O "DEUS PATÉTICO"

HCIA

As premissas da teologia negativa estão longe de excluir uma situação dialogal — ao contrário, são essenciais à autenticidade dessa situação, como demonstra a Gnose islâmica, cujas premissas têm traços em comum com os da gnose em geral.

A etimologia ismailita do nome divino Al-Lah projeta uma luz sobre o caminho percorrido, derivando a palavra ilah da raiz wlh — que connota ser dito estar oprimido de tristeza, suspirar em direção a, refugiar-se com temor junto a —, conferindo ao nome divino o significado de “tristeza.”

O hadith que todos os místicos do islã meditam incessantemente exprime o segredo da paixão divina: “Era um Tesouro oculto e desejei ser conhecido. Então criei as criaturas para ser conhecido por elas” — ou, com maior fidelidade ao pensamento de Ibn Arabi: “para tornar-me nelas o objeto de meu próprio conhecimento.”

Das profundezas insondáveis da Divindade essa tristeza clama por um “Suspiro de Compaixão” (Nafas Rahmani) — que marca a libertação da Tristeza divina em simpatia com a angústia de Seus Nomes divinos que permaneceram desconhecidos, e nesse ato exala e desperta para o ser ativo a multidão de existências concretas individuais.

Os Nomes divinos não são atributos conferidos pelo intelecto teórico à Essência divina como tal — são essencialmente os vestígios de sua ação em nós, da ação pela qual cumprem seu ser por meio de nosso ser, assumindo em nós o aspecto do que, segundo a velha terminologia medieval, pode ser chamado de sua significatio passiva.

Do princípio da virtualidade eterna decorrem consequências de largo alcance, entre elas a doutrina do “Deus criado nas fés” — expressão que recorre mais de uma vez nos escritos de Ibn Arabi.

O agente real no ato e na atualização religiosa por excelência — revelado por uma fenomenologia da prece segundo as premissas da teosofia mística de Ibn Arabi — é sempre o invisível, o imaterial: a Compaixão age e determina, faz as coisas ser e tornar-se como ela, porque é um estado espiritual cujo modo de ação é a sympatheia.