HCARV
Composição e Autenticidade do Relato; Comentários e Manuscritos
A ordenação metódica do ciclo avicênico estabelece o Relato de Hayy ibn Yaqzan como a peça inaugural da trilogia.
O sentido do Oriente é anunciado por um mensageiro proveniente dessa mesma região, que descreve as etapas difíceis da jornada e convida à iniciação.
A dramaturgia mental da obra atua como antecipação e preparação para a ascensão celestial que será recordada no Relato da Ave.
A filosofia oriental é definida como o conhecimento das Ideias em si mesmas, abrangendo o mundo angélico em seus graus espiritual, celestial e terrestre.
O programa avicênico para essa sabedoria encontra sua fonte primordial neste relato, devendo ser associado às glosas da Teologia de Aristóteles mencionadas por Vajda.
A cronologia da composição do relato é preservada pela biografia escrita por Juzjani, discípulo fiel que acompanhou a trajetória do mestre por Ray, Qazwin e Hamadan.
Avicenna serviu ao príncipe Shamsuddawla como médico e vizir, enfrentando dificuldades políticas e sedições militares.
Durante o segundo vizirato em Hamadan, Juzjani solicitou ao mestre a composição de um comentário sobre as obras de Aristóteles.
A rotina de trabalho dividia—se entre os compromissos políticos diurnos e o estudo noturno da física do Shifa e do Qanun, seguidos por breves momentos de música e conversação.
Após a morte do príncipe Shamsuddawla e a ascensão de seu filho, o filósofo buscou secretamente transferir—se para o serviço de Alauddawla em Ispahan.
A correspondência secreta foi descoberta pelo vizir de Hamadan, resultando na denúncia e prisão de Avicenna.
Composição e Autenticidade do Relato
O confinamento forçado na fortaleza de Fardajan, que durou quatro meses, constituiu o cenário dramático para a escrita do Relato de Hayy ibn Yaqzan.
A libertação ocorreu apenas quando Alauddawla de Ispahan atacou Hamadan, forçando os captores a buscarem refúgio na própria fortaleza onde o filósofo estava detido.
Após a reconciliação e posterior fuga disfarçada de Sufis, Avicenna e seus companheiros, incluindo seu irmão Mahmud e Juzjani, entraram triunfalmente em Ispahan.
A experiência do cárcere e da profundidade da alma é traduzida na narrativa como o momento em que a alma reconhece sua cidade oculta.
A catividade na cripta cósmica e o poço escuro mencionados no Relato do Exílio Ocidental de Suhrawardi adquirem um sentido literalmente trágico.
A solidão do cárcere convocou a visão de Hayy ibn Yaqzan, preparando a aceitação do convite para abandonar a prisão dos sentidos.
A angelologia surge como resposta a questões secretamente postas pela consciência muito antes de sua formulação.
A complexidade do estilo original árabe encontra no tradutor e comentarista persa um auxílio indispensável para a compreensão das intenções secretas da obra.
A língua persa demonstra—se valiosa para sugerir intuições poéticas e delimitar conceitos, oferecendo archaismos de interesse filológico.
O estudo dos relatos místicos de Suhrawardi motivou a investigação da inspiração avicênica, dada a relação positiva entre os dois mestres.
O Relato de Hayy ibn Yaqzan é documento de primeira importância, pois seu epílogo serve de ponto de partida para o Relato do Exílio Ocidental.
A descoberta fortuita de um manuscrito na Biblioteca de Santa Sofia em Istambul permitiu a identificação de uma tradução persa com comentário anônimo.
A existência de outras cópias no Irã possibilitou a realização de uma edição crítica da amplificação persa do relato.
A carência de documentação bibliográfica completa dificulta a distribuição precisa dos diversos comentários árabes entre os manuscritos existentes.
O interesse primordial reside na contribuição ao avicennismo em persa, apesar do anonimato do comentarista iraniano.
Autores como Bahar e Mahdi Bayani registraram a existência do comentário persa, atribuindo—no possivelmente a Juzjani, conforme Shahrazuri e Baihaqi.
Brockelmann e Anawati fornecem censos de manuscritos, mas sem distinguir claramente entre o texto simples e as versões comentadas.
O manuscrito Ashir 441, anteriormente confundido, pertence na verdade ao Relato do Exílio Ocidental de Suhrawardi.
A metodologia do comentarista iraniano difere das abordagens adotadas nos comentários árabes de Ibn Zayla e al—Munawi.
Ibn Zayla, contemporâneo e discípulo de Avicenna, produziu um comentário em árabe que já era conhecido desde a edição de Mehren.
Abdurraul al—Munawi, escritor egípcio posterior, também comentou o texto árabe seguindo a mesma tradição de Sufismo.
A figura de Hayy ibn Yaqzan estabeleceu—se como um arquétipo pessoal do Shaikh al—Rais dentro de uma longa tradição espiritual.
Mir Damad também contribuiu para essa tradição ao comentar os símbolos do relato em resposta a consultas de seus contemporâneos.
A autoria do comentário persa é atribuída com alta probabilidade a Juzjani, excluindo—se outros discípulos como Bahmanyar ibn Marzuban ou o próprio irmão de Avicenna.
O irmão do filósofo, professando o ismailismo precocemente, contrasta com o viés anti—ismailita demonstrado pelo comentarista anônimo.
A obra foi realizada a pedido do príncipe Alauddawla de Ispahan, fixando sua composição entre o tempo de vida de Avicenna e os cinco anos seguintes à sua morte.
Baihaqi confirma em sua História dos Filósofos que Juzjani compôs um comentário sobre Hayy ibn Yaqzan.
O comentário provavelmente preserva as conversas e explicações do próprio mestre em seu círculo íntimo de discípulos.
Said Naficy incorre em erro ao sugerir que a obra persa seria de Ibn Zayla, ignorando as diferenças linguísticas e textuais apontadas por Baihaqi.
A tradição iraniana que remonta ao círculo imediato de Avicenna é suficiente para dissipar as dúvidas sobre a autenticidade do relato.
As objeções baseadas em uma passagem do Prolegômenos de Ibn Khaldun sugeriam a existência de uma terceira obra homônima sobre geração espontânea.
Ibn Khaldun cometeu um lapso ao atribuir a Avicenna a obra de
Ibn Tufayl, confusão refutada pelos argumentos de Leon Gauthier.
A autoridade do historiador magrebino do século XIV não prevalece sobre a evidência histórica e os comentários de Ibn Zayla e Suhrawardi.
O texto publicado por Mehren é indubitavelmente o relato composto por Avicenna durante sua detenção em Fardajan.
A estrutura do comentário persa organiza o relato em vinte e cinco capítulos, proporcionando um desenvolvimento orgânico e coerente de cada seção.
O termo tafsir é utilizado para a tradução persa, enquanto sharh designa o comentário propriamente dito.
A tradução persa mantém fidelidade ao original árabe, substituindo fórmulas complexas por expressões mais claras.
O manuscrito de Santa Sofia (A), datado do século VII da Hégira, oferece leituras cruciais para trechos omitidos em outras cópias, especialmente sobre o tema do tawil.
Manuscritos das bibliotecas Malek e Sepahsalar em Teerã serviram como fontes principais para o estabelecimento do texto.
Versões em hebraico, atribuídas a Ibn Ezra e a um tradutor anônimo que seguiu Ibn Zayla, atestam a difusão da obra.
O objetivo essencial da presente investigação é contribuir para o corpus avicênico em língua persa, priorizando a tradução e o comentário.
A Weltanschauung avicênica é apresentada enfatizando a angelologia fundamental como guia para a compreensão dos relatos.
A leitura direta do texto deve preceder o esforço de compreensão racional para que o impacto da estranheza oriente o peregrino rumo ao Oriente.
As traduções anteriores, como o resumo de Mehren, são criticadas por sua palidez e por reduzirem o relato a uma alegoria seca.
Brockelmann erra ao considerar a obra uma alegoria sem substância, ignorando a distinção entre símbolo e alegoria.
Diferente de
Ibn Tufayl, Avicenna utiliza os personagens Hayy ibn Yaqzan, Salaman e Absal em uma estrutura simbólica inteiramente distinta.
As glosas visam coordenar os problemas do relato com a pesquisa contemporânea e a análise de arquétipos da alma iraniana.
12. Tradução do Relato de Hayy ibn Yaqzan
A persistência dos irmãos em exigir a exposição do relato triunfou sobre a determinação inicial de adiar tal tarefa.
Se vós persistirdes, meus irmãos, em demandar que eu exponha o Relato de Hayy ibn Yaqzan para vós, finalmente triunfareis sobre minha teimosa determinação de não o fazer.
Buscou—se o auxílio e suporte divino para a realização desta empresa.
O encontro com o sábio ocorreu durante uma excursão aos arredores da cidade, onde a figura de um ancião dotado de juventude eterna se manifestou.
Certa vez, quando eu havia fixado residência em minha cidade, aconteceu de eu sair com meus companheiros para um dos lugares de prazer que ficam ao redor da mesma cidade.
O sábio brilhava com uma glória divina, possuindo a frescura dos jovens e a gravidade imponente dos antigos mestres.
O desejo de intimidade e conversação levou o narrador a aproximar—se do sábio, que o saudou com palavras doces ao coração.
Quando eu vi este Sábio, senti um desejo de conversar com ele.
O iniciado tomou a iniciativa da saudação, demonstrando benevolência para com o grupo.
A revelação do nome Vivens filius Vigilantis e da origem na Jerusalém Celestial define a profissão do sábio como a de um viajante universal.
Meu nome é Vivens; minha linhagem, filius Vigilantis; quanto ao meu país, é a Jerusalém Celestial.
O sábio possui as chaves de todo conhecimento, percorrendo os confins do universo por instrução de seu pai, Vigilans.
A conversação avançou para as ciências difíceis e a fisiognomia, revelando a sagacidade do sábio em desvelar a natureza oculta dos homens.
A ciência da fisiognomia está entre as ciências cujo lucro é pago à vista e cujo benefício é imediato.
Tal conhecimento permite ajustar a atitude de liberdade ou reserva conforme a natureza que cada homem oculta.
A análise fisiognômica revela o narrador como um misto de argila e naturezas inanimadas, cercado por companheiros malignos que ameaçam sua integridade.
Em ti, a fisiognomia revela ao mesmo tempo o mais excelente dos tipos de criaturas e uma mistura de argila e de naturezas inanimadas que recebem toda impressão.
O perigo reside na submissão ao erro caso não ocorra a salvaguarda divina contra a malícia desses companheiros.
O primeiro companheiro é descrito como um mentiroso e forjador de ficções, atuando como o canal de informações sensoriais que mistura verdade e erro.
Aquele companheiro que caminha sempre diante de ti, exortando—te, é um mentiroso, um tagarela frívolo, que embeleza o que é falso, forja ficções.
Cabe ao indivíduo separar a boa moeda entre os falsos testemunhos, utilizando—o como olho secreto sem sucumbir às suas mentiras.
O companheiro à direita representa a violência irascível e indomável, assemelhando—se a um fogo devorador ou a uma fera enfurecida.
Quanto ao companheiro à tua direita, ele é grandemente violento; quando é despertado pela ira, nenhum conselho pode contê—lo.
Ele é comparado a uma leoa cujo filhote foi morto ou a um camelo embriagado.
O companheiro à esquerda é identificado com a concupiscência e o apetite insaciável por matéria, assemelhando—se a um animal imundo.
Por último, aquele companheiro à tua esquerda é um desleixado, um glutão, um libertino; nada pode encher sua barriga senão a terra.
A libertação desses vínculos exige uma expatriação para um solo onde tais naturezas não podem pisar.
Enquanto a hora da partida não chega, deve—se agir como um mestre experiente, dominando as feras para que sirvam de montaria em vez de serem os cavaleiros.
A estratégia para lidar com os companheiros consiste em equilibrar suas forças opostas e manter uma vigilância cética sobre o imaginativo.
Um dos estratagemas consiste em subjugar o companheiro glutão com a ajuda daquele que é violento e malicioso.
Inversamente, a paixão do irado deve ser moderada pela sedução do companheiro gentil.
Não se deve confiar no falante habilidoso em ficções, a menos que ele traga um testemunho de peso proveniente de Deus.
O narrador reconhece a veracidade dessas descrições através da experiência e busca curar a influência desses companheiros até a separação final.
O desejo de empreender a mesma jornada do sábio é confrontado com a proibição imposta pela permanência junto aos companheiros.
Vós, e todos aqueles cuja condição é como a vossa — vós não podeis partir na jornada que eu estou fazendo.
O caminho está fechado a menos que o destino auxilie na separação dos companheiros mundanos.
A jornada é interrompida por haltas, onde a solidão permite a companhia do sábio e o retorno aos companheiros provoca a separação dele.
A descrição das três circunscrições da terra revela a existência de regiões estranhas além do Oriente e do Ocidente conhecidos.
As circunscrições da terra são três: uma é intermediária entre o Oriente e o Ocidente.
O acesso às outras duas regiões é vedado à massa dos homens, sendo reservado apenas aos Eleitos que ganharam força além da natureza humana.
A imersão na fonte de água que flui perto da Primavera da Vida concede ao peregrino a força necessária para cruzar desertos e escalar montanhas místicas.
O que auxilia no ganho desta força é mergulhar na fonte de água que flui perto da permanente Primavera da Vida.
Purificado por essa água doce, o iniciado torna—se capaz de caminhar sobre o oceano e subir o Monte Qaf sem ser lançado ao abismo.
A localização da fonte está relacionada à Escuridão polar, onde o sol brilha apenas em tempos fixos e a luz é descoberta após o mergulho nas trevas.
Tu ouviste da Escuridão que para sempre reina sobre o polo.
Aquele que mergulha na Escuridão encontra um espaço vasto e cheio de luz, onde uma fonte viva se espalha sobre o barzakh.
O banho nesta fonte torna o corpo leve, permitindo o acesso às circunscrições que intersectam o mundo.
A circunscrição do Ocidente extremo é caracterizada pelo Mar Quente e Lamacento, onde o sol se põe e a desolação prevalece.
No extremo limite do Ocidente há um mar vasto, que no Livro de Deus é chamado de Mar Quente (e Lamacento).
O solo é um deserto de sal que rejeita o cultivo e as edificações, sendo habitado por estranhos em perpétua batalha e pilhagem.
A vida vegetal e animal no extremo ocidente sofre mutações monstruosas, onde formas humanas são cobertas por peles de quadrúpedes.
Toda sorte de animais e plantas aparecem naquele país; mas quando eles se estabelecem lá, alimentam—se de sua erva e bebem de sua água, subitamente são cobertos por exteriores estranhos à sua Forma.
O clime é um lugar de devastação onde a alegria e a beleza são apenas emprestadas de lugares distantes.
Entre o mundo conhecido e o limite ocidental existem climes que servem de base para os céus, habitados por sedentários perpétuos sem guerras.
Além deste vosso clime, começando na região em que os Pilares dos Céus estão fixados, há um clime que é como o vosso em vários sentidos.
Os habitantes têm domínios fixos e não infligem violência uns aos outros, recebendo luz de uma fonte estrangeira próxima à Janela de Luz.
A geografia celestial do Ocidente divide—se em diversos reinos com características morfológicas e sociais distintas conforme a natureza de seus habitantes.
A região mais próxima é habitada por seres de pequena estatura e movimentos céleres, distribuídos em nove cidades.
O reino seguinte é devotado às artes da escrita, astronomia, teurgia e magia, com dez cidades.
Existe um reino de extrema beleza e música regido por uma soberana, onde o bem e o belo são inclinações naturais.
Outras regiões abrigam seres benéficos à distância mas calamitosos na proximidade, ou seres destrutivos regidos por uma figura vermelha inclinada ao abate.
Um vasto reino é habitado por povos de temperança e justiça suprema, que estendem bondade a todo o universo.
Há também um reino de solitários em um deserto sem vegetação, dividido em doze regiões e vinte e oito estações.
O limite extremo é o reino dos Anjos espirituais, invisível aos olhos do corpo, de onde descem o Imperativo e o Destino.
O Oriente manifesta—se inicialmente como um deserto de elementos puros, desprovido de vida mineral, vegetal ou animal.
Quando tu procedes em direção ao Oriente, primeiro aparece a ti um clime no qual não há habitante: nem seres humanos, nem plantas, nem minerais.
A travessia revela sucessivamente montanhas de águas vivas e minerais, seguidas por vegetação exuberante e, por fim, animais de todas as espécies que não possuem o logos.
Ao cruzar o Oriente, depara—se com o sol nascendo entre as duas tropas do Demônio, que se dividem em seres terrestres e voadores.
Tu virás sobre o sol nascendo entre as duas tropas [lit., os dois “chifres”] do Demônio.
A tropa terrestre divide—se entre a ferocidade das feras de rapina e a bestialidade dos quadrúpedes, vivendo em guerra perpétua.
Os demônios voadores possuem constituições híbridas e fragmentadas, lembrando as figuras compostas criadas por pintores.
Cinco grandes estradas fortificadas são vigiadas por homens de armas que capturam os habitantes deste mundo, inspecionando suas bagagens e enviando informações seladas ao Rei.
As tropas demoníacas infiltram—se nos corações humanos para incitar o mal, a opressão e a negação das realidades espirituais.
Às vezes um grupo destas duas tropas de demônios parte para o vosso clime; lá eles surpreendem os seres humanos, insinuam—se em seus corações mais íntimos com seu hálito.
O grupo terrestre incita ao ódio, à destruição e ao desejo por atos indignos através da obstinação.
A tropa voadora persuade o homem a crer apenas no que vê, sugerindo que não há vida após a morte nem um reino celestial eterno.
Alguns grupos se separam das tropas demoníacas e, guiados pelos anjos terrestres, tornam—se gênios benéficos que auxiliam na purificação humana.
Estes são as “fadas” ou “gênios” [peri], aqueles que em árabe são chamados jinn e hinn.
Eles escolhem o caminho dos Anjos espirituais em vez da aberrância dos demônios.
O clime dos anjos terrestres é habitado por dois grupos: os que conhecem e ordenam à direita, e os que obedecem e agem à esquerda.
Entre seu número estão os dois anjos aos quais o ser humano é confiado, chamados “Guardiões e Nobres Escribas”.
O da direita dita as ordens, enquanto o da esquerda escreve as ações, alternando entre a descida ao mundo dos homens e a subida ao céu.
A saída deste clime conduz ao que está além das esferas celestiais, onde se descobre a Criação Primordial sob o governo do Rei Único e Obedecido.
Lá, a primeira delimitação é habitada por íntimos do Rei sublime, pessoas puras isentas de glotonaria, luxúria ou violência.
Habitam cidades de castelos magníficos feitos de material que não se assemelha à argila, sendo mais sólidos que o diamante.
São isentos da data devida da morte, vivendo vidas imensamente longas dedicadas à preservação das muralhas do império.
Acima dos guardiões das muralhas reside um povo de íntimos que contemplam a face do Rei em continuidade ininterrupta, dotados de sabedoria penetrante.
Eles receberam como adorno a doçura de uma graça sutil em sua natureza, bondade e sabedoria penetrante em seus pensamentos.
Cada um possui um posto fixo e ordenado divinamente, sendo o mais próximo do Rei chamado de “pai” de todos eles.
Através dele emanam a palavra e a ordem real; sua natureza é imune ao envelhecimento, tornando—se mais vigorosa com o passar do tempo.
O Rei habita em extrema solidão, sendo inatingível por definições, comparações ou louvores proporcionais à Sua grandeza.
Ele não tem membros que O dividam: Ele é todo uma face por Sua beleza, todo uma mão por Sua generosidade.
Sua beleza é o véu de Sua própria beleza, e Sua manifestação absoluta é a causa de Sua ocultação, tal como o sol cega quem o fita diretamente.
Ele é magnânimo e misericordioso, e quem percebe um traço de Sua beleza fixa sua contemplação nela para sempre.
Alguns solitários entre os homens emigram em direção ao Rei e recebem graças que revelam a miséria das vantagens terrestres.
O relato encerra—se com o convite final de Hayy ibn Yaqzan ao despertar e à jornada em direção ao Rei.
13. Orientação
A palavra orientação define a intenção primordial do relato: revelar o Oriente místico e direcionar o peregrino em sua direção.
A exploração mental do cosmos em companhia de Hayy ibn Yaqzan resiste a esquematizações diagramáticas simples, como as feitas para a Divina Comédia.
Os comentadores frequentemente falham ao reduzir os símbolos a um código racional, degradando—nos a meras alegorias didáticas.
A transmutação noética exige uma percepção que apreenda dados sensíveis e os transforme em símbolos vivos.
O primeiro episódio compreende o encontro com o Anjo, estabelecendo as condições preliminares para a visão quando a alma está recolhida em si mesma.
O Anjo atua como o Angelus interpres, análogo a Gabriel nas visões de Daniel ou Rafael nas de Enoch.
Hayy ibn Yaqzan é a individuação da Inteligência Ativa, assumindo a forma de uma beleza jovem combinada com a gravidade da velhice.
O símbolo do Puer aeternus representa a totalidade do ser, onde a perfeição consumada coexiste com a juventude eterna.
A alma atua como um espelho para este ser celestial através do intelecto contemplativo, despertando para o mundo invisível.
Philo descreve esta situação como “Deus se mostrando no lugar de Deus”, onde a alma contempla o arquétipo em vez de uma imitação.
A visão postula a individuação mútua entre a alma e o anjo, integrando a figura de Hayy ibn Yaqzan à vida espiritual do filósofo.
No Tratado sobre o Destino, Avicenna descreve a aparição da silhueta de Hayy ibn Yaqzan quando o discurso dialético silencia diante do impasse.
A iniciação parte da ciência da fisiognomia para desvelar o batin ou profundidade oculta do homem, reduzindo a aparência do zahir.
Trata—se de descobrir o Estrangeiro ou o Oriental escondido sob o disfarce ocidental da condição comum.
A fisiognomia justifica—se como o initium da transmutação da alma, transformando faculdades psicológicas em dramatis personae.
Os apetites concupiscível e irascível tornam—se demônios da alma, representando as energias demoníacas que tentam destruir a virtualidade paradisíaca.
No Relato de Salaman e Absal, esses companheiros reaparecem como figuras mundanas que perseguem o gnóstico.
A imaginação ativa é reconhecida por Suhrawardi como uma faculdade que pode ser anjo ou demônio, dependendo de sua conversão ao símbolo.
A busca pelo Oriente exige que o gnóstico se separe de seus companheiros terrestres para que o Anjo caminhe ao seu lado.
A iniciação antecipa a morte natural, abolindo a solidão através do êxodo do cripta cósmica.
A orientação dada pelo gesto do Anjo conecta o gnóstico avicênico a uma linhagem que inclui o orfismo, Parmênides e o gnosticismo valentiniano.
O Hino da Alma nos Atos de Tomé prefigura a jornada do príncipe que esquece sua origem no
Egito e é despertado por uma mensagem do Oriente.
O Oriente não é uma inovação absoluta, mas uma representação comum entre os que buscam a segunda birth através da Gnose.
A regeneração pela Água da Vida é um tema central que conecta a mensagem do Oriente à transformação do iniciado.
O Corpus Hermeticum menciona o batismo na bacia da mente para que os homens recebam o gnosis e se tornem completos.
A Primavera da Vida situa—se no ponto ideal de inserção da Forma na Matéria, na fronteira entre o Oriente e o Ocidente.
O polo, cercado por escuridão perpétua, representa a inconsciência da ignorância que o homem natural deve atravessar.
A descida ao inferno do inconsciente é uma experiência necessária para a descoberta da luz verdadeira.
A lógica é elevada a um plano iniciático, sendo o istikshaf ou busca pela revelação, análogo ao istishraq ou busca pelo Oriente.
Mir Damad e Qutbaddin
Shirazi conectam a lógica ao Relato de Hayy ibn Yaqzan como um derivado da ciência divina.
A água que flui sobre o barzakh representa o mundo do imaginável onde os espíritos se corporificam e os corpos se espiritualizam.
A região do Ocidente abrange tudo o que está conectado à matéria, dividindo—se em planos de privação, exílio terrestre e esferas celestiais.
O Ocidente extremo é o Mar Quente de não—ser relativo, enquanto o Ocidente celestial possui matéria diáfana e incorruptível.
A matéria celestial procede da meditação do Anjo sobre sua própria virtualidade, sendo descrita por Suhrawardi como o pesar do Anjo.
A antropologia planetária e a astrologia mencionadas no relato são objeto de crítica por sua natureza utilitária e dados insuficientes.
Avicenna propõe uma relação entre céus e terra baseada em atos de inteligência, vontade e amor das Almas celestiais.
Uma astrologia oriental consideraria as moções celestiais no lado do Oriente, em vez de mecanismos automáticos e materiais.
A ascensão final em direção ao Oriente atravessa o reino da alma onde as tropas demoníacas tentam impedir a passagem.
Ao ultrapassar os demônios, o viajante encontra gênios, anjos terrestres, querubins e, finalmente, o Rei em sua solidão extrema.
O epílogo estabelece o ponto de partida para o Exílio Ocidental de Suhrawardi e o convite decisivo de Hayy ibn Yaqzan.
O relato funciona como uma exploração mental e iniciação que prepara o peregrino para a jornada real que será detalhada nos outros relatos da trilogia.
A jornada em companhia do Anjo é a exaltação da jornada de Tobias ao plano místico, em direção a Ecbatana ou Hamadan.