DISCÍPULO DE KHIDR

HCIA

A condição de discípulo de Khidr — traço dominante do caráter de Ibn Arabi — identificava-o aos sufis chamados Uwayysis, cuja espiritualidade pressupõe um vínculo pessoal, direto e imediato com o mundo divino, dispensando qualquer sucessão histórica de mestres.

Para responder completamente à pergunta sobre quem é Khidr seria necessário reunir material de fontes muito diversas — profetologia, folclore, alquimia —, mas considerado essencialmente como mestre espiritual invisível reservado a quem é chamado a uma relação direta com o mundo divino, podem-se destacar pontos essenciais: sua aparição no Corão, o significado de seu nome, sua ligação com o profeta Elias e a ligação deste com o Imã do xiismo.

A genealogia terrena de Khidr coloca um problema que desafia a análise histórica, pois segundo certas tradições ele seria descendente de Noé em quinta geração — o que remete a uma dimensão muito distante do tempo histórico cronológico.

A preeminência extraordinária da cor verde no islã está ligada ao modo de percepção evocado por Khadir, ainda que tal preeminência permaneça inexplicada em sua profundidade.

A impossibilidade de explicar em todos os detalhes a relação entre Khidr e Elias — ora associados como par, ora identificados — não impede de apontar o vínculo essencial que as tradições xiitas estabelecem entre a pessoa de Khidr-Elias e a pessoa do Imã.

Diante da complexidade da figura de Khidr-Elias — com suas inúmeras associações e metamorfoses — o único caminho para um resultado significativo é o método fenomenológico, que busca revelar as intenções implícitas da consciência mística ao mostrar a si mesma essa figura em todos os seus aspectos.

Suhrawardi abre um caminho para a compreensão do fenômeno de Khidr em sintonia com a intenção de Ibn Arabi — especialmente no recital do “Arcanjo Púrpura”, onde o Anjo diz ao místico: “Calça as sandálias de Khidr.”

A “guia” de Khidr não conduz todos os discípulos uniformemente à mesma teofania, como um teólogo propagando seu dogma, mas leva cada discípulo à sua teofania pessoal — aquela que corresponde ao seu “céu interior”, à forma de seu próprio ser, à sua individualidade eterna (ayn thabita).

A figura de Khidr remete novamente àquela cuja recorrência se nota não apenas na teosofia mística mas também nos filósofos — quando, pelos problemas da noética, a Inteligência Ativa se lhes dá a conhecer como a inteligência do Anjo do Conhecimento e da Revelação, isto é, o Espírito Santo.

Dois episódios da juventude de Ibn Arabi testemunham a presença latente de Khidr em sua vida, e a culminação desse vínculo se deu no dia em que, num jardim em Mosul, Ibn Arabi recebeu a investidura do “manto” (khirqa) de Khidr.

Ibn Arabi descreve o significado do rito de investidura com o manto e a cadeia de transmissão pela qual chegou a ele.

A possibilidade de abreviar a distância entre o iniciado e Khidr — como ocorreu quando Ibn Arabi passou de três intermediários para apenas um — implica uma contração tendente ao sincronismo perfeito, concebível apenas no tempo psíquico puramente qualitativo.

A biografia de Ibn Arabi — medida no ritmo de seus três símbolos — revela uma coerência exemplar que confirma o sentido de toda a sua trajetória espiritual.