FLIEGER, Verlyn. Splintered Light: Logos and Language in Tolkien's World. Grand Rapids: Eerdmans, 1983. (Edição revista e ampliada: Kent: Kent State University Press, 2002).
Nós mesmos como os outros nos veem
1. Os deuses recebem da natureza suas cores e sua beleza por intermédio da percepção humana, que também lhes confere personalidade e transmite, a partir do mundo invisível e sobrenatural, a presença de divindade que neles se manifesta.
2. A introdução da escuridão na linguagem ocorre quando os Elfos que permanecem na Terra-média passam a ser chamados Moriquendi, Elfos da Escuridão, designação que exprime tanto sua relação com a luz quanto as percepções e atitudes daqueles que os nomeiam.
3. As denominações primitivas de Povo da Luz e Povo da Escuridão surgem durante o debate sobre o convite dos Valar, distinguindo os que desejam a claridade de Valinor daqueles que não querem abandonar a noite, mas a segunda expressão já incorpora desprezo ao sugerir uma tolerância às sombras de Melkor sobre a Terra-média.
4. A adição de mor, escuridão, ao elemento associado aos falantes inverte a ligação originária entre linguagem e luz, enquanto a Separação adquire identidade histórica própria e os nomes passam a condensar distinções entre fenômenos, percepções e povos, permitindo compreender Calaquendi e Moriquendi como falantes da luz e falantes da escuridão.
5. A divisão da percepção inicialmente unitária em polos opostos aproxima a linguagem da metáfora, pois a diferença luminosa também exprime graus de esclarecimento e obscurecimento espiritual, enquanto Moriquendi revela um julgamento externo dos Calaquendi sobre outros Elfos e transforma divergências de inclinação e visão em identidades coletivas.
6. A expressão ver a luz conserva no mundo de Tolkien uma realidade física e histórica, mas simultaneamente caracteriza a orientação interior e a cultura dos povos, de modo que a recusa atribuída aos Moriquendi passa a definir sua identidade e sua linguagem a partir da perspectiva dos Calaquendi.
7. A distinção entre Elfos da Luz e Elfos da Escuridão retoma elementos da mitologia nórdica, mas recebe uma fundamentação própria mediante acontecimentos, diferenças perceptivas e línguas relacionadas, cuja coerência transforma uma classificação herdada em realidade convincente dentro do Mundo Secundário.
8. A migração para o oeste amplia a fragmentação dos povos e das línguas de maneira irregular, introduzindo numerosas gradações entre luz e escuridão por meio de hesitações, interrupções e mudanças graduais ou repentinas, sem reduzir a história a uma divisão binária estável.
9. As primeiras subdivisões entre os que atendem ao chamado decorrem dos diferentes graus de prontidão para buscar a luz e consolidam-se progressivamente em povos distintos, os Vanyar, os Noldor e os Teleri, cada qual conduzido por um dos embaixadores que haviam contemplado Valinor.
10. Os Vanyar, liderados por Ingwë e distinguidos pelos cabelos dourados, recebem uma denominação provavelmente atribuída pelos Noldor que os aproxima da luminosidade e da disposição imediata para procurá-la, permanecendo depois junto à luz de Valinor e participando pouco dos conflitos que impulsionam a história dos demais Elfos.
11. Os Noldor, conduzidos por Finwë, são caracterizados pela profundidade do conhecimento e pelo domínio de saberes e artes, mas essa sabedoria não equivale necessariamente à prudência ou ao discernimento, distinção decisiva porque suas capacidades e limitações contribuirão diretamente para a fragmentação da luz.
12. Os Teleri, cujo nome exprime a condição dos últimos a partir, permanecem divididos entre a penumbra conhecida e a claridade de Valinor, e parte deles, incluindo Elwë, abandona o percurso e recebe a denominação Úmanyar, definida pela ausência de pertencimento a Aman.
13. Aman reúne os sentidos de bondade, bem-aventurança e integridade e procede da língua dos Valar adaptada pelos Elfos, enquanto o prefixo negativo de Úmanyar exprime privação sem estabelecer oposição absoluta, situando esses povos numa condição intermediária entre os polos luminoso e obscuro.
14. As subdivisões produzem conceitos mais específicos sem eliminar os grandes agrupamentos, pois as diferenças entre Vanyar, Noldor e Teleri não constituem necessariamente antagonismos, assim como Avari e Úmanyar, embora reunidos sob a designação de Elfos da Escuridão, distinguem-se pela recusa do chamado ou pela interrupção de uma busca inicialmente aceita.
15. As gradações entre os extremos dão consistência ao campo de forças do Mundo Secundário, mas são sobretudo os encontros e conflitos entre Noldor, Teleri e Úmanyar, mais do que a permanência dos Vanyar ou dos Avari em seus respectivos polos, que produzirão os acontecimentos, cantos e narrativas da história élfica.
16. A diferenciação dos povos acompanha a transformação de uma percepção luminosa originária em palavras para distintos brilhos, cores, penumbras e sombras, fazendo da linguagem o registro das relações entre luz e escuridão, cuja oposição recíproca permite que cada uma revele a outra e seja plenamente compreendida por meio dela.