ENTRE A ANDALUZIA E O IRÃ: NOTAS SOBRE UMA TOPOGRAFIA ESPIRITUAL

A Imaginação criativa da qual trata este livro não é a fantasia profana nem o órgão de criações estéticas, mas uma função absolutamente básica, correlacionada com um universo dotado de existência perfeitamente “objetiva” e percebido precisamente pela Imaginação.

Os dois ensaios que compõem a maior parte do livro não pretendem fornecer uma monografia sobre Ibn Arabi, cuja interpretação global ainda exigirá incontáveis estudos preliminares, mas sim meditar em profundidade, com a ajuda dos próprios textos, sobre certos temas que percorrem a obra como um todo.

A Imaginação de que se fala é criativa porque é essencialmente Imaginação ativa e porque sua atividade a define como Imaginação teofânica — função tão inédita em relação à visão comum e inofensiva da “imaginação” que se poderia designá-la pelo neologismo Imaginatrix.

Para situar adequadamente Ibn Arabi é necessário romper com dois velhos hábitos: cessar de traçar uma linha divisória entre a história da filosofia e a história da espiritualidade, e abandonar a imagem que os manuais persistem em apresentar ao confundir a filosofia no Islã com a “filosofia árabe” pura e simples, reduzida a cinco ou seis grandes nomes conhecidos pelos escolásticos latinos.

A coalescência entre a doutrina esotérica de Ibn Arabi e a teosofia da Luz de Sohravardi criou uma situação que conferiu importância crucial às relações entre Sufismo e Xiismo, e essa totalidade deve ser mantida presente para apreciar as consonâncias originais da obra de Ibn Arabi com o Xiismo.

A angelologia neoplatônica de Avicena, com a cosmologia a ela atrelada e sobretudo a antropologia que ela implica, foi o que provocou alarme entre os doutores da escolástica medieval e os impediu de assimilar o Avicenismo.

A angelologia aviceniana fornece o fundamento do mundo intermediário da pura Imaginação e tornou possível a psicologia profética sobre a qual repousava o espírito da exegese simbólica — o ta'wil fundamental tanto ao Sufismo quanto ao Xiismo.

É fundamental a distinção entre alegoria e símbolo: a alegoria é uma operação racional que não implica nenhuma transição a um novo plano de ser ou a uma nova profundidade de consciência, enquanto o símbolo anuncia um plano de consciência distinto do da evidência racional — “cifra” de um mistério, único meio de dizer algo que não pode ser apreendido de outra forma, nunca “explicado” de uma vez por todas, mas decifrado uma e outra vez.

A situação no Oriente é completamente diferente, resultando em particular da influência de dois mestres típicos: o jovem mestre iraniano Shihab al-Din Yahya Sohravardi (1155–1191) e o mestre andaluz Ibn Arabi (1165–1240), compatriota de Averróis, que aos trinta e seis anos resolveu partir para o Oriente, nunca mais retornando.

No Irã, revigorado pelo Neoplatonismo zoroastriano de Sohravardi, o Avicenismo entrou em uma nova vida que perdurou até os tempos modernos, preservando os Animae coelestes — a hierarquia das Almas angélicas rejeitadas pelo Averroísmo — bem como a existência objetiva do mundo intermediário, o mundo das Imagens subsistentes (alam al-mithal).

Na teosofia sohravardiana da Luz, toda a teoria platônica das Ideias é interpretada em termos da angelologia zoroastriana, e a física aristoteliana torna-se impossível: uma física da Luz só pode ser uma angelologia, pois a Luz é vida e a Vida é essencialmente Luz.

O desenvolvimento do pensamento filosófico no Islã não atingiu nem sua conclusão nem seu apogeu com Averróis, mas floresceu principalmente no Irã, em um processo em que os nomes de Sohravardi e de Ibn Arabi estão profundamente entrelaçados.

O ta'wil xiita — hermenêutica espiritual — não nega que a Revelação profética tenha se concluído com o profeta Maomé, o “selo da profecia”, mas postula que a hermenêutica profética não está concluída e continuará a produzir sentidos secretos até o “retorno”, a parusia, do Imã aguardado, “selo do Imamato” e sinal para a ressurreição das Ressurreições.

Sohravardi e Ibn Arabi situam-se no mesmo plano espiritual superior ao plano racional em que ordinariamente se discutem as relações entre teologia e filosofia, crença e conhecimento.

A data de nascimento de Ibn Arabi (17 Ramadan, 560/1165) coincide no calendário lunar com o primeiro aniversário da proclamação da Grande Ressurreição em Alamut — evento crucial da história do Ismaelismo iraniano — e esse sincronismo incomum introduz questões a serem estudadas no paralelo entre Ibn Arabi e a teologia xiita.

O problema do Intelecto e de sua relação com a Inteligência ativa prefigura e condiciona toda uma cadeia de desenvolvimento espiritual com consequências de largo alcance: ou cada ser humano é orientado para uma busca de seu guia invisível pessoal, ou se entrega à autoridade coletiva e magisterial como intermediária entre si mesmo e a Revelação.

Os três motivos exemplares que assumem caráter de símbolos para a caracterologia de Ibn Arabi — a testemunha do funeral de Averróis, o peregrino ao Oriente, o discípulo de Khidr — permitem seguir a curva de vida do shaikh e tornar-se mais intimamente familiar com ele.