2. ROMANCE INICIÁTICO

HCHA

II. Um romance iniciático ismaelita do século X

O texto árabe inédito intitulado “O Livro do Sábio e do Discípulo” (Kitab al-alim wa'l-gholam) pertence ao gênero do romance iniciático e expõe, em esquema ideal, o sentido e o processo de tornar-se ismaelita.

A estrutura dramática do romance não é nem narrativa em primeira ou terceira pessoa nem diálogo platônico, mas uma encenação dialogada com personagens distintos, deslocamentos e ação progressiva comparável aos mistérios medievais.

O prólogo do romance apresenta, sob a forma de monólogo interior do dai, os dois grandes leitmotivs que estruturam toda a obra: a ressurreição dos mortos e a ética do depósito confiado.

A ressurreição dos mortos, primeiro leitmotiv, refere-se aos mortos no sentido verdadeiro — os espiritualmente mortos pela ignorância — e é provocada pelo tawil, hermenêutica que promove todas as coisas ao nível de símbolos e opera a nova nascença espiritual.

O segundo leitmotiv — a ética do depósito confiado — impõe ao gnóstico a consciência de não ser o último elo da cadeia da gnose (silsilat al-irfan) e o dever de transmiti-la, configurando uma dupla busca.

O Sábio persa partiu de sua terra em viagem missionária porque, sem encontrar o discípulo a quem transmitir o depósito, permanece pobre — assim como foi pobre antes de encontrar a gnose — e sua metodologia de busca do discípulo revela a pedagogia espiritual ismaelita.

A chegada do Sábio a uma aldeia desconhecida ao entardecer e o encontro com os habitantes num estabelecimento de reunião ilustram de forma exemplar essa pedagogia.

O diálogo inicial entre o Sábio e o jovem discípulo reproduz os dois leitmotivs centrais e inaugura o processo pedagógico da gnose ismaelita.

A questão da seleção espiritual implicada pelo esoterismo é respondida pela ética do depósito confiado, que exclui qualquer mérito pessoal e aponta para a preservação da integridade da Palavra.

O Sábio corrige a ilusão do discípulo de que já não seria ignorante, demonstrando que a ignorância intrínseca é comum a quem ainda não tem experiência pessoal do Imã.

O discípulo é convidado a abraçar um ecumenismo teológico das religiões que o ismaelismo talvez tenha sido o primeiro a formular, percebendo a sucessão das religiões segundo o esquema do hexâemero.

As cinco condições impostas pelo Sábio ao discípulo para aceitar ser seu guia definem a ética da relação iniciática.

Após um período de incubação marcado por encontros e separações alternados, o Sábio confronta o discípulo com sua responsabilidade por meio da imagem da chave que torna lícita ou ilícita a Religião.

O engajamento do discípulo, cuja fórmula o texto não revela, marca sua entrada no partido de Deus e no partido dos Amigos de Deus.