância de bandos de homens e, o mais perturbador, com a colaboração de alguns hobbits, situação que Sam julga pior do que Mordor por atingir o próprio lar, lembrado como era antes da ruína.

37. Os hobbits vencem o Chefe e seus homens, pois, sob a liderança de Sam, Merry e Pippin, dão o tradicional alarme de perigo e, muito rapidamente e com derramamento de sangue limitado graças à influência de Frodo, agora pacifista, retomam o governo do Condado, expulsando os homens e seu líder, Sharkey.

38. A parte mais difícil, como em toda guerra, é a limpeza, e os hobbits, agindo como comunidade coesa e harmoniosa, libertam os prisioneiros políticos, muitos quase mortos de fome, derrubam todas as fábricas e reconstroem os jardins, enquanto Sam replanta árvores por todo o Condado, pondo um grão do misterioso presente de Galadriel junto a cada muda, e na primavera seguinte o Condado volta ao normal, abençoado pelo esforço de Sam e pela dádiva de Galadriel, vivendo em 1420 uma primavera e um verão nunca vistos, com um ar de riqueza e crescimento e um brilho de beleza além dos verões mortais que cintilam e passam na Terra-média, crianças nascidas ou geradas naquele ano numerosas, belas e fortes, muitas de rico cabelo dourado antes raro entre os hobbits, frutas tão abundantes que os jovens quase se banhavam em morangos com creme e, sob as ameixeiras, comiam até formar montes de caroços como pequenas pirâmides ou crânios empilhados de um conquistador, ninguém doente e todos contentes, exceto os que tinham de cortar a grama.

39. Embora o Condado sugira tal leitura, Tolkien não era republicano estrito no sentido clássico, conservando, como muitos católicos de sua época, afeto pela monarquia durante toda a vida, e o Condado foi regido, ainda que de modo indireto ou imaginado, por um monarca durante quase mil anos antes da coroação de Aragorn, pouco importando que o rei não existisse, já que os habitantes agiam como se existisse, reflexo fiel da imagem do bom rei ainda poderosa na imaginação católica da época, para a qual, depois das calamidades da Reforma, da Guerra Civil Inglesa e das revoluções Gloriosa, Francesa, Industrial e Russa, o rei se tornou o líder exilado dos fiéis cujo retorno traria de volta os velhos costumes e poria fim à mudança e à inquietação, sendo Aragorn o rei ideal, nobre, cavalheiresco, poderoso e curador.

40. A opinião sobre a atualidade não era tão sombria quanto a de outros, mas havia o receio de que os gregos tivessem razão ao dizer que os deuses enlouquecem primeiro aqueles que querem destruir, pois o mundo moderno é como a torre de Babel, ruído selvagem e confusão, embora um pouco de história cure, já que viver no fim do século XVI teria sido igualmente ruim, só que com menos gente, e as máquinas destruíram coisas boas, belas e mais nutritivas para a pessoa humana, mas não se escolhe o próprio tempo ou lugar, apenas o que se faz com o tempo dado, e, olhando para leste, oeste, norte e sul, não se vê Sauron, mas veem-se muitos descendentes de Saruman, contra os quais os hobbits não têm armas mágicas, cabendo ainda assim o brinde aos hobbits, para que sobrevivam aos Sarumans e vejam de novo a primavera nas árvores, e a recusa desafiadora, dirigida a Lewis, de caminhar com os macacos progressistas, eretos e sapientes, diante dos quais se abre o abismo escuro a que tende seu progresso, se pela misericórdia de Deus o progresso um dia terminar e não girar incessantemente no mesmo curso estéril apenas mudando de nome.