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A Ascensão Celestial (Mi'raj-Namah)
O Relato do Pássaro constitui a efetivação mental da jornada ao Oriente iniciada no final do relato de Hayy ibn Yaqzan através de um arquétipo de ascensão.
O motivo da ascensão celestial é um arquétipo cujas exemplificações na história das religiões transcendem a causalidade histórica.
Hermes, ao dirigir—se a seu discípulo Tat, convida—o a uma jornada ascendente cujo objetivo corresponde ao proposto por Hayy ibn Yaqzan.
Na mística islâmica, essa ascensão toma a forma de um ta'wil (exegese espiritual) do mi'raj do Profeta.
O Mi'raj—Namah é atribuído pela maioria dos manuscritos a Avicenna, mas alguns o atribuem a Suhrawardi.
O relato pressupõe que o narrador revive pessoalmente a condição espiritual exemplar tipificada no Mi'raj.
A visão plástica do símbolo é destruída quando comentadores o reduzem a uma alegoria ou sistema de representações racionais.
O gnosticismo valentiniano, o Hino da Alma nos Atos de Tomé e o Corpus Hermeticum são citados como paralelos históricos dessa visão.
Asín
Palacios e Enrico Cerulli demonstraram a influência dessas representações escatológicas islâmicas na obra de Dante.
O místico iraniano Abu Yazid Bastami utilizou uma ascensão espiritual ao trono divino através dos estágios percorridos por Muhammad.
Haydar Amuli mantém a tese de que o verdadeiro xiita é o Sufi, valorizando a experiência interior da ascensão.
A narrativa descreve a libertação de uma alma que, sob a forma de um pássaro, atravessa sucessivas esferas celestiais até o santuário do Rei.
O estado inicial do visionário é caracterizado por um sono que é, na verdade, o despertar da consciência comum para o mundo místico.
Gabriel desce com majestade e beleza, sendo identificado pelo comentador como o Espírito Santo que se une à alma do Profeta.
O arcanjo Michael é apresentado no final da ascensão como o maior dos anjos e o verdadeiro Espírito Santo.
A montaria mística Buraq representa a Inteligência Ativa que deve ser pacificada por um poder sagrado antes da iluminação.
As vozes que ordenam a parada durante a jornada são identificadas como as faculdades cogitativa e imaginativa da consciência natural.
Três taças de vinho, mel e leite representam os pneumas vital, físico e pensante, devendo o peregrino escolher a independência dos dois primeiros.
A travessia das oito montanhas corresponde às nove esferas celestiais que constituem o Monte Qaf como montanha cósmica.
O Oitavo Céu é descrito como o lugar das Estrelas Fixas, habitado por anjos espirituais absorvidos em alegria glorificante.
O Rei é descrito como possuidor de toda perfeição, sendo todo Face por sua beleza e todo Mão por sua generosidade.
O Pássaro como Símbolo
A imagem da alma como um ser alado é um arquétipo recorrente que permite ao indivíduo perceber sua totalidade e sua origem celestial.
Platão, no Fedro, oferece uma das exemplificações mais desenvolvidas da alma como um par de corcéis alados dirigidos por um cocheiro.
O voo é a tentativa de carregar o que gravita para baixo em direção à região superior, que é a morada dos deuses.
A perda das asas significa a captura e o aprisionamento da alma em um corpo terrestre onde predomina o elemento terra.
O Saltério Maniqueísta utiliza o símbolo da alma como um pássaro estrangeiro cujas asas foram quebradas por caçadores da morte.
Gérard de Nerval descreve em seu sonho um ser de imensa estatura com asas brilhantes que cai em um pátio escuro, assemelhando—se ao Anjo da Melancolia de Dürer.
A jornada para o Oriente é o seguimento dos pressentimentos que são memórias da família celestial preterrestre.
O Simurgh ou o pássaro Anqa figuram como representações de Gabriel, da Inteligência Ativa e do Espírito Santo.
Richard Wagner, em Parsifal, é mencionado pela ideia de que apenas a lança que causou a ferida pode fechá—la, ecoando a necessidade de retornar a quem impôs os laços.
De Avicenna a Attar
A mística persa desenvolveu o ciclo do pássaro através de diferentes estágios, culminando na experiência de identidade entre o buscador e o buscado.
O relato de Abu Hamid Ghazzali descreve a peregrinação exaustiva das aves em busca do pássaro Anqa em uma ilha inacessível.
Ghazzali enfatiza a independência absoluta do Rei e a consciência da própria indignidade das aves como caminho para a recepção.
Ahmad Ghazzali, irmão do teólogo, traduziu o relato para o persa, harmonizando—o com sua paixão mística pelo amor puro.
Faridaddin
Attar, em sua epopeia Mantiq al—Tayr, descreve a travessia de sete vales místicos: busca, desejo, conhecimento, independência, unidade, estupor e nudez.
Das milhares de aves que iniciaram a jornada de
Attar, apenas trinta (si—murgh) sobreviveram para alcançar o palácio.
O encontro final revela que o Simurgh eterno é o espelho onde as trinta aves (si—murgh) contemplam sua própria face.
A experiência de
Attar ultrapassa o dualismo, estabelecendo uma identidade na diferença onde o olhar que conhece Deus é o mesmo pelo qual Deus conhece o homem.
Joseph (Yusuf) é citado por
Attar como a figura arquetípica da beleza celestial traída pelos próprios irmãos, simbolizando a traição da alma ao seu próprio Anjo.