Bettelheim deu três passos decisivos: primeiro, declarou que os contos de fadas emergem do inconsciente, codificam experiências humanas universais — especialmente da infância à adolescência —, e oferecem tanto a adultos quanto a crianças um roteiro para compreender os sentimentos e problemas do crescimento; segundo, afirmou que analisar os contos como se fossem sonhos de um indivíduo pode descobrir o material latente soterrado sob a narrativa sobre o desenvolvimento de uma pessoa; terceiro, e mais importante, sustentou que a crueldade gélida e a vingança sanguinária dos contos dos
Grimm são definitivamente benéficas para as crianças.
Ao comentar “Chapeuzinho Vermelho”, Bettelheim escreveu: “O vermelho é a cor que simboliza emoções violentas, incluindo as sexuais. O gorro de veludo vermelho dado pela avó à Chapeuzinho pode assim ser visto como símbolo de uma transferência prematura de atratividade sexual, que é ainda mais acentuada pelo fato de a avó ser velha e doente, fraca demais para até mesmo abrir uma porta. O perigo de Chapeuzinho é sua sexualidade em flor, para a qual ela ainda não está emocionalmente madura o suficiente.”
Sobre o sapatinho de Cinderela, escreveu: “O que quer que Cinderela tenha sentido sobre morar entre as cinzas, ela sabia que uma pessoa que vive assim parece aos outros suja e grosseira. Há mulheres que se sentem assim em relação à sua sexualidade, e outras que temem que os homens se sintam assim em relação a ela. Por isso Cinderela se certificou de que o príncipe a visse nesse estado também antes de escolhê-la.”
A teoria psicanalítica que Bettelheim aplicou mais ressonantemente aos contos dos
Grimm é conhecida como splitting — a cisão. A cisão pressupõe a teoria de Freud chamada de “romance familiar”, segundo a qual as crianças frequentemente fantasiam que seus pais são impostores e que foram roubadas por eles de uma família muito melhor, mais gentil, mais rica e mais grandiosa.
Para Bettelheim, a madrasta má encarna todos os lados de uma mãe contra os quais as crianças se rebelam, enquanto a mãe boa permanece intocada por seus sentimentos raivosos — e quando a rainha malvada é obrigada a calçar sapatos em brasa e dançar até cair morta, ela absorve todos os maus sentimentos que as crianças podem ter, especialmente em relação à mãe.
Angela Carter denominou pungentemente essa abordagem de “domesticar o Id”.