Os poderes que governam as correntes sobrenaturais ora se revelam perigosos, ora se disfarçam de amigáveis, ora permanecem ambíguos — podendo ser sedutores, ameaçadores ou maléficos —, e os agentes do mal habitam tanto as profundezas da floresta e castelos distantes quanto o coração do próprio lar.
Em “O Príncipe das Ilhas Negras”, a bela esposa do herói o entorpece para visitar o amante e o transforma parcialmente em pedra.
A rainha malvada usa veneno em “Branca de Neve”; a bruxa Gothel aprisoa Rapunzel numa torre sem porta e corta seus cabelos quando ela tenta escapar.
A maldade pode manifestar-se sem magia — quando a madrasta abandona os filhos na floresta para morrer de fome — ou numa perversidade tão profunda que equivale à magia negra.
As fêmeas dominam o mal nos contos de fadas; os ogros, embora compartem o apetite e a sede de sangue das bruxas, são frequentemente gigantes lentos e desajeitados, sem dom para a magia.
O astuto Jack vence o ogro em “João e o Pé de Feijão” com a ajuda da bondosa esposa do ogro — Jack é uma figura de trickster, amplamente difundida nos contos de fadas europeus e além.
O lobo vem disfarçado e parece tão doce e gentil quanto a Vovó na cama com sua touca; nas versões tradicionais mais ousadas, a Chapeuzinho Vermelho não se deixa enganar. Como Angela Carter observou, ela é “carne de ninguém”.
Na obra exuberante de Marie-Catherine d'Aulnoy, as regiões selvagens são intimidantes, mas também abrigam amigos e familiares — o rato bondoso, o carneiro apaixonado.
Em “João e Maria”, um pato acolhe as crianças e as carrega de volta para casa em segurança; um linguado revela-se tão poderoso quanto um deus até que a esposa do pescador pede um desejo a mais.
Em “A Árvore de Zimbro”, quando a irmã enterra os ossos do irmão assassinado sob a árvore, a árvore começa a mover-se, galhos se separam e se unem como se batessem palmas de alegria, dela surge fumaça e chama, e um belo pássaro voa do fogo cantando magnificamente — o irmão renascido como fênix glorioso, que exige sua vingança: “Foi minha mãe quem me massacrou, | Foi meu pai quem me comeu, | Minha irmã, a pequena Marlene, | Encontrou todos os meus ossinhos, | Amarrou-os num pano de seda, | E os pôs sob a Árvore de Zimbro. | Quivi, quivi, que belo pássaro sou eu!”
A história chega ao seu cruel desfecho: a madrasta sai pela porta, e o pássaro lança a pedra de moinho sobre sua cabeça, esmagando-a — com a mãe má destruída, a família se reagrupa em torno da mesa paterna, exonerando inteiramente o pai de ter devorado a carne do filho morto.
Nem todos os wielders poderosos da magia são irreversivelmente bons ou maus: os jinn podem converter-se à virtude, e uma bruxa como Madre Holle pode mudar a sorte de uma boa menina e agir cruelmente com uma irmã malvada.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss comentou que os animais são “bons à penser” — bons para pensar —, e os contos de fadas falam através dos animais para explorar experiências comuns como o medo da intimidade sexual, o assalto, a crueldade e a injustiça.
A tradição de criaturas articuladas e antropomorfizadas é tão antiga quanto a própria literatura: fábulas de animais e contos de bestiário são encontrados no
Egito antigo, na Grécia e na Índia, e o lendário Esopo clássico tem seus equivalentes narradores em todo o mundo.
A besta do romance de fadas — dragão, serpente, anão amarelo ou o “Grande Verme Verde” de A. S. Byatt, sua versão de “Le Serpentin vert” de d'Aulnoy — pertence a um mundo de romance e psicologia, não de sátira e sabedoria prática.
Mme de Murat imaginou um marido indesejado na forma de um rinoceronte — então uma novidade na Europa.
Nenhum poder de bruxas, gnomos, duendes, ogros ou bestas pode extinguir completamente o bem intrínseco da força vital que percorre a natureza — como um lagarto que faz crescer outro rabo, a vítima de um conto de fadas dificilmente pode ser extinta de vez.