FUNERAIS DE AVERRÓIS

HCIA

Ibn Arabi nasceu em Múrcia, no sudeste da Espanha, em 28 de julho de 1165, data que coincide com o primeiro aniversário lunar da proclamação da “Grande Ressurreição” em Alamut, no Irã.

A primeira experiência visionária de Ibn Arabi manifestou-se durante uma grave enfermidade na juventude, quando, em estado de letargia profunda, foi salvo de figuras demoníacas por um ser luminoso que se identificou como a Sura Yasim.

Duas veneráveis mestras sufis marcaram profundamente a juventude de Ibn Arabi — Yasmin de Marchena e Fatima de Córdoba —, sendo a segunda uma mãe espiritual cujo ensinamento estava orientado para uma vida de intimidade com Deus.

O encontro de Ibn Arabi com Averróis em Córdoba, narrado pelo próprio Ibn Arabi, revelou o abismo entre o conhecimento racional do grande peripatético e o conhecimento espiritual adquirido por iluminação direta.

A segunda cena do encontro triplo com Averróis deu-se numa êxtase em que Ibn Arabi viu o filósofo através de um véu luminoso, absorto em sua meditação, sem perceber a presença do místico.

O retorno dos restos mortais de Averróis a Córdoba — com o caixão de um lado e suas obras do outro, equilibrando-se sobre o animal de carga — tornou-se para Ibn Arabi um símbolo carregado de significado meditativo.

O episódio triplo com Averróis condensa em si mesmo a totalidade da figura de Ibn Arabi — o discípulo de Khidr que não deve seu conhecimento ao ensino humano, o autor do Livro das Teofanias com acesso pleno ao mundo intermediário suprassensorial, e o herdeiro espiritual dos platônicos persas.

O mesmo desejo — “como eu gostaria de saber” — ressurgiu em Ibn Arabi numa noite de melancolia pensativa durante a circumambulação da Caaba, quando recebeu a resposta dos lábios daquela que seria para ele, por toda a vida, a figura teofrânica da Sophia aeterna.

Ibn Arabi sabia que o triunfo espiritual não depende da filosofia racional nem de mudanças externas de pertencimento social ou religioso, mas de um encontro decisivo, pessoal e intransferível, fruto de uma longa busca que ocupou toda a sua vida.

Há ainda, na obra de Ibn Arabi, os fatores invisíveis e inaudíveis — as visitações de membros da hierarquia esotérica e invisível, as confrarias de seres espirituais que fazem a mediação entre cada existência e outros universos.

A probidade científica de Ibn Arabi manifestou-se em seu princípio de não falar jamais de opinião ou doutrina sem construir sobre declarações diretas de pessoas que fossem seus adeptos.