HCIA
A doutrina da Imaginação em sua função psicocósmica tem dois aspectos inseparáveis — o cosmogônico ou teogônico, que medita as teofanias dos Nomes divinos como um processo de iluminação crescente das possibilidades latentes no Ser Divino original, e o especificamente psicológico — e Ibn Arabi, num capítulo das Futuhat, esboça uma “ciência da Imaginação” (ilm al-khayal) com o schema dos temas nela envolvidos.
Qualquer que seja o aspecto, o grau ou a fase em que se considera a Imaginação — na função cósmica, como “Dignidade Imaginativa” (Hadrat khayaliya) ou como potência imaginativa no homem —, uma característica permanece constante: sua função de intermediária, de mediatriz.
A Nuvem Primordial — o Suspiro divino existenciante de Compaixão — é o intermediário entre a Essentia abscondita divina e o mundo manifesto das formas múltiplas.
O mundo das Imagens-Ideias, o mundo das formas aparicionais e dos corpos em estado sutil (alam al-mithal), é o intermediário entre o mundo das realidades espirituais puras e o mundo sensível visível.
O sonho é intermediário entre o estado de “vigília” real no sentido místico e a consciência de vigília no sentido comum e profano.
A visão do Profeta do Anjo Gabriel na forma de Dahya al-Kalbi — um jovem árabe conhecido pela beleza —, as imagens vistas em espelhos — que não são objetos nem ideias abstratas — são realidades intermediárias; e porque são intermediárias, culminam na noção de símbolo.
A ciência da Imaginação é ao mesmo tempo teogonia, cosmologia, ciência das teofanias dispensadas especificamente aos místicos e de todas as taumaturgias relacionadas — e tem o poder específico de fazer existir o Impossível, poder que é posto em efeito pela Oração.
Como ciência dos espelhos — de todas as “superfícies” de espelhamento e das formas que nelas aparecem — ela tira as últimas consequências do fato de que, embora as formas apareçam nos espelhos, não estão nos espelhos.
A ela pertence também a geografia mística — o conhecimento da Terra criada da argila excedente de Adão, onde todas as coisas vistas neste mundo existem em estado sutil, com suas figuras, contornos e cores.
É a ciência das contemplações paradisíacas: explica como os habitantes do “Paraíso” entram em toda forma bela que concebem e desejam, tornando-a sua veste e a forma em que aparecem a si mesmos e aos outros.
Os teóricos racionalistas (ashab al-nazar) aceitam tudo isso apenas com relutância, como “alegoria” — e quando tal testemunho vem do próprio místico, o rejeitam e o atribuem ao “distúrbio da imaginação” (fasad al-khayal).
Mas o que esses homens de conhecimento teórico ignoram é o caráter intermediário da Imaginação — que a situa ao mesmo tempo no sensível e no inteligível, no possível, no necessário e no impossível —, tornando-a um “pilar” (rukn) do conhecimento verdadeiro, a gnose (ma'rifa).
No aspecto especificamente psicológico da Imaginação, Ibn Arabi distingue uma imaginação conjunta ao sujeito imaginante e inseparável dele (khayal muttasil) e uma imaginação autônoma, dissociável do sujeito (khayal munfasil).
Na imaginação conjunta, distinguem-se as imaginações premeditadas ou provocadas por um processo consciente da mente e as que se apresentam espontaneamente como sonhos.
A imaginação separável do sujeito possui uma realidade autônoma e subsistente sui generis no plano do mundo intermediário, o mundo das Imagens-Ideias — “exterior” ao sujeito imaginante, pode ser vista por outros no mundo exterior, mas na prática esses outros devem ser místicos (pois o Profeta via o Anjo Gabriel quando seus Companheiros estavam presentes, enquanto estes viam apenas o belo jovem árabe).
As Imagens “separáveis” subsistem num mundo que lhes é específico — a Imaginação em que ocorrem é uma “Presença” com o estatuto de uma “essência” (hadrat dhatiya) perpetuamente capaz de receber ideias (ma'ani) e Espíritos (arwah) e de lhes dar o “corpo aparicional” que torna possível sua epifania.
Mesmo a Imaginação conjunta ao sujeito não é uma faculdade que funciona arbitrariamente no vazio secretando “fantasias” — pois quando a forma do Anjo “se projeta numa forma humana”, esse ato ocorre no plano da Imaginação autônoma (munfasil), que então eleva a Imagem ao plano da imaginação conjunta.
Há apenas uma Imaginação autônoma — porque é a Imaginação absoluta (Khayal mutlaq), absolvida de qualquer condição que subordinaria sua subsistência, e é a Nuvem Primordial que constitui o universo como teofania.
As Leis divinas reveladas determinam e fixam a modalização do Ser Divino na qibla (“orientação”), no “face a face” do crente em oração — e o “Deus criado nas fés” participa dessa imaginação conjunta ao sujeito; mas porque a Compaixão — a Existenciação Divina — também abraça o “Deus criado nas fés”, a imaginação conjunta está incluída nos modos da Imaginação absoluta, que é a Presença absolutamente abarcante (al-Hadrat al-jami'a, al-martabat al-shamila).
É a noção da Imaginação separável e autônoma que se relaciona mais diretamente com o tema da função “criadora” da Imaginação na experiência mística — e sua análise exige dois termos técnicos: o “coração” e a himma.
A himma é uma noção extremamente complexa para a qual nenhuma palavra única talvez baste como tradução — mediação, projeto, intenção, desejo e força de vontade são equivalentes sugeridos.
O aspecto que abarca todos os outros, e que aqui será o centro da análise, é o de “poder criador do coração.”