4. RITUAL INICIÁTICO

HCHA

IV. O ritual de iniciação e o mistério do nome

Os dois peregrinos chegam à residência do Xeique — sem qualquer precisão topográfica, pois o relato vai sempre ao essencial, ao que ocorre no interior das almas — e uma primeira entrevista de protocolo, em que o Xeique os manda acomodar na hospedaria com o maior cuidado, revela que o mordomo-hospedeiro faz parte da fraternidade ismaelita e já conhecia a fama do discípulo.

No dia seguinte, o Xeique pronuncia um sermão emotivo que inaugura o ritual de iniciação — texto litúrgico de uma cerimônia regularmente observada na recepção de cada novo membro da fraternidade ismaelita.

O diálogo litúrgico de iniciação — do qual não se conhecem outros exemplos na literatura ismaelita — articula-se em torno do “fenômeno do nome” e do mistério do nascimento espiritual.

O vínculo entre o nome e o nascimento espiritual revela que o nome recebido na iniciação — o nome de tariqat no sufismo — é o único verdadeiro nome próprio da pessoa, enquanto todos os nomes profanos são apenas nomes comuns que não fazem sair do anonimato espiritual.

A teoria dos Nomes divinos, amplamente sistematizada dois ou três séculos depois pelo grande teósofo místico Ibn Arabi — cujas fontes xiitas não podem ser ignoradas — ilumina o mistério do nome iniciático.

Após a cerimônia, o discípulo e o Sábio passam sete dias em conversações espirituais; ao sétimo dia, o jovem faz ablução completa, veste roupas novas e retorna ao Xeique para o momento culminante do ritual.

A conclusão do autor após a cerimônia oferece um exemplo notável de tawil: a peregrinação (hajj) é reinterpretada em sentido esotérico como obra de toda uma vida espiritual.

A cena de despedida entre o Xeique e o novo iniciado sintetiza os dois temas centrais do romance — a ressurreição dos mortos e a ética do depósito confiado — e constitui o momento de maior carga emocional do livro.

Na última conversa entre o Sábio e o discípulo — às portas da aldeia — as recomendações finais reiteram a ética do depósito confiado como viático do novo iniciado.

A primeira parte do romance — a Demanda da gnose, do chamado à iniciação — encerra-se aqui, e a segunda parte começa quando Salih retorna ao lar para convocar à resurreição dos mortos seu próprio pai, o xeique al-Bokhtori, cujo nome profano o leitor descobre apenas agora: Salih, “o justo, aquele que tem aptidão.”