MATURIDADE DA OBRA

HCIA

Aos quarenta anos — idade em que a maioria dos mestres considera possível a consumação do estado espiritual ligado ao discipulado de Khidr — Ibn Arabi encontrava-se em plena maturidade, e dois anos após a investidura mística em Mosul estava no Cairo com um pequeno grupo de sufis que cultivava intensa vida mística.

A tensão com os doutores da Lei no Cairo colocou Ibn Arabi em perigo de morte, revelando o antagonismo irredutível entre o islã espiritual do sufismo e o islã legalitário.

Em 1210, em Konya, no coração da Anatólia, Ibn Arabi recebeu uma magnífica recepção do imperador seljúcida Kay Kaus I, e sua estada nessa cidade assumiu importância extraordinária para a vida espiritual do sufismo no islã oriental.

A amizade entre Sadruddin e Rumi tornou-o o elo entre Ibn Arabi e o autor do imenso Mathnawi místico — chamado pelos iranianos de “Corão persa” — embora um intervalo de dez anos tenha impedido o encontro físico entre os dois maiores representantes da espiritualidade sufi.

Após Konya, Ibn Arabi continuou para a Anatólia oriental, passou pela Armênia e por Diyarbekr, e em 1211 estava em Bagdá, onde conheceu o famoso shaikh Shihabuddin Umar Suhrawardi — não confundir com Shihabuddin Yahya Suhrawardi, o shaikh al-Ishraq.

O Fusus al-Hikam (“As Gemas da Sabedoria dos Profetas”) foi redigido em consequência de uma visão onírica de 627/1230, na qual o Profeta apareceu a Ibn Arabi segurando um livro e ordenando-lhe que transmitisse seus ensinamentos em benefício dos discípulos.

As Futuhat — chamadas de “Bíblia do esoterismo no islã” — foram concebidas durante a primeira estada de Ibn Arabi em Meca e compostas ao longo de muitos anos, de modo não contínuo, sob ditado da inspiração divina.

A compreensão da obra de Ibn Arabi pressupõe a vontade de avaliá-la positivamente, pois a forma como cada um recebe seu pensamento conforma-se ao próprio “céu interior” — esse é o próprio princípio do teofonismo de Ibn Arabi.

Ibn Arabi morreu pacificamente em Damasco a 28 de Rabi II, A.H. 638 (16 de novembro de 1240), rodeado de familiares, amigos e discípulos sufis, e foi sepultado ao norte de Damasco, no subúrbio de Salihiya, ao pé do Monte Qasiyun — lugar já santificado aos olhos muçulmanos por todos os profetas, mas especialmente por Khidr.