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IV. O ritual de iniciação e o mistério do nome
Os dois peregrinos chegam à residência do Xeique — sem qualquer precisão topográfica, pois o relato vai sempre ao essencial, ao que ocorre no interior das almas — e uma primeira entrevista de protocolo, em que o Xeique os manda acomodar na hospedaria com o maior cuidado, revela que o mordomo-hospedeiro faz parte da fraternidade ismaelita e já conhecia a fama do discípulo.
O mordomo pergunta ao Sábio: “É este o jovem de quem temos ouvido falar?” — ao que o Sábio responde: “Sim, é aquele cuja notícia causa alegria nos corações.”
O discípulo se emociona: “Minha história chegou até os Amigos de Deus e falam de mim em suas reuniões.”
No dia seguinte, o Xeique pronuncia um sermão emotivo que inaugura o ritual de iniciação — texto litúrgico de uma cerimônia regularmente observada na recepção de cada novo membro da fraternidade ismaelita.
O sermão proclama: “É um carisma dispensado às inteligências o consagrar-se à busca (talab, a Demanda); o desfecho da busca é o ato de encontrar. O sinal que marca o ato de encontrar é a doçura que se saboreia no que se encontra. De qualquer água doce o aparente (o exotérico) é o que se bebe. Mas o oculto (o esotérico) está velado. Quem o busca nunca se cansa de meditar, enquanto o comum das gentes (os exoteristas) nada compreende do que aquele busca.”
O sermão precisa que essa busca da gnose é um direito e, por ser um direito, é também um dever — e quem se recuse a satisfazê-lo é um malvado e um iníquo.
O sermão termina com o versículo corânico: “Ninguém alcançará essa perfeição senão aqueles que perseveram. Ninguém a alcançará senão os que receberam uma parte imensa” (41,35).
O diálogo litúrgico de iniciação — do qual não se conhecem outros exemplos na literatura ismaelita — articula-se em torno do “fenômeno do nome” e do mistério do nascimento espiritual.
O Xeique saúda o discípulo: “Ó cavaleiro! (Ya fata!) Foste honrado com um amigo que veio a ti como mensageiro… Qual é o teu nome?”
O discípulo responde: “Obayd Allah ibn Abdillah” (“Pequeno servidor de Deus filho do servidor de Deus”) — qualificação comum a qualquer crente anônimo, ainda não um nome próprio.
O Xeique pergunta: “Quem te libertou da servidão para que te tornasses um homem livre?” — o discípulo aponta o Sábio, e o Xeique replica: “Mas se ele mesmo era servidor e não Senhor, tinha acaso a capacidade de te libertar?” — ao que o discípulo responde: “Não, não a tinha.”
O Xeique pergunta então: “Qual é, então, o teu Nome?” — e o discípulo, estupefato e perplexo, baixa os olhos sem responder.
O Xeique: “Ó cavaleiro! Como conhecer alguém que não tem nome, embora haja nascido?”
O discípulo: “Mas sou um recém-nascido de ti; dá-me tu um nome.” — O Xeique anuncia que o fará após sete dias, por respeito ao recém-nascido.
Diante da pergunta se o nome lhe pertencerá, o Xeique responde: “Então serias um ídolo! (maàbud) É o nome que é teu senhor (malik) e tu seu servidor (mamluk).”
O vínculo entre o nome e o nascimento espiritual revela que o nome recebido na iniciação — o nome de tariqat no sufismo — é o único verdadeiro nome próprio da pessoa, enquanto todos os nomes profanos são apenas nomes comuns que não fazem sair do anonimato espiritual.
Um ser não assume uma individualidade nem sai do anonimato até que possa ser nomeado por seu nome próprio espiritual.
Só o nome recebido na iniciação vale para o além-mundo e deve ser mantido inicialmente em segredo diante da sociedade profana.
Um homem não pode ter um nome próprio se não é um homem livre, se não ressuscitou de entre os mortos — se não recebeu a iniciação e passou pelo novo nascimento espiritual (wiladat ruhaniya).
Sendo o Imã a fonte da iniciação, é a ele que incumbe a iniciativa de conferir o nome próprio.
A imposição iniciática do nome equivale a suscitar no iniciado o Verbo divino a cujo serviço estará doravante — do qual será “cavaleiro” — mas que deve ser mantido em segredo diante do profano.
Se a desgraça fizer com que revele esse nome, isso significará para ele, literalmente, o drama do Verbo perdido — terá “perdido a Palavra.”
A teoria dos Nomes divinos, amplamente sistematizada dois ou três séculos depois pelo grande teósofo místico Ibn Arabi — cujas fontes xiitas não podem ser ignoradas — ilumina o mistério do nome iniciático.
Todo nome próprio é um nome teóforo — nome portador-de-Deus — e quem o carrega não é seu proprietário, mas a propriedade desse Nome.
Entre o Nome e o nomeado (Ism e mosammà) há a mesma relação que entre Rabb (o Deus determinado como Senhor personalizado) e o marbub (o fiel de quem ele é pessoalmente o Senhor) — solidários um do outro, cada um necessitando do outro.
É a relação com seu Nome que determina a individualidade espiritual do iniciado — sua heceidade — que é o que o faz sair do anonimato espiritual.
Após a cerimônia, o discípulo e o Sábio passam sete dias em conversações espirituais; ao sétimo dia, o jovem faz ablução completa, veste roupas novas e retorna ao Xeique para o momento culminante do ritual.
O instante é solene — o Xeique deve dizer o indizível, e o leitor do relato é mantido na ignorância dessa revelação.
O texto diz que o Xeique “começa a dizer o que os pensamentos não podem limitar, o que as penas não podem registrar, o que não subiu ao coração de nenhum homem — algo demasiado sublime para ser dito explicitamente num livro; algo que só pode ser revelado pessoalmente a quem é digno de escutá-lo.”
A conclusão do autor após a cerimônia oferece um exemplo notável de tawil: a peregrinação (hajj) é reinterpretada em sentido esotérico como obra de toda uma vida espiritual.
O texto diz que o novo iniciado conheceu então seu Senhor e que, agarrando-se ao “cabo sólido”, tornou-se lícito realizar os ritos de peregrinação, as circum-ambulações ao redor da Kaaba e chegar ao “Sinal maior” — mas geograficamente não houve deslocamento a Meca.
Em sentido esotérico, a peregrinação é o abandono progressivo das antigas crenças (o apego ao exotérico puro) e a progressão gradual do grau de neófito (mostajib) até o de hojjat, o mais próximo do Imã.
Dar a volta ao redor da Kaaba significa aproximar-se do Imã, que é sempre a Qibla — o eixo de orientação da peregrinação — e o próprio ponto de chegada, o “Sinal maior.”
O iniciado conheceu então seu Senhor, evocando a máxima frequentemente repetida: “Quem se conhece a si mesmo (nafsa-ho, sua alma) conhece a seu Senhor” — e nos comentários dos teósofos xiitas, o Imã aparece frequentemente como imagem ou símbolo desse “si mesmo.”
A cena de despedida entre o Xeique e o novo iniciado sintetiza os dois temas centrais do romance — a ressurreição dos mortos e a ética do depósito confiado — e constitui o momento de maior carga emocional do livro.
O discípulo diz ao Sábio: “Que Deus te recompense! Assim fala aquele que estava morto e a quem tu deste a vida.” — e o Sábio responde que sua petição foi satisfeita, pois “a gnose lhe deu a vida além da morte” (a segunda morte não tem poder sobre os que a gnose ressuscitou, cf. Ap 20,6).
O Xeique diz ao iniciado: “Dou-te permissão e te autorizo a partir… Te recomendo a piedade vigilante para com Deus que te criou; te encomendo a custódia do depósito confiado de que estás doravante encarregado.”
O Xeique e o novo iniciado se abraçam, se despedem — nenhum dos dois consegue reter as lágrimas nem articular palavra.
Na última conversa entre o Sábio e o discípulo — às portas da aldeia — as recomendações finais reiteram a ética do depósito confiado como viático do novo iniciado.
O Sábio diz: “A vigilância e a discrição (taqiya) são os anjos de tua religião e tua conduta.”
O texto conclui: “Quando o Sábio houve conduzido o discípulo até lugar seguro e houve terminado de alimentá-lo como uma mãe, disse-lhe: 'Ó meu filho! Agora te toca a ti encarregar-te de ti mesmo, pois devo ocupar-me de outros e não de ti. O momento da separação chegou.'”
A Demanda da gnose, chegada ao seu termo, exige entrar numa nova Demanda — a busca de alguém a quem transmitir o depósito — conforme ao princípio ismaelita: o fiel não é um verdadeiro fiel até ter feito de outra pessoa um fiel semelhante a ele.
A primeira parte do romance — a Demanda da gnose, do chamado à iniciação — encerra-se aqui, e a segunda parte começa quando Salih retorna ao lar para convocar à resurreição dos mortos seu próprio pai, o xeique al-Bokhtori, cujo nome profano o leitor descobre apenas agora: Salih, “o justo, aquele que tem aptidão.”
O nome de iniciação permanece em segredo — apenas o nome profano, Salih, é revelado.
O reencontro entre pai e filho, dadas as circunstâncias em que Salih havia deixado a casa familiar, faz presagiar um reencuentro tempestuoso.