Eva Figes, vanguarda do feminismo pós-guerra com Atitudes Patriarcais (1970), escreveu uma geração depois Contos de Inocência e Experiência (2003) — um relato comovente e terno de sua relação com uma neta com quem lê contos de fadas, observando a complexidade das reações da menina enquanto as memórias pessoais da perseguição da família como judia na Berlim pré-guerra, do aprisionamento do pai e de sua fuga para o exílio em Londres em 1939 fluem e refluxam em sua mente.
Seus próprios avós morreram nos campos — esse conhecimento altera, altera profundamente, o impacto do destino da avó em “Chapeuzinho Vermelho”; ela não conta essa história à neta.
A cena de leitura: “Faz parte do ritual da hora da história que eu coloque meu braço direito ao redor dela, dando conforto e segurança, enquanto viro as páginas com a mão esquerda. Paro para apontar detalhes incidentais na ilustração colorida, uma coruja pousada num galho, o telhado da casa de biscoito, que parece deliciosamente comestível. Reitero, como já fiz em ocasiões anteriores, que bruxas não existem na vida real, apenas nas histórias.”
Ao pausar em “Branca de Neve”, Figes observa: “Continuo com a triste história de Branca de Neve, concebida no pleno inverno, com seu cabelo negro e sua pele sobrenatural, sua mãe morrendo devidamente ao dar à luz. Sinos de alarme soam em minha cabeça mesmo enquanto leio as palavras em voz alta. Apressadamente explico que nos tempos antigos, há muito, muito tempo, as mulheres ocasionalmente morriam quando tinham um bebê, mas não agora, definitivamente não.”
Figes observa: “O susto é divertido, mas só até certo ponto. Onde fica esse ponto: eis o mistério.”
O corajoso assalto que escritoras feministas lideraram contra os contos de fadas expôs de fato os conteúdos latentes — mas com consequências imprevistas; os problemas do heroísmo feminino estão abertos a todos os aventureiros, homens e mulheres, agora equipados com conhecimentos e expectativas diferentes de antes, quando partiram para abrir uma nova trilha através dos arbustos de roseiras.