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Roger Munier considera que este ensaio explora a necessidade da redescoberta de uma «Palavra perdida», oculta sob o sentido literal das Escrituras. Nas três grandes «religiões do Livro» originárias da tradição abraâmica: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, o Livro comanda. Ele é Palavra revelada, Escritura santa. Mas se o sentido profundo deste Livro se dissimula sob a literalidade das palavras, desde o instante que se fica nesta literalidade, mutila-se a integralidade da Palavra. O drama da «Palavra perdida» que se abre então toma inumeráveis formas. Ele se resume na tensão que opõe, ao nível da iniciação, os defensores da religião esotérica, ligada ao sentido espiritual e interior do texto, àqueles da religião exotérica, que quer aquela de todos, «igualitária e literal». Corbin retoma os dados deste conflito sempre atual a partir do comentário de um romance iniciático ismaeliano do século X, até então inédito: O Livro do Sábio e do Discípulo.
O drama comum às religiões abraâmicas consiste na perda do sentido interior da Palavra revelada, que mutila a integridade do Verbo divino quando ignorado ou recusado.
As três grandes tradições da Ahl al-Kitâb — judaísmo, cristianismo e islã — compartilham esse drama centrado no fenômeno do Livro sagrado revelado.
O sentido verdadeiro do Livro é o sentido interior, oculto sob a aparência literal.
A recusa desse sentido interior inaugura o drama da Palavra perdida.
Esse drama se manifesta tanto no nominalismo filosófico quanto no literalismo teológico, e sua superação exige o reencontro com o sentido esotérico do Verbo, não um mero progresso linguístico.
Em filosofia, o nominalismo e o agnosticismo são expressões desse drama.
Em teologia, o literalismo — seja o dos piedosos agnósticos temerosos da gnose, seja o de uma teologia que rivaliza com a sociologia — representa uma teologia que perdeu seu Logos.
A recuperação da Palavra perdida ultrapassa os recursos da linguística moderna.
O sentido esotérico provoca temor ou desdém nos exegetas que professam uma exegese “rente ao chão”.
A visão do cavaleiro sobre o cavalo branco no capítulo XIX do Apocalipse, comentada por Swedenborg, ilustra o drama da Palavra perdida e a possibilidade de seu reencontro pelo sentido interior.
O texto joanino descreve um cavaleiro chamado Fiel e Verdadeiro, com olhos como chama de fogo, vestido com manto tingido de sangue, cujo nome é a Palavra de Deus.
Swedenborg afirma ser impossível compreender os detalhes dessa visão sem perceber seu sentido interior, esotérico.
Não se trata de alegorizar a visão nem de destruir suas configurações concretas, mas de perceber o que cada aparência real anuncia.
Swedenborg interpreta cada elemento da visão como símbolo do sentido espiritual da Palavra e de sua inteligência interior.
O “Céu aberto” significa que o sentido interior do Verbo pode ser visto por aqueles a quem o Céu interior está aberto neste mundo.
O “cavalo branco” representa a inteligência espiritual da Palavra quanto às realidades interiores.
O cavaleiro é o Senhor enquanto Verbo, pois seu nome é Verbo de Deus.
O Nome que ninguém conhece senão ele mesmo significa que só ele — e aqueles a quem o revela — vê o Verbo em seus significados interiores e esotéricos.
O manto tingido de sangue significa a Palavra em sua realidade literal, que sofre violências cada vez que se recusa seu sentido interior.
As hostes celestes sobre cavalos brancos e vestidas de branco designam todos os que possuem a inteligência espiritual da Palavra e percebem seus sentidos esotéricos.
A brancura das vestes significa a verdade que está na luz do Céu — a verdade interior de origem celestial.
Os Arcana caelestia de Swedenborg acumulam textos bíblicos nos quais cavalo e cavaleiro sempre simbolizam o intelecto e a inteligência espiritual.
O comentário de Swedenborg tipifica o drama das religiões do Livro e ressoa com a perspectiva escatológica da gnose xiita, especialmente a tradição ismaelita, à qual pertence o romance iniciático a ser analisado.
A hermenêutica de Swedenborg emprega os mesmos princípios da hermenêutica espiritual praticada nos outros ramos da tradição abraâmica.
O ismaelismo, que deve seu nome ao Imã Ismail, filho do sexto Imã Jafar al-Sadiq (morto em 765), representa por excelência a tradição da gnose esotérica no islã, ao lado dos teósofos do imamismo duodecimano.
O islã sunita majoritário dos doutores da Lei manteve atitude negativa em relação a essa tradição esotérica — o que configura o drama em questão.
A gnose ismaelita e a hermenêutica de Swedenborg compartilham cinco traços fundamentais que revelam a profunda ressonância entre os ramos da tradição abraâmica.
Para a gnose ismaelita, o sentido interior e espiritual esotérico da Revelação corânica é o sentido verdadeiro — o que a diferencia do literalismo da religião islâmica oficial, que “perdeu a Palavra” ao recusar o sentido oculto do Verbo divino.
Aos olhos do esotérico ismaelita, o Verbo divino aparece coberto por um manto tingido de sangue, sinal das violências sofridas pelos exoteristas e doutores da Lei que o mutilam ao recusar seu Espírito e sua Vida.
Os ismaelitas se expressaram com realismo trágico equivalente: os doutores da Lei fizeram dessa Palavra divina um cadáver.
O Imã, no sentido xiita, é o homólogo do cavaleiro branco do Apocalipse interpretado por Swedenborg, sendo simultaneamente o dispensador e o conteúdo do sentido espiritual esotérico.
O Imã é ao mesmo tempo o hermeneuta e a hermenêutica — ele é o “Livro falante”, o Corão falante (Qorân natiq).
Swedenborg identifica o poder do cavaleiro branco com o “poder das chaves” (potestas clavium) — não como magistério jurídico da Igreja, mas como inteligência espiritual que é a chave da Revelação.
No romance iniciático a ser analisado, chaves têm o poder de abrir o acesso ao mundo espiritual invisível.
Swedenborg afirma que o Verbo divino une o Céu e a Terra e por isso é chamado de Arca da Aliança — imagem que reaparece no romance iniciático como símbolo da Religião absoluta e do esoterismo comum aos três ramos abraâmicos.
Para Swedenborg, o homem regenerado já habita o sentido interior do Verbo divino, pois seu “homem interior” está aberto ao Céu espiritual — e a morte física é apenas o momento em que ele toma consciência dessa pertença.
O homem regenerado pela inteligência espiritual do Verbo já convive com os Anjos enquanto vive no corpo material.
A morte física é a passagem em que ele se torna consciente dessa pertença celestial.
O Apocalipse (XX, 6) declara que a “segunda morte” não tem poder sobre os regenerados.
Para os teósofos ismaelitas, o filósofo Nasiruddin Tusi (século XIII) analisou com precisão que o fruto da iniciação espiritual é preservar o iniciado da “segunda morte”.
O sentido verdadeiro da morte é a morte espiritual — os mortos espiritualmente nunca saem deste mundo, pois sair exige ser um ressuscitado pela nova nascença espiritual.
A iniciação ismaelita é a entrada no “paraíso em potência” (jinnat fi'l-qowwat).
A presença contínua do Imã no mundo é condição indispensável para que o acesso ao sentido esotérico permaneça aberto e a ressurreição dos mortos espirituais seja possível.
Sem o Imã, o Corão é apenas um Imã mudo (samit) — a Palavra está perdida e não há ressurreição dos espiritualmente mortos.
O Imã, como dispensador do sentido espiritual esotérico, participa do carisma profético e deve perpetuar-se no mundo mesmo após o Profeta do islã, “Selo” dos profetas enviados para revelar uma nova Lei.
Para o esotérico ismaelita, o drama do islã sunita consiste precisamente na ausência desse carisma profético contínuo.
Os Espirituais cristãos da Idade Média também afirmavam que o tempo dos profetas não estava encerrado — consonância perfeita com a posição ismaelita.
O encerramento da profecia é, de ambos os lados, o drama da Palavra perdida, que torna impossíveis a ressurreição dos mortos espirituais e a preservação contra a “segunda morte”.
No ritual de iniciação ismaelita, é o Imã quem confere ao iniciado o Nome que lhe é próprio — tornando-o “cavaleiro” a serviço desse Nome.
Esotéricos xiitas e ismaelitas estiveram em busca do Imã — chamado “Amigo de Deus” — assim como os cristãos medievais estiveram em busca do Santo
Graal.
Nenhum estudo completo e aprofundado foi tentado até aqui sobre a tensão vivida no islã e na cristandade entre a religião espiritual esotérica e a religião exotérica, legalitária e literal.