3. INICIAÇÃO AO ESOTÉRICO COMO INICIAÇÃO AO SEGREDO DO VERBO DOS PROFETAS

HCHA

III. A iniciação no esotérico como iniciação no segredo do Verbo dos profetas

O ensino do Sábio ao seu novo discípulo começa pela cosmogonia, que explica as leis do setenário e da dodecada como fundamento das correspondências entre os mundos.

Na origem das origens, o Princípio instaura uma Luz da qual procedem três Verbes designados como Vontade, Imperativo interior e Imperativo proferido.

Dessas sete letras procedem sete coisas: da Luz primeira criada cria-se o Espaço; dos três Verbes criam-se respectivamente a Água, a Treva e a luz visível; desta segunda tríade procedem respectivamente a fumaça ou vapor cósmico, o limo e o fogo.

Os nomes que designam os três Verbes totalizam doze letras em sua grafia árabe, primeira manifestação da dodecada, cujos signos no Céu são os doze signos do Zodíaco e na Terra são as doze jazira.

Todas as coisas que procedem das sete fontes originárias foram dispostas em díades ou pares, e nisso mesmo está encerrado o mistério do nascimento eterno da “Religião” que é gnose.

Para essa Religião que é gnose e luz, Deus instituiu na terra uma elite espiritual de homens que são os templos do Verbo profético, os tesouros de sua sabedoria e os hermeneutas de sua revelação, formando uma hierarquia esotérica cuja estrutura simboliza com a do universo.

A lei fundamental dessa cosmologia é que a díade do esotérico e do exotérico exemplifica a relação entre a confraria (o hierocosmo) e os fenômenos cósmicos (o macrocosmo).

O Sábio conclui sua exposição afirmando que o esotérico é a Religião divina professada pelos Amigos de Deus, enquanto o exotérico são as Leis religiosas e os símbolos dessa Religião.

O discípulo, então, manifesta seu assombro e sua angústia: por que os Sábios denigram o mundo e professam renunciar a ele, enquanto os Ignorantes se apaixonam por ele?

A resposta do Sábio é que, como os Ignorantes ignoram o sentido oculto que é o Espírito e a vida das coisas deste mundo, eles manipulam apenas um cadáver, e o mesmo ocorre com a religião.

O Sábio explica ainda, a propósito da hermenêutica dos sonhos do Faraó por José, que Deus não diz “que este mundo não vos seduza”, mas “que a vida deste mundo não vos seduza”.

A pedagogia ismaeliana não opõe um dogma a outro dogma, nem inicia a um dogma, mas ensina a descobrir o sentido oculto de todas as coisas, ilustrando a divisa do segundo Fausto: “Todo o efêmero não passa de símbolo”.

O diálogo então se volta para um exercício prático sobre a simbólica, e a aptidão para decifrar os símbolos e pensar em símbolos é o que determina as categorias dos humanos.

O discípulo, tonto diante do abismo, pede para retornar aos conhecimentos deste mundo e seus símbolos, e o Sábio lhe diz ironicamente que seu intelecto está ofuscado.

O Sábio mostra que as condições de inteligibilidade de toda proposição formam uma tríade (nome, qualificação, sentido), e a estrutura do ovo (casca, clara, gema) serve como símbolo.

A esses três modos de conhecer e compreender uma coisa (modi intelligendi) correspondem três modos de ser (modi essendi).

O discípulo pergunta como ousar visar o nível a que Deus eleva seus amigos, e o Sábio responde que é possível ajudar, mas não criar o resultado.

O Sábio então usa a invocação piedosa lâ hawl wa lâ qowwat illâ bi’llâh (“não há força e poder senão por Deus”) para ensinar sobre a passagem do Verbo divino ao Verbo humano.

O profeta que falou a Revelação não está mais presente, deixando aos homens o “Livre falado” por ele, e para que o Espírito vivifique esse corpo é necessário que ele seja permanentemente o “Livre falante” (Qorân nâtiq), qualificação que o xiismo dá ao Imã.

O diálogo conduz à questão sobre aquele que tem a ciência do bâtin mas negligencia o zâhir, e aquele que se apega ao zâhir sem conhecer o bâtin.

O Sábio afirma que tomar posição neste mundo sem o olhar dos Sábios, à luz da Vida no sentido verdadeiro, é da mesma ordem que perseguir uma ciência que ignora a realidade do mundo supremo.

Os espíritas, os “professos” da Religião esotérica (Ahl al-Dîn), formam uma hierarquia que não depende de nenhuma circunstância exterior, sendo a capacidade espiritual o único critério.

O discípulo, pronto a engajar toda sua alma e fortuna, pede para conhecer o limite ao qual deve tender o máximo de seu esforço, e o Sábio, comovido, recusa sua fortuna.

O discípulo pergunta quem é esse cuja nobreza é tal que o Sábio não transgrediria seu julgamento nem sua ordem.

O discípulo então pergunta se não é chegada a hora de ser conduzido ao Templo de luz do Imã, e o Sábio concorda, com a condição de que a permissão venha do próprio Imã.

O Sábio deve se ausentar para ir até aquele que designa como seu “pai maior” (al-wâlid al-akbar), o “Xeique”, um dignitário ismaelita de grau superior na hierarquia esotérica.

O Sábio anuncia ao discípulo que Deus projetou no coração de seu Amigo (Walî, o Imã ou seu substituto) a Misericórdia para com ele, e que irá conduzi-lo ao que faz sua esperança.