ZIPES

Jack Zipes

ZIPES, Jack. Os contos de fada e a arte da subversão: o gênero clássico para crianças e o processo civilizador. Tradução: Camila Werner. São Paulo, SP: Perspectiva, 2023.

Os contos de fada continuam a permear, se não a invadir, as nossas vidas em todo o mundo. Eles desempenham um papel complexo na aculturação, isto é, na formação e na expressão dos gostos, maneiras e ideologias de membros de uma sociedade em particular. Eles têm um efeito poderoso sobre o comportamento de jovens e adultos, e sobre como eles se relacionam com as suas atividades diárias. Apesar de serem aparentemente universais, os contos de fada servem a uma função específica na comunicação dos valores e das diversas inquietações de diferentes nações. Não sabemos exatamente quando os contos de fada se originaram nas culturas orais milhares de anos atrás, mas sabemos que foram histórias metafóricas que surgiram a partir das experiências humanas básicas e continham informações vitais que fortaleciam os elos comuns das pessoas que viviam em pequenos clãs e tribos. Unidades relevantes dessas informações aos poucos formaram a base de narrativas que permitiram aos humanos aprenderem sobre si mesmos e sobre os mundos que eles habitavam. Esses contos informativos não tinham títulos. Eles eram simplesmente contados para marcar uma ocasião, para dar um exemplo, para alertar sobre um perigo, para procurar comida, para explicar o que parecia inexplicável. As pessoas recontavam as histórias em contextos sociais para comunicar conhecimento e experiência. Apesar de muitos contos antigos nos parecerem mágicos, milagrosos, fantasiosos, supersticiosos ou irreais, as pessoas acreditavam neles, e elas não eram e não são muito diferentes das pessoas de hoje em dia que acreditam em religiões, milagres, cultos, nações e ideias como democracias “livres” que têm pouco apoio na realidade. Na verdade, histórias religiosas e patrióticas têm mais em comum com os contos de fada do que nos damos conta, com a exceção de que os contos de fada tendem a ser seculares e não baseados em um sistema de crenças prescritivo ou em códigos religiosos.

Os contos de fada são baseados em uma disposição humana para a ação social – para transformar o mundo e torná-lo mais adaptado às necessidades humanas enquanto nós mesmos tentamos mudar e nos tornar mais adaptados ao mundo. Quase todos os contos de fada têm a ver com uma jornada. Por isso, seu foco, seja de um conto oral, escrito ou cinematográfico, sempre esteve na luta por encontrar instrumentos mágicos, tecnologias extraordinárias e/ou pessoas e animais prestativos que permitirão que os protagonistas transformem a si mesmos e o seu ambiente, e tornem o mundo mais adequado para que se viva em paz e alegria. Os contos de fada começam com um conflito porque todos nós começamos nossas vidas com um conflito. Todos nós somos inadequados para o mundo, e de alguma forma precisamos nos adequar, ao nosso ambiente e às outras pessoas, e assim precisamos inventar ou encontrar maneiras por meio da comunicação para satisfazer e resolver desejos e instintos conflitantes.

Toda sociedade desenvolveu algum tipo de processo civilizador para motivar os seus membros a cooperarem e a coexistirem de maneira pacífica. Os contos são motivadores e, conforme foram contados e recontados ao longo do tempo, eles foram trançados no tecido do processo civilizador, guardados em nossas memórias e assumiram diferentes formas para os propósitos sociais que determinaram a natureza de seu gênero. Os contos de fada, muitas vezes chamados de contos maravilhosos ou mágicos nas culturas orais1, eram meios de comunicação que permitiam que contadores de histórias e ouvintes tivessem a oportunidade de imaginar e contemplar mundos mais justos e ideais que as suas próprias realidades. Os contos permitiam o prazer moral e ético ao mesmo tempo que não pregavam ou determinavam como agir.

Os contos de fada estão enraizados nas tradições orais, e como mencionei acima, eles nunca recebiam títulos, ou existiam nas formas como são contados, impressos, desenhados, gravados, encenados ou filmados hoje em dia. Eles evoluíram nas tradições por meio da imitação, memorização, repetição e recriação. Em geral, os folcloristas fazem uma distinção entre contos de fada populares maravilhosos, que se originaram nas tradições orais de todo o mundo e ainda existem, e os contos de fada literários, que surgiram a partir de tradições orais por meio da mediação de manuscritos e impressos, e continuam a ser criados hoje em dia em diversas formas mediadas ao redor do mundo. Tanto na tradição oral quanto na tradição literária, os tipos de contos influenciados por padrões culturais são tão numerosos e diversos que é quase impossível definir o enredo típico de um conto popular maravilhoso ou de um conto de fada, ou explicar a relação entre os dois modos de comunicação. É fascinante estudar como as formas orais e literárias dos contos maravilhosos/de fada se juntaram, uma vez que o processo de impressão começou a se desenvolver no século XV na civilização ocidental. Essa junção foi enriquecida por outras tecnologias, como as invenções audiovisuais do final do século XIX. Hoje em dia, o conto de fada híbrido se tornou mais diversificado e enfeitado. Ele tem diversas tarefas e, ainda assim, permanece incrivelmente consistente em seu objetivo maior: estimular contadores de histórias e ouvintes a explorar a questão freudiana de por que os seres humanos são tão insatisfeitos com a civilização.