O POEMA SOFIÂNICO DE UM «FIEL DO AMOR»

HCIA

No prólogo do Diwan — intitulado “O Intérprete dos Ardentes Desejos” — Ibn Arabi narra as circunstâncias de composição da obra: durante sua estada em Meca no ano 598 da Hégira (1201), frequentou um grupo de homens e mulheres distintos, encontrando como o mais eminente o sábio doutor Zahir ibn Rustam, natural de Ispahan, e sua irmã Fakhr al-Nisa (“Glória das Mulheres”) Bint Rustam.

A acusação de que Ibn Arabi dissimulava um amor sensual para preservar a reputação de austeridade foi levada a ele por dois de seus discípulos mais próximos e o levou a redigir um longo comentário ao Diwan, tentando demonstrar que a imagística amorosa e a figura feminina central eram apenas alusões às “realidades espirituais, às iluminações divinas, às intuições transcendentes da teosofia mística.”

O evento central do prólogo situa-se numa Noite memorável durante as circumambulações rituais da Caaba — e a noite como sinal revela o caráter visionário do evento.

Os quatro versos de Ibn Arabi, escritos em linguagem arcana semelhante ao langage clus dos trovadores, referem-se às “supremas Contempladas” (al-manazir al-ula) — as Figuras designadas como Sabedorias (hikam), individuações da Sabedoria eterna, cada uma transmitida a um dos vinte e sete profetas tipificados no livro dos Fusus.

A reprimenda da Sophia mística ao fedele exprime com rigor elevado e apaixonado a verdade essencial da religião dos Fedeli d'amore.

O prólogo do Diwan revela dois aspectos que orientarão toda a investigação subsequente: a aptidão visionária do fedele d'amore que investe a forma concreta do ser amado com uma “função angélica”, e a experiência psicoespiritual fundamental do encontro com a Sophia mística.