RELATO DE SALAMAN E ABSAL

HCARV

As duas versões do recital

A diferenciação entre as duas variantes distintas do recital de Salaman e Absal constitui a premissa fundamental para a compreensão da literatura mística persa, frequentemente obscurecida pela confusão entre ambas.

A segunda versão do recital manifestou—se a Nasir Tusi duas décadas após seu trabalho inicial sobre o Isharat, sendo a única considerada verdadeiramente consoante com as intenções de Avicena.

O nono namt da terceira parte do Isharat dedica—se à exposição das estações ou estágios místicos dos iniciados e gnósticos, conhecidos como arifun.

A interpretação da alusão de Avicena exigiu uma exegese espiritual pessoal, tarefa à qual se dedicaram comentadores como Fakhraddin Razi e Nasir Tusi.

A intuição de Fakhraddin Razi identificou em Salaman a representação de Adão e em Absal a figura do Paraíso, integrando o mito do Antroppos e a história da Psique.

Nasir Tusi enfatizou os símbolos da busca e do seu objeto, onde Salaman seria o herói buscador e Absal a meta alcançada gradualmente.

A descoberta da versão aviceniana por Nasir Tusi forneceu a chave para a referência enigmática do Isharat, embora o texto completo original de Avicena não tenha sobrevivido.

A versão hermética de Salaman e Absal

A variante hermética do recital exibe traços de simbolismo alquímico empregados para registrar as fases da transmutação espiritual do homem carnal no homem espiritual.

O rei Hermanos, filho de Heraql, governante do Império Bizantino e da Grécia em tempos anteriores ao dilúvio, possuía conhecimentos profundos de teurgia e astrologia.

Uma jovem de grande beleza chamada Absal foi encarregada de nutrir e cuidar de Salaman durante sua infância.

O afeto de Salaman por Absal transformou—se em amor apaixonado, levando o jovem a negligenciar o serviço real e os deveres para com seu pai.

A tentativa de compromisso entre os estudos científicos e o tempo com Absal falhou, pois Salaman permanecia obcecado pela companhia da jovem.

O poema de Jami introduz os amantes Wamiq e Azra para expressar a busca pela união mística e a abolição da dualidade.

Salaman e Absal lançaram—se ao mar, resultando na morte de Absal por afogamento, enquanto Salaman foi poupado por ordem do rei.

O amor pela imagem ideal estabeleceu—se permanentemente na alma de Salaman, transfigurando Absal através da sublimação e tornando—a sua companheira eterna.

A concordância entre o romance hermético e a definição de Avicena reside na descrição das fases da iniciação espiritual como metamorfoses internas do herói.

O simbolismo da alma não é redutível a um sistema racional fechado, exigindo sugestões hermenêuticas para decifrar as fases da consciência do adepto.

A versão aviceniana de Salaman e Absal

A autenticidade da versão aviceniana encontrada por Nasir Tusi é sustentada pelo catálogo de Juzjani e pela referência explícita feita por Hayy ibn Yaqzan no tratado sobre o destino.

O recital descreve, em forma dramática, as experiências e estágios da via mística que a exposição teórica do Isharat tenta analisar.

O relâmpago que corta as nuvens não é mera êxtase, mas o evento psíquico que desperta o intelecto contemplativo para a realidade das coisas sensíveis, iniciando suas batalhas.

A tipificação das duas faces da alma possui raízes na literatura hermética e no gnosticismo cristão preservado por Zosimos de Panópolis.

A biografia espiritual do arif culmina em um estado onde ele está ausente embora presente, em jornada embora permaneça onde está.