A DUPLA DIMENSÃO DOS SERES

HCIA

A homologação e a interpretação da forma teofânica só são válidas quando tomadas em conjunto: dizer que a forma teofânica é outra que Deus não é depreciá-la como ilusória, mas estabelecê-la como símbolo remetendo ao ser divino.

Porque há Imaginação, há ta'wil; porque há ta'wil, há simbolismo; e porque há simbolismo, os seres têm duas dimensões — apercepção que reaparece em todos os pares de termos que caracterizam a teosofia de Ibn Arabi.

A estrutura bidimensional de um ser parece depender da noção de hecceidade eterna (ayn thabita), que é o arquétipo de cada ser individual no mundo sensível — sua individuação latente no mundo do Mistério, que Ibn Arabi denominou também de Espírito ou “Anjo” desse ser.

Ibn Arabi formula a coincidentia oppositorum com referência ao Corão, tomando a palavra “Corão” por homonímia no sentido de conjunção, simultaneidade — e furqan no sentido de discriminação, disjunção.

O órgão que estabelece e percebe a coincidentia oppositorum — a simultaneidade de complementares que determina a dupla dimensão dos seres — é a Imaginação Ativa do homem, que pode ser chamada de criativa na medida em que é, como a própria Criação, teofânica.

Essa partilha dos Nomes resulta do duplo movimento de descida e ascensão — descida como Epifania e Imaginação existenciante primordial; ascensão ou retorno como visão dispensada proporcionalmente à capacidade do receptáculo —, e é ela que constitui a obra da prece teofânica.