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Aquele que, Peregrino, se entretém com o Anjo e busca a verdade da Terra ao Céu, que ultrapassa o Empíreo e o Trono celeste, obterá conhecimento dos profetas e escutará pontualmente este relato.
O relato deve ser inteiramente eloqüência do estado e não vão ajuste de palavras; ali o engano se insinua, enquanto aqui só há verdade e beleza.
O Peregrino, que fala com o coração, deve ser acreditado e o relato não deve ser tratado como inverossímil, pois tudo se pode ver em sonho.
Embora haja revelações demoníacas no caminho, também há celestes e angélicas; são necessários gosto, temor e ardente desejo de Deus para distingui-las.
O objetivo do livro e a natureza do conhecimento
O objetivo do texto é falar do Peregrino que foi além de Gabriel, acima do Empíreo, retornou à Terra, subiu além das estrelas até o Anjo e desceu abaixo da Terra junto ao Peixe.
O belo livro é elaborado para a elite e o comum, sendo a pensamento divino a rota do Peregrino, adquirida pela invocação do nome dEle.
A visão do Peregrino na Via surge não do intelecto, mas do coração; ao homem de coração pertence uma vocação e inteligência situadas além da percepção dos dois mundos.
A revelação e a ciência do coração
Ilodhayfa perguntou a Haydar, o Leão do Criador, se não haveria no tempo, pelo universo, outra revelação do Eterno divino além do Corão; Haydar respondeu que não, mas que Ele deu aos Seus Amigos uma compreensão melhor para interpretar Suas palavras com justiça.
A ciência do coração, este Peregrino, é a quintessência da de todas as contrariedades.
A trajetória humana da concepção à morte
Em três trevas, Ele deposita a gota d’água, sem coração nem amor; pelo Seu verbo, Ele reúne o vil líquido, o embrião torna-se redondo como a bola e a errância é sua sorte.
Ao final, Ele sopra sobre ele; o corpo se elabora, mas sobre a alma não se interroga; o homem sai da matriz de cabeça para baixo, argila ensanguentada, e entra na infância febril.
O estrangeiro aventura-se na juventude, que é um ramo da loucura; o intelecto pela idade se estraga e ao velho tagarela não se pede felicidade.
Aquele prisioneiro do torno de múltiplas voltas morre sem ter encontrado a alma e junta-se ao nada; sem a alma previdente, não se ousa qualificar-se de homem.
A necessidade da busca e do esforço espiritual
O homem não é apenas mistura de água e argila, mas também mistério divino e alma pura; cem universos cheios de anjos não se prosternariam diante de uma gota de semente.
O produto da semente em busca da alma deve sofrer incuráveis tormentos; o sustento para esta empresa é a errância e o bálsamo para a dor é a própria dor.
O coração requerido pela Busca é, até a Ressurreição, louco e furioso; o espírito, este Peregrino, de tormentos na Busca não tem repouso nem dia nem noite.
O que importa aqui é o esforço do espírito; uma hora de atenção vale mais do que setenta anos de devoções.
O estado de desorientação do Peregrino
O espírito do Peregrino permanece pendurado de cabeça para baixo, como o badalo na porta, sem informação do começo nem explicação do fim.
De tantas caravanas, nem a poeira no horizonte; de todo o tumulto, não aparece um homem cuja impiedade ou fé seja completa, cuja dor ou remédio seja inteiro.
Homens no tumulto da despreocupação, todos às voltas com a causa e o efeito; cem mil seres reunidos, todos ocupados com a pilhagem do mundo.
Crítica aos diferentes grupos e estados humanos
O mestre-escola, prisioneiro de suas mentiras, está ligado a seu salário como a suas necessidades naturais; o grito público, como a ave presa na armadilha, patinha enquanto a assembleia aplaude.
Os gnósticos, sobre seus pescoços de touros, têm todos cabeças de cata-vento; os sufis se enrolam entre verdade e pureza, sem desejo sincero.
Os ascetas, eriçados e mal-humorados, mantêm-se rijos como barras; os devotos pregam a frugalidade e se ocupam nos cantos como o cavaleiro no tabuleiro.
Os grandes todos se ocultaram; os santos são postos no pelourinho; os heróis se submetem; os falcões se tornam carregadores.
Os companheiros do Profeta juntam-se às corujas; os sufis gastam sua manta até a trama; os homens de coração, rosto amarelo e lábios secos, calam-se e esperam que o dia seja noite.
Cada um está sobre uma via diferente; cada coração, de dúvida, em outro poço; filósofos estão suspensos entre qualidade e quantidade; sofistas se atêm à negação do mundo.
O encontro do Peregrino com o Sábio
O Peregrino, aturdido, interdito e estupefato, viu cem universos, oceanos sobre oceanos em ebulição, cada um em busca de Deus, todos engolidos no turbilhão de Deus.
Passou pela peneira toda a terra do mundo e rejeitou inteligência, dúvida e aporia; passou pela peneira cem mil vezes a terra do mundo e outras tantas depositou a pérola recolhida na bancada.
Ao final, de Deus lhe veio socorro: um Sábio, sol iluminando os dois mundos, apresentou-se a ele, irradiando luz sobre os dois mundos e ele mesmo, de seu próprio brilho, assustado.
Quando o Peregrino encontrou o Sábio, guia na Via, prosternou-se diante dele; de alegria, sua alma ferveu e fixou o anel da servidão à sua orelha.
O Sábio disse: “Ladrões, ao longo do caminho, estão à espreita; não te descuides, faz o que te foi dito. A estrada é longa; filho, mantém-te vigilante!”
A resposta do Peregrino e o início da Via sem fim
O Peregrino, amante aturdido de paixão, inflamou-se como o fogo; rejeitou exaltação e melancolia e mergulhou nu no oceano.
Depôs queixa e gratidão e engajou-se na Via sem fim.
O Peregrino aturdido, chegado ali movido por toda sua energia, não pôde considerar recuar; avançar não podia, pois a via não tinha começo nem fim.
Levantou a dor, esta alforje, e de limiar em limiar, vergando sob o peso, a arrastou; sentiu-se primeiro livre das amarras, depois elevado às altas nuvens.
A história exemplar de Alexandre
Um homem afligido apresentou-se a Alexandre, rei do universo, e pediu um dirhem; o rei exclamou que era ignorante pedir tão pouco a tal rei, ao que o homem respondeu que então lhe desse uma cidade e um tesouro.
O rei respondeu que foi o que recebeu o imperador da China e perguntou quem era ele para tanto pretender.