CRIAÇÃO RECORRENTE

HCIA

A ideia de criação recorrente — nova criação (khalq jadid) — é um dos termos-chave do sistema teosófico de Ibn Arabi e coloca em questão a própria natureza da criação, pois não há lugar em seu pensamento para uma creatio ex nihilo, um começo absoluto precedido do nada.

Nunca cessamos de ver o que vemos — e não percebemos que há existenciação e desaparecimento a cada momento, porque quando algo desaparece algo semelhante é existenciado no mesmo instante.

O fundamento positivo dessas metamorfoses é a ativação perpétua dos Nomes divinos que clamam pela existenciação concreta das hexeidades que, embora manifestem o que os Nomes são, são em si mesmas puros possíveis que não exigem existência concreta.

No sistema de Ibn Arabi, o termo fana' (aniquilação) — tão frequentemente empregado no sufismo — assume significado técnico preciso: não designa a destruição dos atributos que qualificam a pessoa do sufi, nem sua passagem a um estado que anula sua individualidade fundindo-a com o “universal” ou com a pura Essência inacessível.

A doutrina da recorrência da criação distingue-se claramente da cosmologia ash'arita — que ensina que os acidentes se renovam a cada instante sem durar dois momentos sucessivos —, embora os ash'aritas empreguem conceitos semelhantes num edifício muito diferente.

Esta concepção é a chave de um sistema inteiro de pensamento e abre a perspectiva mais elevada desse sistema: a ideia de uma ascensão contínua dos seres.