PEREGRINO DO ORIENTE

HCIA

A vida errante de Ibn Arabi começou por volta de seus trinta anos, quando entre 1193 e 1200 percorreu diversas regiões da Andaluzia e realizou várias viagens ao norte da África, numa inquietação que era apenas o prelúdio de uma chamada interior que o levaria para sempre ao Oriente.

Em Túnis, numa tarde recolhido numa alheta de oração da Grande Mesquita, Ibn Arabi compôs um poema que não comunicou a ninguém e sequer pôs por escrito, conservando apenas na memória o dia e a hora da inspiração.

Nas peregrinações andaluzas, Ibn Arabi travou uma longa discussão com um escolástico mutazilita em Ronda, e em Túnis iniciou o estudo de uma obra de teosofia mística de excepcional importância.

O movimento dos Muridin de Ibn Qasi tinha como fonte original a escola de Almeria, à qual Asín Palacios inclinava-se a relacionar a iniciação esotérica de Ibn Arabi, escola essa que por sua vez remontava, através do mestre sufi Ibn al-Arif, a Ibn Masarra (falecido em 319/931) e suas doutrinas neoempedocleanas.

Em 1198 — ano do funeral de Averróis — Ibn Arabi estava em Almeria, onde aproveitou o mês de Ramadã para redigir em onze dias um opúsculo anunciador de suas grandes obras, intitulado Mawaqih al-nujum (“As órbitas das estrelas”).

Ibn Arabi presentiu que a vida na Andaluzia logo se tornaria impossível para ele, pois qualquer desvio do literalismo era suspeito de fomentar desordem política, e seu destaque tornava difícil passar despercebido.

A decisão de partir para o Oriente foi tomada em consequência de uma visão teofânica: Ibn Arabi contemplou o Trono de Deus sustentado por incontáveis colunas de fogo, cuja concavidade projetava uma sombra que tornava suportável e contemplável a luz do Entronizado, reinando nessa sombra uma paz inefável.

A segunda fase da vida errante de Ibn Arabi iniciou-se em 597/1200 e, entre viagens por diversas regiões do Oriente Próximo, culminou em sua instalação em Damasco, onde passaria os últimos dezessete anos de vida em paz e laboriosas obras.

A estada em Meca marcou o início da extraordinária produtividade de Ibn Arabi, cuja vida mística se intensificou nas circumambulações — reais ou imaginárias — da Caaba interiorizada como “centro cósmico.”