O FEMININO-CRIADOR

HCIA

A dialética do amor, ao acionar a Imaginação ativa e criadora, realizou no plano teofânico uma reconciliação do espiritual e do físico — e dela depende a possibilidade de “ver a Deus”, não com a visão impossível da Essência divina em sua nudez, mas com a visão do Senhor particular de cada alma mística.

Para que o místico possa exemplificar essa devoção, a contemplação deve efetuar-se numa forma que apresente a própria Imagem do Ser divino — e a intuição dominante no capítulo final dos Fusus é que o místico obtém a mais elevada visão teofânica ao contemplar a Imagem do ser feminino, pois é na Imagem do Feminino Criador que a contemplação pode apreender a mais alta manifestação de Deus: a divindade criadora.

A intuição sofianica do Feminino Criador encontra correspondência nos extremos do xiismo — ismailitas e Nusayris —, que na pessoa de Fatima, concebida como “Virgem-Mãe” que dá à luz a linhagem dos Santos Imãs, percebem uma teofania da Sophia aeterna e atribuem ao seu nome a qualificação demiúrgica no masculino: Fatima-Criador (Fatima fatir).

A quaternidade formada pelos pares Adão-Eva e Maryam-Jesus — que nossos místicos foram levados a configurar para expressar o evento que experimentavam em si mesmos — exprime o símbolo e o “cifra” da sofiologia.

A preeminência do Feminino Criador como epifania da Beleza divina é sustentada por observações lexicográficas e gramaticais que Ibn Arabi trata com sua filologia pessoal como dados que revelam uma realidade metafísica superior.

O verso atribuído a Hallaj — “Minha mãe deu à luz a seu pai; isso é uma maravilha” — exprime o segredo da origem dos seres na forma de um paradoxo, e foi comentado por dois grandes nomes da religião mística do amor: Fakhruddin Iraqi no século XIII e Jami no século XV.

A substituição de Maryam pelo místico — realizada por Jalaluddin Rumi numa das mais belas páginas do Mathnawi — torna o episódio da Anunciação um dos símbolos que verificam a máxima “quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor.”

O aparente monismo de Ibn Arabi dá lugar a um diálogo — a uma situação dialogal —, que o canto final do Livro das Teofanias exprime em voz que se identifica com a da Sophia divina, do Anjo, do Fravashi.