Muitos contos de fadas sobre princesas de cabelos dourados e pés diminutos ainda abordam a dificuldade, numa era de casamentos arranjados e recursos frequentemente escassos, de escolher um amado e receber permissão para viver com ele ou ela — e por trás de suas superfícies suntuosas entrevê-se uma história inteira da infância e da família.
Os protagonistas dos contos de fadas são reconhecivelmente pessoas comuns que trabalham em ocupações ordinária ao longo de um longo período da história, antes da industrialização e da alfabetização em massa.
Nas Mil e Uma Noites, os protagonistas pertencem a cenários mais urbanos e praticam ofícios e o comércio; alguns são sequestrados e vendidos como escravos.
No material europeu, a servidão é mais rural e a escravidão é não oficial e mais pessoal em sua crueldade.
É justo dizer que as heroínas dos contos de fadas são frequentemente criadas que assumem as tarefas domésticas sem reclamar, e que esse tipo de história ganhou favor na era vitoriana e depois, ao custo de eclipsar protagonistas rebeldes e vivos — figuras de trickster como Finette (Finesa em tradução inglesa), que vira as mesas contra os sedutores de suas irmãs, ou Marjana, a escrava que derrama óleo fervente sobre os Quarenta Ladrões.
Angela Carter observou uma vez: “Um conto de fadas é uma história em que um rei vai a outro rei pedir uma xícara de açúcar.”
D. H. Lawrence proclamou famosamente: “Confie no conto, não no contador.” Ao que Jeanette Winterson retorque, repetindo incessantemente: “Estou lhes contando histórias. Confiem em mim.”
Uma história é um arquivo repleto de história — assim como um campo vazio no inverno pode revelar ao olhar de um arqueólogo o que ali cresceu outrora, assim um conto de fadas carrega as marcas das pessoas que o contaram ao longo dos anos.
C. S. Lewis distinguiu entre realismo de apresentação e realismo de conteúdo — e os contos de fadas, sendo totalmente fantásticos em apresentação, são diretos em seu realismo quanto ao que acontece e pode acontecer.
A palavra “querer” em inglês tem duplo significado — tanto desejo quanto carência — e ambos são relevantes nos contos de fadas, onde as medidas tomadas para satisfazê-lo são frequentemente extremas, mas as injustiças são endêmicas numa sociedade hierarquizada por sangue e acidentes de nascimento.
Os contos de fadas de culturas que praticavam a poligamia refletem essa prática: a rival entre co-esposas pelos futuros de seus filhos causava conflitos viciosos — situação reproduzida na “Cinderela” chinesa (registrada no século IX, a variante mais antiga existente), em que Yeh-hsien sofre nas mãos da co-esposa do pai, não de uma nova madrasta.
Onde os dotes eram cruciais para o casamento de uma mulher jovem, eles figuram vividamente nos contos: em “Pinto Smalto” de Basile, Betta exige do pai não apenas joias, ouro e sedas, mas também farinha, açúcar e água de rosas — com os quais assa um bolo em forma de belo rapaz que ganha vida.