SITUAÇÃO DO ESOTERISMO

HCIA

A questão do esoterismo islâmico em comparação com o esoterismo cristão exige investigação preliminar ainda insuficiente, e o que se pode oferecer é apenas um esboço, necessariamente limitado pelo alcance da experiência do observador.

O parentesco fundamental entre o xiismo e o sufismo repousa no postulado esotérico compartilhado de que a tudo que é aparente, literal e exotérico (zahir) corresponde algo oculto, espiritual e esotérico (batin).

A intelligentia spiritualis produz a união entre religião profética e religião mística, suscitando uma tríplice preocupação com o método, o órgão e a fonte dessa hermenêutica.

A fonte da hermenêutica esotérica remete à figura da Inteligência Ativa como Espírito Santo, Anjo do Conhecimento e da Revelação, com linhas de conexão que vão da noética aviceniana ou suhrawardiana ao esoterismo xiita e sufi.

A comparação entre o esoterismo islâmico e o cristão exige verificar se na cristandade — também um povo do Livro — existe fenômeno comparável à afirmação de um sentido oculto e à necessidade de uma hermenêutica profética.

O contraste entre as duas situações é flagrante, e qualquer construção dogmática especulativa que tente reduzir uma forma à outra falsifica o fenômeno em detrimento do que cada uma representa.

Todo esoterismo no islã — no xiismo e no sufismo — reconhece uma antropomorfose divina, uma Manifestação divina em forma humana, mas essa antropomorfose se dá “no céu”, no plano dos universos angélicos — o Anthropos celeste não se “encarna” na terra, mas se manifesta em figuras teofânicas.

Os adversários do esoterismo islâmico e cristão reconhecem-se e concordam entre si — assim como ocorre com seus adeptos —, e o modo como os doutores islâmicos da Lei são citados pelos adversários cristãos do esoterismo revela o que há em comum entre eles.

As respostas do esoterismo islâmico às questões que lhe são dirigidas constituem um conjunto de ideias que merecem ser recapituladas antes de qualquer comparação com o esoterismo cristão.

Para determinar os paralelos entre as situações do esoterismo no islã e no cristianismo é necessária uma tipologia religiosa que não coincide com as fronteiras históricas — pois as linhas de clivagem dessa tipologia cortam transversalmente as formações definidas oficial e denominacionalmente pela história.

A Gnose ismailita realiza a descoberta intuitiva de um mundo multidimensional por meio da ciência universal das Balanças, que indica o invisível como contrapeso necessário ao visível — e as teosofias da Luz aplicaram as leis de sua própria perspectiva interpretando esotericamente as leis geométricas da óptica.

O termo “Si mesmo” (Self), tal como empregado na obra de Ibn Arabi e dos teosofistas sufis, não designa nem o Si impessoal atingível por técnicas análogas ao ioga, nem o Si dos psicólogos, mas remete à famosa máxima: quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor.

O grito “Deus está morto!” deixou muitos à beira do abismo porque o mistério da Cruz de Luz foi há muito suprimido — e a única resposta é a palavra que Sophia, emergindo da noite, murmurou ao ouvido do peregrino pensativo em circumambulação da Caaba: “Seria possível que tu mesmo já estivesses morto?”

A introdução anuncia os temas das duas partes da obra, cujo elo central é a Imaginação criadora e a teofania.

O termo Fedeli d'amore não se aplica indiscriminadamente à comunidade sufi, mas especificamente àqueles para quem a experiência de um culto de amor dedicado a um belo ser é a iniciação necessária ao amor divino — conforme a distinção traçada por Ruzbehan Baqli de Shiraz em seu livro O Jasmim dos Fedeli d'amore.