ZIPES, Jack. Breaking the magic spell: radical theories of folk and fairy tales. Rev. and expanded ed ed. Lexington: University Press of Kentucky, 2010.
A REAVALIAÇÃO DE BRUNO BETTELHEIM APÓS SUA MORTE
A crítica original ao tom autoritário e aos argumentos falaciosos do livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim, foi escrita em 1977, antes que o público soubese da extensão de seus problemas pessoais e profissionais.
Biografias publicadas após seu suicídio em 1990 revelaram que Bettelheim era um charlatão, falsificador, mentiroso, valentão e opressor, embora também fosse dedicado a ajudar crianças perturbadas.
Bettelheim minou seu próprio trabalho ao usar métodos duvidosos que prejudicaram muitas pessoas e ao divulgar ideias enganosas sobre terapia e literatura.
Sabe-se agora que Bettelheim nunca estudou com Freud em Viena, passou pouco tempo em um campo de concentração, mentiu sobre suas credenciais acadênicas, era abusivo na Escola Ortogênica de Chicago e tinha um conhecimento muito limitado sobre literatura infantil e hábitos de leitura.
O folclorista Alan Dundes demonstrou que muitas ideias de “A Psicanálise dos Contos de Fadas” foram plagiadas do livro de Julius Heuscher, e Bettelheim não demonstrava qualquer compreensão de folclore.
Não se deve condenar tudo o que Bettelheim fez e escreveu, pois ele era um homem culto e opinioso que representava suas opiniões como verdade, mas é possível determinar o que é fictício e abusivo em seus escritos.
A TESE CENTRAL E A ABORDAGEM AUTORITÁRIA DE BETTELHEIM
Bettelheim escreveu “A Psicanálise dos Contos de Fadas” por insatisfação com a literatura infantil que não estimulava os recursos necessários para a criança lidar com seus problemas internos.
A tese principal do livro é que a forma e a estrutura dos contos de fadas sugerem imagens que permitem à criança estruturar seus devaneios e dar melhor direção à sua vida, liberando seu subconsciente para resolver conflitos.
Bettelheim afirma que os adultos não devem explicar os contos às crianças para não destruir sua “magia”, mas devem contá-los para aprovar o jogo imaginativo infantil.
A abordagem de Bettelheim é autoritária e anticientífica, pois ele impõe significado ao desenvolvimento infantil por meio do uso terapêutico do conto de fadas, agindo como se o conto fosse um psicanalista.
Bettelheim não fornece documentação para provar que o conto de fadas é melhor do que qualquer outra literatura para o desenvolvimento do caráter infantil, e sua afirmação de que o conteúdo do conto não tem nada a ver com a vida externa do paciente elimina a relação dialética entre essência e aparência.
A TEORIA DA INTERNALIZAÇÃO E A MORALIZAÇÃO FREUDIANA
Bettelheim acredita que apenas a literatura harmoniosa e ordenada deve ser oferecida às crianças, e os contos de fadas são perfeitos porque são otimistas e mostram como reter o prazer respeitando as demandas da realidade.
Bettelheim argumenta que os contos de fadas transformam a realidade de modo que a criança possa lidar com ela, demonstrando como cada elemento psíquico (id, ego, superego) deve ser integrado para que a estrutura de caráter se desenvolva sem perturbações.
Bettelheim afirma que, se mais adolescentes tivessem sido criados com contos de fadas, eles permaneceriam conscientes de que seu conflito não é com o mundo adulto ou a sociedade, mas apenas com seus pais.
A teoria de Bettelheim é falaciosa em dois níveis: o psicanalítico e o literário, pois ele interpreta mal conceitos-chave de Freud e distorce os significados da literatura para adequá-los à sua teoria peculiar de desenvolvimento infantil.
Bettelheim não tem uma relação dialética com o freudismo e contribui para a banalização da teoria freudiana ao aplicar seus princípios de forma branda, sem repensá-los à luz das mudanças sociais e científicas.
Diferentemente de Freud, que localizou a causa da psicose nas condições históricas e materiais, Bettelheim responsabiliza principalmente a família pelos conflitos da criança, deslocando a verdadeira causa da repressão e tornando-se um apologista de uma sociedade “civilizada” conhecida por seu abuso de crianças.
A NEGLIGÊNCIA DAS DIFERENÇAS SOCIAIS E LINGUÍSTICAS
Bettelheim não reconhece o poder da sociedade de negar a autonomia e incentiva uma internalização que aprofunda a cisão entre mente e corpo, além de não fazer distinções cuidadosas entre sexos, idades, etnias e classes sociais das crianças.
O livro de Bettelheim negligencia estudos sociolinguísticos, como os de Basil Bernstein, que demonstram como a estrutura social se torna a realidade psicológica da criança por meio da modelagem de seus atos de fala, com códigos de fala restritos e elaborados variando conforme a classe social.
Bettelheim nivela as diferenças entre as crianças como se o processo educacional fosse uma experiência democratizadora e como se não houvesse códigos, tanto na linguagem pública ou privada quanto nos próprios contos de fadas.
A APROPRIAÇÃO INDEVIDA DO SIGNIFICADO HISTÓRICO DOS CONTOS
Bettelheim não leva em conta que os símbolos e padrões dos contos de fadas refletem formas específicas de comportamento social e atividade que podem ser rastreadas até as Eras Glacial e Megalítica, conforme documentado por August Nitschke.
As descobertas históricas e arqueológicas contradizem os rótulos psicológicos contemporâneos, e o tema central da maioria dos contos não é a harmonia, mas a representação de estruturas sociais em mudança e formas alternativas de comportamento relacionadas ao conceito de poder.
Usar os contos com crianças hoje como meio de educação terapêutica exige primeiro uma compreensão histórica e, em segundo lugar, uma delineação cuidadosa dos significados ideológicos e psicológicos progressistas e regressivos dos contos.
É necessário perguntar se uma criança sabe o que é um rei e o que um príncipe significa para ela, pois um conto pode servir para reforçar os instintos agressivos de uma criança de classe média ou para reforçar o poder arbitrário de figuras autoritárias para uma criança de classe baixa.
A ANÁLISE REDUCIONISTA DE “CINDERELA”
Em sua análise de “Cinderela”, Bettelheim diagnostica os principais temas como rivalidade entre irmãos e complexo de Édipo, usando a versão dos Irmãos
Grimm como modelo paradigmático para compreender todas as histórias de Cinderela.
Bettelheim afirma que Cinderela ensina as crianças sobre a rivalidade entre irmãs e os esforços de uma jovem para provar seu valor, sendo que as dificuldades que ela deve suportar são testes que envolvem o desenvolvimento da personalidade.
Bettelheim interpreta o sapato de Cinderela como um símbolo da vagina, e o ato de ela calçar o sapato como uma afirmação de que será ativa na relação sexual e de que nunca lhe faltou nada.
Em contraste, Nitschke demonstrou que “Cinderela” pode ter se originado no final da Era Glacial em uma sociedade de caça e pastoreio na qual a mulher era o centro e mantinha a sociedade como elemento nutridor, com a mãe morta continuando viva em forma de árvore ou pássaro para ajudar seus filhos.
Na sociedade americana contemporânea, onde as mulheres estão na vanguarda do movimento pelos direitos iguais, um conto como “Cinderela” não pode guiar as crianças a ordenar seus mundos interiores, pois reforça valores sexistas e uma ética puritana que serve a uma sociedade que fomenta a concorrência e a realização pela sobrevivência.
A FUNÇÃO COMPENSATÓRIA DOS CONTOS E A BUSCA DE ALTERNATIVAS
Os contos de fadas tornaram-se uma válvula de escape para adultos e crianças dentro da estrutura do sistema socioeconômico capitalista, atuando para pacificar os descontentamentos, servindo como formas de refúgio e fuga.
A questão que permanece é como fazer com que as formas artísticas concebidas pela imaginação operem na sociedade, ou seja, como a literatura imaginativa pode superar a mera função compensatória.
Tomando o conto literário “O Gigante Egoísta”, de Oscar Wilde, como exemplo, seu tema principal envolve comunidade versus individualismo e a luta pela propriedade privada, ilustrando através da imaginação um comportamento alternativo que pode ser realizado na sociedade.
Em contraste com Bettelheim, argumenta-se que é culturalmente repressivo ditar quais formas de literatura e tipos de contos são mais adequados para auxiliar o desenvolvimento de uma criança, pois a literatura por si só não resolve problemas psicológicos automaticamente.
O uso radical de contos populares e de fadas é significativo porque demonstra maneiras pelas quais a imaginação pode operar na sociedade, permitindo que crianças e adultos ganhem uma noção maior das forças que agem sobre eles.
A RECEPÇÃO CRÍTICA E A PRÁXIS SOCIAL COM OS CONTOS
O valor dos contos populares e de fadas depende de como são ativamente produzidos e recebidos em formas de interação social que levam à criação de maior autonomia individual.
Apenas compreendendo e mudando as formas de interação social e de trabalho será possível fazer uso pleno das projeções utópicas e fantásticas dos contos.
A história de “Rumpelstiltskin”, na versão dos Irmãos
Grimm, demonstra a necessidade de buscar o poder de nomear as forças que agem sobre o indivíduo para ser livre e autônomo, com o anão se autodestruindo ao ter seu nome descoberto.
Na versão alternativa de Rosemarie Künzler, a filha do moleiro se recusa a dar seu futuro filho e foge, gritando que o rei é horrível e que nunca daria seu filho, sendo salva ao abrir a porta.
Na versão de Irmela Brender, a narradora expressa compaixão por Rumpelstiltskin, afirmando que ele queria algo vivo, um amigo, um ser humano, e que a rainha deveria tê-lo convidado para viver com eles, em vez de quebrar a promessa, concluindo que o final do conto tradicional não é justo.